Capítulo 137 — Shinpan-Kan Número Cinco
Os anos passaram.
Kagetsu e Seinaru cresceram dentro da Igreja, mas não abandonaram aquilo que os havia levado até ali.
Continuaram questionando decisões que consideravam injustas.
Continuaram defendendo pessoas que não possuíam poder para se defender.
Continuaram discutindo entre si, treinando juntos e retornando às conversas que haviam começado na época da organização independente.
Com o tempo, Seinaru aperfeiçoou o Kai da Luz, refinando seu estilo de combate corpo a corpo com uma habilidade que ampliava suas possibilidades de ataque e defesa.
Kagetsu também, desenvolveu seu próprio poder: O Kai das Chamas Sagradas.
O fogo branco tornou-se uma extensão de seus movimentos, envolvendo golpes, ampliando a força dos impactos e transformando Shiroromura numa arma temida pelos adversários.
Mas a força não mudou aquilo que os dois mais valorizavam.
Seinaru continuou sendo a pessoa que percebia quando Kagetsu estava escondendo a dor atrás de uma piada.
Kagetsu continuou sendo aquele que se recusava a deixar o amigo enfrentar sozinho as consequências de uma decisão difícil.
A promessa feita diante da fogueira nunca precisou ser repetida.
Ela estava presente quando Seinaru voltava ferido de uma missão e encontrava Kagetsu esperando do lado de fora da enfermaria.
Estava presente quando Kagetsu era repreendido por um superior e Seinaru, mesmo sabendo que o amigo havia cometido um erro, permanecia ao seu lado para ajudá-lo a corrigir as consequências.
Estava presente nas discussões, nos silêncios e nos momentos em que um simples olhar bastava para que compreendessem o que o outro precisava.
E estava presente nos raros dias em que podiam esquecer suas responsabilidades.
Seinaru passou a carregar um charuto consigo na fase adulta, hábito que se tornaria inseparável de sua imagem. Kagetsu reclamava do cheiro. Seinaru afirmava que o amigo reclamava de tudo.
Kagetsu ria.
Seinaru fingia irritação.
E a vida continuava.
Até que, quando ambos tinham aproximadamente vinte e cinco anos, Sora decidiu que chegara a hora de reconhecê-los publicamente.
A nomeação dos novos Shinpan-Kan seria realizada diante de uma multidão de soldados, oficiais, moradores e membros da Igreja.
Kagetsu soube da decisão pouco antes da cerimônia.
Encontrou Seinaru num corredor, ajeitando a roupa formal.
— Está nervoso? — perguntou.
Seinaru não levantou os olhos.
— Não.
— Mentiroso.
— Você está nervoso.
— Eu perguntei primeiro.
Seinaru finalmente o encarou.
— Kagetsu, você vai receber um cargo importante diante de centenas de pessoas. Tente, pelo menos uma vez, não fazer alguma coisa idiota.
Kagetsu abriu um sorriso.
— Não posso prometer isso.
Seinaru suspirou.
— Eu sei.
Kagetsu apoiou Shiroromura contra a parede.
— Ei.
— O quê?
— Chegamos até aqui.
Seinaru ficou em silêncio.
Kagetsu estendeu o punho.
— Juntos.
Seinaru olhou para o gesto.
Depois encostou o próprio punho no do amigo.
— Juntos.
Os dois seguiram para a cerimônia.
O salão estava lotado.
Soldados ocupavam as fileiras laterais, enquanto oficiais e representantes da Igreja aguardavam diante da plataforma central.
O ambiente era solene.
As vozes diminuíram quando Sora apareceu.
Não houve necessidade de anunciar sua chegada com gritos ou demonstrações de força. A simples presença do Número Um foi suficiente para que a multidão se aquietasse.
Ele caminhou até o centro da plataforma.
Seu sorriso continuava leve.
Sua voz, quando começou a falar, alcançou o salão sem que precisasse elevá-la.
— Obrigado por terem vindo.
Sora observou os presentes.
— Hoje, não estamos reunidos apenas para reconhecer dois guerreiros. Estamos aqui para reconhecer duas escolhas.
A multidão permaneceu em silêncio.
— Ao longo da vida, todos nós somos colocados diante de decisões. Algumas são simples. Outras nos obrigam a escolher entre aquilo que é mais confortável e aquilo que acreditamos ser correto. E, às vezes, mesmo quando tentamos fazer o bem, descobrimos que nossos passos causaram sofrimento a alguém.
Ele fez uma breve pausa.
— Ser forte não significa nunca cometer erros. Significa ter coragem para reconhecê-los, humildade para aprender com eles e responsabilidade para não transformar o próprio orgulho numa desculpa para continuar errando.
Kagetsu permaneceu ao lado de Seinaru, ouvindo cada palavra.
Sora continuou:
— Os homens que chamarei a seguir não chegaram até aqui porque sempre obedeceram. Tampouco chegaram porque nunca discordaram de uma autoridade. Chegaram porque, mesmo quando o caminho diante deles parecia fechado, continuaram procurando maneiras de proteger aqueles que precisavam de ajuda.
Seu sorriso tornou-se um pouco mais caloroso.
— Eles poderiam ter escolhido uma vida mais fácil. Poderiam ter abandonado suas convicções quando isso lhes trouxe problemas. Poderiam ter transformado suas perdas em ódio e permitido que a dor decidisse quem seriam.
Sora olhou na direção dos dois.
— Mas escolheram continuar caminhando.
O silêncio no salão era absoluto.
— A força que buscamos nos Shinpan-Kan não deve existir para tornar outras pessoas pequenas. Deve existir para que aqueles que não conseguem se defender tenham alguém ao seu lado. Se algum dia um dos nossos esquecer isso, então terá esquecido o motivo pelo qual recebeu essa posição.
Ele abriu uma das mãos.
— Que nunca confundamos autoridade com superioridade. Que nunca confundamos obediência com virtude. E que jamais nos esqueçamos de que a paz não começa quando todos os nossos inimigos desaparecem, mas quando deixamos de precisar fabricar inimigos para justificar nossa própria existência.
Kagetsu sentiu um arrepio percorrer a nuca.
Mesmo depois de tantos anos, Sora ainda conseguia fazê-lo parar e escutar.
O Número Um virou-se para os dois guerreiros.
— Seinaru Hitomi. Kagetsu Arashi.
Os dois avançaram.
Sora os recebeu com o mesmo sorriso tranquilo que Kagetsu conhecera na estrada, anos antes.
— Seinaru, sua disciplina, sua capacidade de observar e sua disposição para agir mesmo quando a resposta não é evidente fizeram de você um guerreiro extraordinário.
Seinaru inclinou a cabeça.
Sora continuou:
— Mas espero que nunca permita que sua inteligência o convença de que pode prever todas as dores do mundo. Há momentos em que não precisamos de alguém que conheça todas as respostas. Precisamos de alguém que permaneça ao nosso lado enquanto tentamos encontrá-las.
Seinaru ergueu os olhos.
Por um instante, a expressão séria vacilou.
Sora sorriu.
— Espero que continue sendo esse homem.
Então se voltou para Kagetsu.
— Kagetsu Arashi.
O jovem endireitou a postura.
— Você possui uma força extraordinária. Sua resistência impressiona até aqueles que passaram a vida treinando. E sua vontade de continuar lutando, mesmo quando todos os sinais indicam que deveria recuar, é algo que poucos conseguem compreender.
Kagetsu ouviu em silêncio.
Sora não o elogiava para alimentar seu orgulho. Falava com a mesma honestidade que demonstrara durante o treinamento.
— Mas a qualidade que mais admiro em você não é a capacidade de continuar de pé depois de receber um golpe.
O sorriso do Número Um permaneceu sereno.
— É o fato de que, mesmo depois de conhecer a crueldade do mundo, você ainda se recusa a tratar a dor dos outros como algo insignificante.
Kagetsu sentiu a garganta apertar.
Pensou nos irmãos.
Na pequena casa.
Naquela manhã em que acreditara que o mundo ainda podia ser compreendido.
Sora estendeu as mãos.
— Diante de todos os presentes, reconheço Seinaru Hitomi como Shinpan-Kan Número Quatro e Kagetsu Arashi como Shinpan-Kan Número Cinco.
A multidão explodiu em aplausos.
Kagetsu ouviu o som como se estivesse distante.
Seinaru virou discretamente o rosto para ele.
Os dois se olharam.
E, apesar de tudo o que haviam enfrentado, apesar das perdas, das perseguições e dos anos de incerteza, Kagetsu viu o mesmo garoto que o derrubara no pátio de treinamento da organização de caçadores quando tinham quinze anos.
Seinaru sorriu de canto.
Kagetsu respondeu com um sorriso largo.
Sora aguardou até que os aplausos diminuíssem.
Então acrescentou num tom baixo para os dois:
— Lembrem-se de uma coisa. As pessoas não precisam que vocês sejam deuses. Precisam que sejam humanos o bastante para compreender seu sofrimento e fortes o bastante para não abandoná-las diante dele.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Parabéns aos dois.
Naquele dia, diante da Igreja inteira, Kagetsu Arashi recebeu o título de Shinpan-Kan Número Cinco.
Mas, para ele, o maior reconhecimento não foi o manto branco.
Não foi o posto.
Nem sequer foi a arma que carregava.
Foi ouvir de Sora que a parte mais importante de si não era sua força.
Era aquilo que escolhera fazer com ela.
A memória seguinte era de uma noite tranquila.
Kagetsu e Seinaru estavam sentados sobre um muro de pedra, observando as luzes de Celestria ao longe.
O uniforme dos Shinpan-Kan ainda parecia estranho em seus corpos. A responsabilidade que acompanhava o título era maior do que qualquer uma das missões que haviam enfrentado, mas, pela primeira vez, ambos possuíam condições de agir sem precisar fugir de cada patrulha que cruzava seu caminho.
Seinaru segurava o charuto entre os dedos.
Kagetsu estava com Shiroromura apoiada ao lado do corpo.
— Sabe — começou Kagetsu —, quando eu tinha quinze anos, imaginava que, se algum dia me tornasse forte o bastante, tudo ficaria mais fácil.
Seinaru soltou a fumaça para o lado oposto.
— E ficou?
Kagetsu pensou por alguns instantes.
— Não.
— Surpresa.
— Mas pelo menos agora tenho dinheiro suficiente para comprar comida sem precisar carregar carvão o dia inteiro.
Seinaru soltou uma risada.
— Você ainda come como se precisasse alimentar quatro pessoas.
Kagetsu ficou quieto por um instante.
O amigo percebeu.
— Desculpa.
— Não precisa.
Kagetsu olhou para as luzes da cidade.
— Eu costumava imaginar o que meus irmãos seriam quando crescessem. Akio provavelmente teria se metido em todo tipo de confusão. Renji talvez continuasse quieto. Toma... — Ele sorriu levemente. — Toma teria aprendido a falar meu nome direito.
Seinaru não disse nada.
Kagetsu respirou fundo.
— Às vezes, ainda penso no que aconteceu com Mio. Não sei se algum dia vou descobrir a verdade.
— Talvez descubra.
— E se não descobrir?
Seinaru olhou para ele.
— Então ainda vai ter vivido uma vida que valeu a pena.
Kagetsu virou o rosto.
— Você ficou muito filosófico depois de ganhar esse cargo.
— Estou tentando acompanhar o Sora.
Os dois riram.
O silêncio voltou, mas já não era pesado.
Seinaru estendeu a mão e deu um pequeno empurrão no ombro do amigo.
— Ei.
— Hm?
— Lembra da nossa promessa?
Kagetsu olhou para ele.
— Qual delas?
Seinaru estreitou os olhos.
— Não começa.
Kagetsu abriu um sorriso.
— Estou brincando. Claro que lembro.
Seinaru voltou a olhar para a cidade.
— Ótimo.
Kagetsu apoiou os braços nos joelhos.
— Nunca enfrentar nossos problemas sozinhos. Sempre lembrar que temos um ao outro.
Seinaru assentiu.
— Isso.
Kagetsu estendeu o punho.
Seinaru encostou o dele.
Era um gesto simples.
Um gesto que haviam repetido tantas vezes que já não precisava de explicações.
Naquela noite, Kagetsu acreditou que ainda teriam muitos anos para continuar repetindo aquela promessa.
Acreditou que haveria outras missões, outras discussões, outros treinamentos e outras noites em que Seinaru reclamaria de alguma coisa que ele fizera.
Acreditou que, quando o mundo se tornasse difícil demais, ainda poderiam encontrar um ao outro.
E, durante muito tempo, essa certeza foi suficiente.
A lembrança começou a desaparecer pelas bordas.
Primeiro, as luzes de Celestria perderam a nitidez.
Depois, o muro de pedra pareceu se dissolver na escuridão.
A voz de Seinaru foi ficando distante.
Kagetsu tentou permanecer naquele momento.
Quis ouvir mais uma vez a risada do amigo.
Quis ver o sorriso que costumava aparecer quando Seinaru fingia estar irritado.
Quis voltar àquela noite em que o futuro ainda parecia uma estrada aberta diante deles.
Mas a lembrança se afastou.
E, no lugar dela, veio o frio.
Não havia mais muro.
Não havia cidade.
Não havia o céu de Kaelthar.
Kagetsu estava afundando.
A escuridão o cercava por todos os lados, e a água parecia não ter fim. Seu corpo descia lentamente, como se algo invisível o puxasse para uma profundidade da qual jamais conseguiria retornar.
Acima dele, muito longe, uma superfície pálida tremia.
A luz estava desaparecendo.
Kagetsu tentou mover os braços.
Não conseguiu.
Tentou abrir os olhos.
A escuridão permaneceu.
Não sabia quanto tempo estava ali. Não sabia se ainda respirava. Não sabia se aquele lugar existia de verdade ou se era apenas o que restava de sua consciência.
Mas conseguia pensar.
E, enquanto conseguia pensar, as lembranças continuavam vindo.
Mio.
Akio.
Renji.
Toma.
Seinaru.
Sora.
O sorriso gentil do Número Um.
A voz doce que falava sobre paz como se ela não fosse apenas um sonho distante, mas algo que as pessoas ainda poderiam construir.
Kagetsu tentou sorrir.
Não sabia se havia conseguido.
Eu me lembro de quando conheci você, Sora.
A imagem do homem surgiu na escuridão.
Não seu rosto.
Não seus traços.
Apenas a presença tranquila, a voz acolhedora e aquele sorriso leve que parecia nunca desaparecer.
Eu achava que força significava nunca perder.
Kagetsu continuou afundando.
Achava que, se ficasse forte o bastante, poderia impedir que as pessoas sofressem. Que poderia proteger todo mundo. Que, se continuasse lutando, um dia conseguiria encontrar uma resposta para tudo aquilo que aconteceu com a minha família.
Uma dor distante atravessou seu corpo.
A lembrança do combate voltou em fragmentos.
A espada de Yorm.
A ordem imposta por seu Kai.
O peso do próprio corpo cedendo.
A incapacidade de continuar de pé.
Kagetsu não conseguia distinguir o que era memória e o que ainda estava acontecendo.
Você me disse que eu não precisava carregar tudo sozinho.
A água parecia mais pesada.
Disse que não havia honra em destruir a mim mesmo para provar que conseguia suportar tudo.
Uma pequena bolha de ar escapou de seus lábios e subiu na direção da superfície.
Kagetsu tentou erguer a cabeça.
Não conseguiu.
Desculpa.
A palavra surgiu em sua mente antes que pudesse impedi-la.
Eu tentei.
A superfície estava cada vez mais distante.
Eu tentei fazer alguma coisa boa com a força que você me deu.
Por um instante, lembrou-se de Bashiki.
Do soldado ferido.
De como não conseguira simplesmente assistir enquanto alguém era executado diante dele.
Talvez fosse uma decisão imprudente.
Talvez tivesse cometido erros.
Mas, se tivesse de enfrentar novamente aquele momento, Kagetsu sabia que não teria conseguido fazer outra escolha.
Não poderia permanecer parado.
Não enquanto ainda houvesse alguém que precisasse de ajuda.
Eu só queria...
A lembrança de Seinaru surgiu diante dele.
Os dois ainda eram jovens.
Sentados diante de uma fogueira.
As mãos unidas.
A promessa.
"Vamos fazer uma promessa? Nunca enfrentar nossos problemas sozinhos, sempre lembrar que temos um ao outro."
Kagetsu sentiu algo apertar seu peito.
Seinaru…
Quis chamá-lo.
Quis ouvir a resposta do amigo.
Quis dizer que estava cansado.
Que, pela primeira vez em muito tempo, não sabia como se levantar.
Que precisava de ajuda.
Mas sua voz não alcançou ninguém.
A escuridão continuou envolvendo-o.
Eu gostaria de ter aproveitado mais...
As imagens desapareceram uma a uma.
Seus irmãos.
Seu amigo.
O homem que lhe entregara Shiroromura.
A vida que construíra apesar de tudo.
Kagetsu tentou agarrar aquelas lembranças, mas elas escorriam de sua consciência como água entre os dedos.
Me desculpe, Sora...
A superfície tornou-se apenas um ponto distante.
E, enquanto seu corpo permanecia imóvel no mundo real, ferido, coberto de sangue e caído diante de Yorm, a última coisa que Kagetsu Arashi conseguiu pensar foi:
Eu perdi.