Capítulo 136 — Admiração
A vida dos dois continuou assim por algum tempo.
Até que seus caminhos se cruzaram com o de um homem que mudaria tudo.
Isso aconteceu quando Kagetsu e Seinaru tinham dezenove anos.
Naquela época, já haviam adquirido reputação suficiente para que seus nomes circulassem entre os caçadores independentes. Eram conhecidos por aceitarem missões que outros recusavam, por protegerem comunidades que não podiam pagar e por desaparecerem antes que a Igreja conseguisse enviar reforços para capturá-los.
Os relatórios sobre suas atividades chegaram até Celestria.
E chegaram também às mãos de um homem, Sora.
O atual Shinpan-Kan Número Um não era um desconhecido para a Igreja. Sua força havia se tornado assunto de histórias entre soldados, comandantes e aqueles que conheciam as verdadeiras dimensões do poder que existia dentro da instituição.
Kagetsu já ouvira falar dele muito antes de encontrá-lo.
Diziam que Sora havia derrotado grupos inteiros sem sofrer um único ferimento.
Diziam que sua força ultrapassava a compreensão dos guerreiros comuns.
Diziam muitas coisas.
Mas Kagetsu sempre se interessara mais pelas histórias que vinham acompanhadas de atos de bondade.
Um soldado contara que Sora permanecera ao lado de uma família durante horas depois de uma batalha, ajudando a retirar os feridos dos escombros.
Outro afirmara que o Número Um havia interrompido uma execução para ouvir a última explicação de um prisioneiro.
Havia também quem dissesse que ele jamais precisava gritar para ser obedecido.
Kagetsu admirava aquele homem.
Não apenas pela força.
Mas pela ideia de que alguém tão poderoso ainda pudesse tratar os outros com gentileza.
Seinaru, por outro lado, desconfiava de qualquer pessoa que ocupasse uma posição tão elevada dentro da Igreja.
— Você acredita mesmo em todas essas histórias? — perguntou certa vez.
Kagetsu ajustava a bainha da katana.
— Não em todas.
— Então?
— Quero descobrir quais são verdadeiras.
Seinaru cruzou os braços.
— E como pretende fazer isso?
Kagetsu sorriu.
— Se algum dia ele aparecer na nossa frente, eu pergunto.
— Claro. Porque fazer perguntas ao Shinpan-kan é uma excelente maneira de evitar problemas.
— Você está comigo, não está?
Seinaru fechou os olhos.
— Infelizmente.
Naquele momento, nenhum dos dois imaginava que teriam a oportunidade de conhecer Sora pessoalmente.
Muito menos que o encontro aconteceria nas circunstâncias em que aconteceu.
A missão deveria ter sido simples.
Kagetsu e Seinaru haviam recebido informações de que soldados da Igreja estavam se preparando para prender um grupo de caçadores independentes numa região montanhosa. Os dois chegaram antes que a operação começasse e ajudaram os caçadores a abandonar o local.
Mas a retirada foi descoberta.
Quando perceberam que haviam perdido a oportunidade de capturar o grupo, os soldados da Igreja cercaram a passagem entre as montanhas.
Kagetsu e Seinaru ficaram para trás, permitindo que os demais escapassem.
E foi ali que o encontraram.
Um homem que parecia ter entre trinta e quarenta anos estava parado no meio da estrada.
Não havia pressa em sua postura.
Não havia qualquer sinal de que estivesse preocupado com a possibilidade de enfrentar dois caçadores considerados perigosos.
Quando Kagetsu e Seinaru se aproximaram, ele os recebeu com um sorriso leve.
A voz que se seguiu era tão doce e tranquila que, por um instante, Kagetsu teve dificuldade em associá-la ao homem cujo nome conhecia havia anos.
— Boa tarde.
Os dois pararam.
Kagetsu observou a estrada atrás dele.
— Você está sozinho?
O homem manteve o sorriso.
— Pelo que posso ver, sim.
Seinaru permaneceu atento.
— Quem é você?
— O meu nome é Sora.
O silêncio foi imediato.
Kagetsu arregalou os olhos.
Seinaru não se moveu, mas sua expressão mudou.
O homem diante deles era o Shinpan-Kan Número Um.
A figura que Kagetsu admirava.
O guerreiro cuja força havia se transformado em lenda.
E que, naquele momento, parecia mais interessado em conversar do que em capturá-los.
Sora inclinou levemente a cabeça.
— Kagetsu Arashi e Seinaru Hitomi. Finalmente tenho a oportunidade de conhecê-los pessoalmente.
Kagetsu levou a mão à espada.
— Veio nos prender?
Sora pensou por um instante.
— Essa seria uma maneira bastante desagradável de começar uma conversa, não acha?
Kagetsu não soube o que responder.
Sora continuou, sempre com a mesma serenidade:
— Ouvi falar bastante de vocês. Dois jovens que recusaram abandonar seu trabalho depois que a organização de caçadores foi dissolvida. Dois caçadores que continuam ajudando pessoas, mesmo sabendo que isso os coloca em conflito com a Igreja.
Seinaru estreitou os olhos.
— Se conhece nossa história, sabe que não vamos voltar atrás.
— Imagino que não.
— Então por que está aqui?
Sora olhou para a passagem entre as montanhas.
— Porque queria conhecê-los.
Kagetsu piscou.
— O quê?
— Os relatórios são interessantes, mas relatórios não respiram. Não sentem medo, não hesitam, não cometem erros por motivos que não cabem numa página. Eu queria conhecer as pessoas por trás deles.
Kagetsu ficou olhando para o homem.
A resposta não parecia a de alguém que havia percorrido aquela distância para capturar dois fugitivos.
Sora voltou a encará-los.
— Posso fazer uma pergunta?
Seinaru não respondeu.
Kagetsu, porém, assentiu.
— O que vocês fariam se tivessem poder suficiente para impedir que alguém sofresse?
A pergunta surpreendeu os dois.
Kagetsu franziu a testa.
— Nós já fazemos o que podemos.
— Eu sei. Mas não foi isso que perguntei.
Sora falava como alguém que não tinha pressa de chegar ao fim de uma conversa.
— Imaginem que pudessem atravessar qualquer distância, enfrentar qualquer inimigo e chegar a qualquer lugar antes que uma tragédia acontecesse. O que fariam com esse poder?
Kagetsu respondeu primeiro.
— Usaria para proteger as pessoas.
Sora sorriu um pouco mais.
— Todas elas?
Kagetsu hesitou.
— Tentaria.
— Mesmo aquelas que o odiassem?
— Se estivessem em perigo, sim.
— Mesmo aquelas que não merecessem sua ajuda?
A pergunta fez Kagetsu franzir a testa.
— Quem decide quem merece ser ajudado?
Por um instante, Sora permaneceu em silêncio.
Então soltou uma risada baixa e gentil.
— Uma resposta interessante.
Seinaru continuava desconfiado.
— E você? — perguntou. — O que faria?
Sora ergueu os olhos para o céu entre as montanhas.
— Eu gostaria que ninguém precisasse de um poder extraordinário para continuar vivendo.
A resposta foi tão simples que Kagetsu não soube o que dizer.
Sora continuou:
— Às vezes, as pessoas acreditam que a paz será alcançada quando surgir alguém forte o bastante para derrotar todos os seus inimigos. Mas, se a paz depender de uma única pessoa, ela desaparecerá no instante em que essa pessoa cair.
O sorriso permaneceu em seu rosto.
— Uma força capaz de vencer uma guerra não é necessariamente uma força capaz de impedir a próxima. Talvez a tarefa mais difícil não seja derrotar quem ameaça o mundo, mas construir um mundo no qual as pessoas não precisem transformar os outros em inimigos para se sentirem seguras.
Seinaru ficou quieto.
Kagetsu sentiu algo se mover dentro do peito.
Era a mesma ideia que o acompanhara desde a infância, mas expressa de uma maneira que jamais conseguira formular.
Sora não falava como alguém que desejava ser adorado.
Falava como alguém que considerava a própria força uma responsabilidade.
Kagetsu apertou o cabo da katana.
— Se acredita nisso, por que trabalha para a Igreja?
Sora voltou a olhar para ele.
— Porque acredito que ainda há pessoas lá dentro que desejam fazer o bem. E porque instituições, assim como pessoas, podem mudar. Não significa que sempre mudem. Significa apenas que não devemos desistir delas antes de tentar.
Seinaru deu um passo à frente.
— E se não mudarem?
Sora não perdeu o sorriso.
— Então teremos de decidir o que fazer com aquilo que aprendemos.
A resposta não foi uma ameaça.
Também não foi uma promessa de que tudo daria certo.
Foi apenas uma aceitação tranquila de que o mundo não oferecia garantias.
Kagetsu percebeu, naquele instante, por que admirava aquele homem.
Sora não precisava fingir que possuía todas as respostas.
E, ainda assim, sua presença transmitia uma segurança que poucos guerreiros conseguiriam oferecer.
Mas a conversa não terminaria ali.
Sora deu um passo para o lado, deixando a estrada livre atrás de si.
— Gostaria de ver como vocês lutam.
Seinaru assumiu imediatamente uma postura de combate.
— Vai nos enfrentar?
— Não exatamente.
Kagetsu desembainhou a katana.
— O que isso quer dizer?
Sora inclinou a cabeça.
— Quero conhecer o que vocês são capazes de fazer quando precisam lutar por aquilo em que acreditam.
Kagetsu sentiu a empolgação subir pelo peito.
Finalmente.
A oportunidade de enfrentar o homem que admirava.
— Se é isso que quer...
Ele assumiu a postura de ataque.
Seinaru posicionou-se ao seu lado.
Sora observou os dois por um instante.
— Só peço que tenham cuidado.
Kagetsu soltou uma risada incrédula.
— Você está brincando comigo?
Sora sorriu.
Kagetsu atacou primeiro.
Avançou com a katana, executando um golpe diagonal que teria obrigado um adversário comum a recuar.
Sora simplesmente saiu do caminho.
Não bloqueou.
Não desviou a lâmina com outra arma.
Apenas deslocou o corpo o suficiente para que o golpe passasse sem tocá-lo.
Kagetsu girou, tentando atingir o flanco do adversário.
Sora deu um passo para trás.
A lâmina cortou apenas o ar.
Seinaru entrou em seguida.
O jovem caçador avançou com uma sequência de golpes corporais usando seu Kai da Luz, surpreendendo Sora. Seus movimentos eram precisos, construídos para limitar as opções de fuga do adversário.
Sora apesar da surpresa, passou entre eles como se estivesse caminhando por uma rua tranquila.
Inclinou a cabeça para evitar um soco.
Deslocou o pé para escapar de um chute.
Girou o corpo, deixando um cotovelo passar a poucos centímetros de seu rosto.
Em nenhum momento pareceu apressado.
E em nenhum momento aquele sorriso leve sumiu de seu rosto.
Kagetsu tentou antecipar o próximo movimento.
Atacou de baixo para cima.
Sora recuou.
Seinaru avançou pelo lado oposto.
Sora inclinou o corpo.
Os dois ataques se cruzaram no espaço onde ele estivera um instante antes.
— Vocês trabalham bem juntos — comentou Sora.
Kagetsu rangeu os dentes.
— Para de conversar e luta!
Sora soltou uma risada suave.
— Mas eu estou lutando.
Kagetsu avançou com um grito, executando três golpes consecutivos.
O primeiro passou diante do peito de Sora.
O segundo cortou o vazio.
O terceiro foi evitado com um movimento tão pequeno que Kagetsu mal conseguiu acompanhar.
Seinaru tentou agarrá-lo pelo braço.
Sora girou o pulso e saiu do alcance sem aplicar qualquer força visível.
Os dois caçadores recuaram.
Kagetsu respirava com dificuldade.
Sora parecia não ter alterado o ritmo da própria respiração.
— O que está acontecendo? — murmurou Kagetsu.
Seinaru manteve os olhos fixos no adversário.
— Ele está lendo nossos movimentos.
— Eu sei disso!
— Então pare de anunciar os seus!
Kagetsu lançou-lhe um olhar indignado.
— Você está me dando conselhos agora?!
— Alguém precisa!
Sora observava a discussão com evidente divertimento.
— É bom que consigam conversar durante uma luta. Muitos companheiros só descobrem que não sabem trabalhar juntos quando já é tarde demais.
Kagetsu voltou-se para ele.
— Você poderia parar de dar lição de moral por cinco minutos?!
— Poderia.
Sora sorriu.
— Mas perderíamos uma oportunidade tão agradável de aprender alguma coisa.
Kagetsu avançou novamente.
Dessa vez, não atacou imediatamente.
Tentou observar os pés do adversário, a posição dos ombros, qualquer indício que pudesse revelar para onde Sora se moveria.
Seinaru percebeu a mudança e acompanhou o movimento do amigo.
Os dois atacaram simultaneamente.
Kagetsu pressionou pela frente, obrigando Sora a deslocar o corpo para a esquerda. Seinaru antecipou a saída e lançou um golpe na direção em que o adversário deveria aparecer.
Por uma fração de segundo, Kagetsu acreditou que haviam conseguido.
Sora, porém, mudou a direção do movimento antes de completar a esquiva.
Seu corpo atravessou o espaço entre os dois ataques.
Ele passou pelo lado de Kagetsu, contornou o golpe de Seinaru e terminou alguns passos atrás deles.
Nenhum ataque o atingiu.
Nenhum golpe sequer roçou suas roupas.
Sora virou-se calmamente.
— Melhor.
Kagetsu olhou para Seinaru.
O amigo estava tão surpreso quanto ele.
— Você viu isso? — perguntou Kagetsu.
— Vi.
— Como ele fez aquilo?
— Ainda estou tentando entender.
Sora colocou as mãos atrás das costas.
— Vocês estão tentando descobrir como me atingir. Mas, até agora, estão pensando apenas no meu corpo, nos meus movimentos e no espaço que ocupo.
Os dois permaneceram atentos.
— Uma luta não é apenas uma disputa entre duas forças. É também uma conversa. Cada movimento oferece uma informação, cada hesitação revela uma intenção. Se vocês se preocuparem apenas em impor sua vontade, deixarão de ouvir o que o adversário está dizendo.
Kagetsu respirou fundo.
Sora sorriu.
Seinaru baixou um pouco os ombros.
Kagetsu ajustou a posição dos pés.
Pela primeira vez, os dois deixaram de atacar imediatamente.
Sora os observou com aprovação.
— Muito bem.
O combate recomeçou.
Os minutos se transformaram em quase uma hora.
Kagetsu e Seinaru tentaram tudo o que conheciam.
Mudaram os ângulos dos ataques, alternaram a distância, trocaram de posição e buscaram criar armadilhas para restringir os movimentos de Sora.
O resultado permaneceu o mesmo.
Ele desviava de todos os golpes.
Às vezes, um simples movimento de cabeça era suficiente. Em outras ocasiões, deslocava o corpo com uma precisão tão absoluta que parecia conhecer a trajetória do ataque antes mesmo de os caçadores decidirem executá-lo.
Não contra-atacava.
Não os derrubava.
Não demonstrava irritação.
E, a cada minuto, Kagetsu sentia crescer a certeza de que estava diante de alguém cuja força ultrapassava tudo o que havia imaginado.
Não era apenas uma questão de velocidade.
Era a diferença entre tentar sobreviver a uma tempestade e perceber que se estava diante de algo que sequer precisava lutar contra o vento.
O cansaço começou a comprometer seus movimentos.
Kagetsu sentiu as pernas pesarem. A mão que segurava a katana começou a tremer. Sua respiração ficou irregular, e o suor escorreu pela testa.
Seinaru também estava exausto.
Os golpes continuavam precisos, mas já não possuíam a mesma velocidade. O corpo começava a responder com atraso, e cada movimento exigia um esforço maior do que o anterior.
Sora permanecia diante deles.
Tranquilo.
Sereno.
Como se o tempo não tivesse passado.
Kagetsu cambaleou depois de mais uma tentativa frustrada.
A ponta da katana quase tocou o chão.
— Você... — Ele tentou recuperar o fôlego. — Você nem está cansado?
Sora inclinou a cabeça.
— Um pouco.
Kagetsu olhou para ele com incredulidade.
— Mentira.
Seinaru soltou uma risada cansada, apesar da situação.
— Ele está fazendo isso de propósito.
— Finalmente concordamos em alguma coisa Respondeu Kagetsu.
Sora continuou sorrindo.
— Vocês ainda têm forças para conversar. Isso é um bom sinal.
Kagetsu ergueu a espada novamente.
Seinaru segurou seu ombro.
— Chega.
— Não.
— Kagetsu.
— Eu ainda consigo lutar.
— Mal consegue ficar de pé.
Kagetsu tentou se soltar.
— Eu não vou parar agora!
Seinaru apertou o ombro do amigo.
— Olha para mim.
Kagetsu virou o rosto.
— Nós já mostramos o que conseguimos fazer. Continuar atacando sem pensar não vai mudar o resultado.
Kagetsu rangeu os dentes.
Odiava admitir que o amigo tinha razão.
Odiava ainda mais a sensação de impotência que crescia dentro dele.
Durante anos, havia trabalhado até as mãos sangrarem. Havia aprendido a lutar, a sobreviver e a suportar dores que teriam feito outras pessoas desistirem.
Mas nada daquilo parecia suficiente diante de Sora.
Ele não conseguia atingi-lo.
Não conseguia obrigá-lo a recuar.
Não conseguia sequer fazê-lo abandonar aquele sorriso tranquilo.
Kagetsu abaixou a cabeça.
— Ainda não sou forte o bastante...
Sora ouviu.
E, pela primeira vez desde o início do combate, deu alguns passos em sua direção.
— Kagetsu.
O jovem ergueu os olhos.
— Força não é apenas a capacidade de fazer alguém recuar.
Sora parou diante dele.
— Às vezes, a pessoa mais forte de uma sala é aquela que consegue permanecer de pé quando todos esperam que ela desabe. Outras vezes, é aquela que reconhece que não pode vencer sozinha e aceita estender a mão.
Kagetsu ficou em silêncio.
Sora continuou, com a mesma voz suave:
— Não confundam o resultado desta luta com o valor de suas vidas. Se a vitória fosse a única medida de um guerreiro, então todos aqueles que perderam enquanto tentavam proteger alguém teriam vivido em vão.
Seinaru respirava com dificuldade, mas não desviou os olhos.
Sora olhou para os dois.
— Vocês lutaram para proteger outras pessoas mesmo quando isso lhes custou segurança, reputação e tranquilidade. Não preciso concordar com todas as decisões que tomaram para reconhecer o valor disso.
Kagetsu sentiu o coração bater mais forte.
— Então... por que não nos prende?
Sora sorriu.
— Porque não vim aqui para prendê-los.
— Mas somos inimigos da Igreja.
— Vocês se tornaram inimigos de uma ordem. Isso não significa que tenham se tornado inimigos de todas as pessoas que vivem dentro dela.
Kagetsu não conseguiu responder.
Sora estendeu a mão.
— Gostaria de fazer uma proposta.
Seinaru manteve-se alerta.
— Que proposta?
— Quero que se juntem à Igreja.
Kagetsu ficou imóvel.
Seinaru estreitou os olhos.
Sora não retirou a mão.
— Não estou pedindo que abandonem aquilo em que acreditam. Também não espero que esqueçam as razões que os trouxeram até aqui. Estou oferecendo a vocês uma oportunidade de aprender, crescer e proteger mais pessoas do que conseguiriam proteger sozinhos.
Seinaru respondeu imediatamente:
— E se a Igreja tentar nos transformar em armas?
Sora não pareceu ofendido.
— Então terão de decidir se aceitam ser tratados como armas.
— E se nos obrigarem?
O sorriso de Sora permaneceu leve.
— O poder de uma instituição não torna suas decisões corretas. E a força de uma pessoa não lhe concede o direito de decidir o destino de todas as outras.
Ele olhou para a estrada atrás deles.
— Mas não confundam resistência com liberdade. Às vezes, passamos tanto tempo lutando contra aquilo que nos aprisiona que esquecemos de perguntar se ainda estamos caminhando em direção ao que desejamos proteger.
Seinaru ficou quieto.
Sora voltou a encará-los.
— Vocês podem continuar fugindo, lutando e sobrevivendo de uma missão para outra. Ou podem aceitar a oportunidade de adquirir recursos, conhecimento e influência para mudar aquilo que consideram errado. Não prometo que será fácil. Não prometo que conseguirão mudar tudo.
Ele fez uma breve pausa.
— Prometo apenas que não vão precisar passar a vida se escondendo.
Kagetsu olhou para a mão estendida.
Durante muito tempo, acreditara que depender de alguém era uma fraqueza.
Depois, Seinaru lhe ensinara que havia coisas que nenhum homem precisava enfrentar sozinho.
Agora, diante de Sora, compreendia que aceitar ajuda não significava necessariamente abandonar os próprios princípios.
Talvez fosse apenas outra forma de continuar lutando.
Kagetsu segurou a mão dele.
— Eu aceito.
Seinaru virou-se para o amigo.
— Kagetsu...
— Eu sei o que você está pensando.
— Duvido muito.
Kagetsu sorriu.
— Não estou dizendo que vou obedecer cegamente a ninguém. Mas quero ver o que podemos fazer com essa oportunidade.
Seinaru permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Então olhou para Sora.
— Se aceitarmos, continuaremos dizendo o que pensamos.
Sora soltou uma risada suave.
— Espero sinceramente que sim.
— Mesmo quando discordarmos da Igreja?
— Principalmente nesses momentos.
Seinaru estudou a expressão dele, procurando algum sinal de mentira.
Não encontrou.
Por fim, apertou a mão de Sora.
— Está bem.
O sorriso do Número Um pareceu se tornar ainda mais acolhedor.
— Então sejam bem-vindos.
Kagetsu olhou para Seinaru.
Seinaru olhou para Kagetsu.
Os dois estavam exaustos, feridos e ainda desconfiavam do que os aguardava.
Mas, pela primeira vez em anos, não precisariam decidir sozinhos qual caminho seguir.
Os meses seguintes foram diferentes de tudo o que haviam conhecido.
A Igreja ofereceu aos dois acesso a instalações de treinamento, arquivos, equipamentos e mestres que conheciam profundamente os poderes dos Ancestrais.
Kagetsu teve dificuldades para se adaptar às regras.
Seinaru teve dificuldades para se adaptar às pessoas.
A diferença era que, agora, quando um deles cometia um erro, havia alguém ao lado para apontá-lo antes que a situação se tornasse um desastre.
Kagetsu continuava a treinar até a exaustão.
Seinaru continuava a reclamar.
Mas ambos começaram a compreender a dimensão das responsabilidades que acompanhavam a posição que haviam aceitado.
Foi durante esse período que Sora voltou a procurar Kagetsu.
Encontrou-o no pátio de treinamento, tentando executar um movimento com uma arma de haste emprestada.
A arma era maior do que as espadas às quais estava acostumado. Seu alcance oferecia vantagens, mas também exigia uma coordenação diferente.
Kagetsu errou o movimento e quase atingiu um suporte de madeira.
— Droga!
Sora, que observava de alguns passos de distância, falou tranquilamente:
Algum dias depois, Sora chamou Kagetsu a uma das salas de armazenamento da Igreja.
Seinaru estava presente quando chegaram.
— O que está acontecendo? — perguntou ele.
Sora indicou um objeto comprido, coberto por um tecido claro.
— Tenho um presente.
Kagetsu olhou para o embrulho.
Depois para Sora.
— Para quem?
— Para você.
Kagetsu franziu a testa.
— Por quê?
— Porque tenho acompanhado seu treinamento. Sua força física, sua resistência e a maneira como tenta controlar o espaço ao redor do adversário combinam com uma arma de maior alcance.
Sora retirou o tecido.
A alabarda Shiroromura apareceu diante deles.
Kagetsu ficou imóvel.
A arma possuía uma presença que fazia sua simples katana parecer ainda mais modesta. O cabo, a lâmina e o equilíbrio haviam sido concebidos para um guerreiro capaz de usar a força sem perder a precisão.
Kagetsu aproximou-se lentamente.
— Isso é...
— O nome é Shiroromura, eu mesmo a fiz — respondeu Sora.
O jovem estendeu a mão, mas hesitou antes de tocar na arma.
— Você está me dando isso?
— Estou.
— Mas por quê? Uma arma dessas...
Sora inclinou a cabeça.
— Uma arma não é um prêmio por ter se tornado invencível. É uma responsabilidade que se entrega a alguém que ainda tem muito a aprender.
Kagetsu olhou para ele.
Sora continuou:
— Não espero que você se torne mais poderoso apenas porque está segurando uma arma melhor. Espero que se torne mais consciente do que pode fazer com ela.
Kagetsu passou a mão pelo cabo.
O metal era frio.
O peso era diferente de tudo o que havia utilizado até então.
Ele a ergueu com as duas mãos, ajustando a postura.
Shiroromura moveu-se com dificuldade na primeira tentativa.
Na segunda, o movimento foi mais firme.
Na terceira, Kagetsu sentiu o equilíbrio da arma responder ao próprio corpo.
Seinaru observava com um sorriso discreto.
— Combina com você.
Kagetsu olhou para o amigo.
Olhou para Shiroromura novamente.
Depois se virou para Sora.
Por um instante, pareceu não saber como agradecer.
Finalmente, inclinou o tronco.
— Obrigado.
Sora tocou levemente seu ombro.
— Não precisa agradecer por uma oportunidade. Faça algo bom com ela.
Kagetsu ergueu os olhos.
— Vou fazer.
Kagetsu apertou a mão em torno do cabo.
Por um instante, pensou em Mio.
Pensou nos irmãos.
Pensou em todas as vezes em que acreditara que precisava carregar o mundo inteiro sozinho.
— Vou me lembrar disso.
Sora sorriu.