Capítulo 138 — Deixe Queimar.
Eu perdi.
As palavras ainda ecoavam na consciência de Kagetsu Arashi.
Seu corpo continuava afundando naquela escuridão sem fim. Não havia chão sob seus pés, nem céu sobre sua cabeça. Apenas um vazio silencioso que o envolvia por todos os lados, arrastando consigo as últimas lembranças de uma vida que, naquele momento, parecia ter chegado ao fim.
Kagetsu já não tentava lutar contra aquilo.
Não tentava alcançar a superfície distante.
Não tentava mover os braços.
Pela primeira vez em muitos anos, havia aceitado a possibilidade de que não conseguiria se levantar novamente.
Desculpa, Seinaru.
A imagem do amigo surgiu em sua mente.
Desculpa, Sora.
Ele fechou os olhos.
Eu realmente tentei.
Então, quando a escuridão parecia prestes a consumir até mesmo seus pensamentos, uma voz familiar atravessou o silêncio.
Uma voz doce.
Leve.
Tranquila como uma brisa passando por um campo durante a manhã.
— Você não perdeu, Kagetsu.
Os olhos do guerreiro se abriram.
E, de repente, ele já não estava afundando.
Seus pés tocavam uma superfície invisível, e seu corpo permanecia ereto no meio daquele vazio. A escuridão ainda se estendia em todas as direções, mas, à sua frente, havia uma silhueta envolvida por uma luz branca e suave.
Kagetsu não conseguiu se mover.
Conhecia aquela voz.
Conhecia aquela maneira tranquila de falar, como se nem mesmo o fim do mundo fosse capaz de roubar a serenidade de quem a possuía.
A silhueta deu um passo à frente.
Kagetsu arregalou os olhos.
— N-não...
A figura inclinou levemente a cabeça.
O mesmo sorriso gentil.
A mesma presença que, anos antes, o fizera compreender que a verdadeira força não precisava vir acompanhada de crueldade.
— Ainda está de pé — disse Sora. — Isso já me diz bastante.
Kagetsu permaneceu imóvel, olhando para o homem que mais admirara durante toda a sua vida.
— Sora...?
Sua voz saiu trêmula.
Ele tentou se aproximar, mas parou no meio do movimento, como se temesse que aquela imagem desaparecesse caso chegasse perto demais.
— Como... como você está aqui?
Sora sorriu levemente.
— Essa é uma pergunta interessante.
— Eu estou morto?
— Você está conversando comigo.
— Isso não responde à pergunta!
Sora soltou uma risada baixa.
Era tão familiar que Kagetsu sentiu o peito apertar.
— Você continua impaciente — comentou o Número Um. — Lembro-me disso desde o dia em que decidi levá-lo para a Igreja. Você nunca desistiu facilmente de nada. Nem mesmo quando seria muito mais sensato parar, respirar e pensar por alguns segundos.
Kagetsu abaixou os olhos.
O sorriso desapareceu de seu rosto.
— Desta vez é diferente.
Sora não respondeu imediatamente.
Kagetsu apertou os punhos.
— Eu não consigo, Sora.
Sua voz falhou.
— Ele é muito forte. Eu tentei lutar, tentei usar tudo o que tinha... mas ele me destruiu. Meus ossos... minha força, minha velocidade... não consigo nem me levantar.
As mãos do guerreiro começaram a tremer.
— Eu não posso vencer aquele Ancestral.
Sora permaneceu diante dele, escutando cada palavra.
Não o interrompeu.
Não tentou corrigir suas conclusões imediatamente.
Apenas esperou até que Kagetsu terminasse de falar.
Então sorriu.
— Isso é o que você pensa, Kagetsu.
O guerreiro ergueu a cabeça.
— O quê?
— Você acredita que perdeu porque não consegue mais lutar da maneira como lutava antes.
Sora deu alguns passos na direção dele.
— Mas me diga uma coisa. Quando você era apenas um garoto, sem uma arma adequada, sem treinamento e sem ninguém que pudesse protegê-lo... o que o fez continuar?
Kagetsu franziu a testa.
— Eu...
— Quando seus pais foram embora, o que fez você levantar todas as manhãs?
O garoto permaneceu em silêncio.
A lembrança da pequena casa surgiu em sua mente.
A mesa de madeira.
A lareira.
Quatro crianças esperando que ele voltasse com comida.
Sora continuou:
— Quando você perdeu seus irmãos, o que fez com que continuasse caminhando, mesmo sem compreender o que havia acontecido?
Kagetsu apertou os dentes.
— Eu não sei...
— E quando você conheceu Seinaru, quando encontrou alguém disposto a caminhar ao seu lado, o que o fez continuar lutando para construir um futuro diferente daquele que conhecia?
Kagetsu sentiu a garganta se fechar.
Sora parou diante dele.
— Pense com cuidado. Porque nada disso desapareceu quando Yorm destruiu seu corpo.
Kagetsu arregalou os olhos.
Sora olhou diretamente para ele.
— Essa nunca foi toda a força que você possuía, Kagetsu. A verdadeira força das pessoas está dentro delas. Nunca foi apenas sobre o que seus corpos são capazes de fazer aos inimigos. Você precisa esquecer essa ideia.
Kagetsu permaneceu com a boca entreaberta.
Durante anos, acreditara que sua força estava na capacidade de resistir.
Em seus músculos.
Na sua resistência física.
Na habilidade de continuar lutando quando os outros já haviam caído.
Mas Sora estava falando de algo que Kagetsu conhecia desde a infância, embora nunca tivesse conseguido compreender completamente.
A força que o fizera dividir a comida quando havia pouco para todos.
A força que o fizera continuar trabalhando depois de perder a família.
A força que o fizera estender a mão para um desconhecido ferido, mesmo quando isso significava colocar a própria vida em risco.
Sora ergueu uma das mãos.
— Kagetsu, olhe para mim.
O guerreiro obedeceu.
— Você passou tanto tempo tentando se tornar forte que pensou que era só disso que precisava. Mas proteger as pessoas nunca significou vencer todas as batalhas.
Sora sorriu.
— Significa continuar escolhendo protegê-las, mesmo quando o mundo tenta convencê-lo de que não vale mais a pena.
Uma lágrima começou a escorrer pelo rosto de Kagetsu.
Ele tentou falar, mas as palavras não saíram.
Sora, então, estendeu a mão na direção de seu peito.
— E existe outra coisa que você precisa compreender.
A ponta dos dedos tocou o uniforme de Kagetsu.
— Você nunca perdeu Shiroromura.
O guerreiro arregalou os olhos.
— O quê...?
Sora fechou os dedos contra o peito dele.
Uma luz branca surgiu entre suas mãos.
E, lentamente, como se estivesse retirando algo de um lugar que não obedecia às leis daquele mundo, Sora começou a puxar uma arma de dentro do corpo de Kagetsu.
Primeiro, apareceu o cabo.
Depois, o restante da alabarda emergiu de seu peito, intacta, envolvida por uma luminosidade branca que iluminava a escuridão ao redor.
Kagetsu ficou completamente imóvel.
Era Shiroromura.
A arma que recebera de Sora.
A arma que carregara durante anos.
A arma que Yorm havia apagado da Realidade Branca, decretando que Kagetsu não poderia utilizá-la.
Mas ali estava ela.
Inteira.
Sora segurou a alabarda com tranquilidade e a estendeu para o guerreiro.
— Pegue.
Kagetsu olhou para a arma.
Seus dedos tremeram quando finalmente a segurou.
O peso era familiar.
O equilíbrio.
O formato do cabo.
A maneira como a lâmina parecia se acomodar em suas mãos.
Tudo estava ali.
— Mas... como?
Sora soltou Shiroromura e deixou que Kagetsu a segurasse sozinho.
— Você não terá essa arma em sua forma física. Não exatamente como a conhece. Mas poderá criar sua própria forma, Kagetsu.
O guerreiro ergueu lentamente a cabeça.
Sora continuou:
— Shiroromura nunca foi apenas uma alabarda qualquer. Eu a entreguei a você porque enxerguei algo que talvez você mesmo ainda não compreendesse. Uma persistência que não dependia de vitórias, títulos ou reconhecimento.
Ele olhou para a arma entre as mãos de Kagetsu.
— Você caiu muitas vezes. Perdeu pessoas que amava. Foi obrigado a enfrentar situações que nenhuma criança deveria conhecer. E, mesmo assim, continuou tentando construir alguma coisa que valesse a pena proteger.
Sora voltou a encará-lo.
— É por isso que você a merece, Kagetsu. Não porque nunca perdeu, mas porque nunca permitiu que suas perdas decidissem inteiramente quem você seria.
Kagetsu apertou o cabo de Shiroromura.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Sora...
O Número Um sorriu.
— Não precisa me agradecer agora.
Ele olhou para além do guerreiro, na direção da escuridão.
— Afinal, não fui o único que veio vê-lo.
Kagetsu virou a cabeça.
— Como assim?
O sorriso de Sora tornou-se mais caloroso.
— Todos vieram, Kagetsu.
Uma pequena pausa.
— Uma última visita.
E, naquele instante, a escuridão começou a mudar.
Primeiro, Kagetsu ouviu passos.
Passos pequenos, apressados, acompanhados por vozes que pareciam surgir de uma lembrança distante.
— Kagetsu!
O guerreiro congelou.
Conhecia aquela voz.
Não podia ser.
Não havia como.
— Kagetsu! É você mesmo!
Uma figura surgiu na escuridão.
Um garoto de cabelos brancos despenteados correu na direção dele com um sorriso que Kagetsu não via havia tantos anos.
Akio.
Exatamente como se lembrava dele.
Pequeno, inquieto, com aquele mesmo jeito de quem estava prestes a fazer alguma coisa que provavelmente terminaria numa bronca.
— AKIO...?
Kagetsu mal conseguiu pronunciar o nome.
O menino correu até ele e o abraçou pela cintura.
— Você demorou demais!
Kagetsu deixou a alabarda cair de lado e se ajoelhou, envolvendo o irmão com os braços.
— Akio...
Sua voz se quebrou.
Atrás do menino, Renji apareceu.
Mais tímido, como sempre, aproximou-se devagar, mas, quando Kagetsu abriu um dos braços, correu para abraçá-lo também.
Toma veio logo depois, com os passos curtos de uma criança pequena.
— Kage...tsu!
O nome saiu torto.
Kagetsu soltou uma risada entre as lágrimas.
Uma risada que parecia ter ficado presa dentro dele durante anos.
— Você ainda não aprendeu a falar direito...
Ele pegou Toma no colo, abraçando os três irmãos ao mesmo tempo.
— Vocês...
Kagetsu apertou os olhos.
— Vocês estão aqui...
Akio ergueu o rosto.
— Claro que estamos!
— Mas eu...
Kagetsu não conseguiu terminar.
Renji segurou a roupa dele com as duas mãos.
— Você voltou.
A frase simples fez o guerreiro desabar.
Kagetsu os abraçou com força, como se pudesse recuperar todos os anos perdidos naquele único instante.
Não havia sangue.
Não havia ferimentos.
Não havia uma casa destruída ou o silêncio terrível daquela noite.
Seus irmãos estavam vivos.
E, por alguns segundos, Kagetsu voltou a ser apenas o irmão mais velho que os protegia, que trazia comida para casa e que sempre prometia voltar antes de escurecer.
— Eu senti tanta saudade... — murmurou.
Akio sorriu.
— A gente também.
Renji encostou a cabeça no ombro dele.
Toma agarrou sua roupa.
Kagetsu fechou os olhos.
E então ouviu passos novamente.
Passos suaves.
Ele ergueu a cabeça.
Uma figura estava parada atrás dos três meninos.
Cabelos familiares.
Olhos que ele conhecia melhor do que os próprios.
Mio.
Kagetsu parou de respirar.
A irmã não estava transformada.
Não havia marcas escuras em sua pele.
Não havia sangue em suas roupas.
Era apenas Mio, a menina que havia passado a infância esperando o irmão voltar para casa.
Ela permaneceu parada por alguns instantes, olhando para ele.
Kagetsu tentou se levantar.
As pernas quase cederam.
— Mio...
A menina sorriu tristemente.
— Kagetsu…
Kagetsu levou uma mão à boca.
O som que escapou de sua garganta não chegou a formar uma palavra.
Mio começou a caminhar.
Devagar.
Até ficar diante dele.
Kagetsu não conseguia olhar para outra coisa.
Havia passado anos tentando compreender o que acontecera naquela casa. Anos imaginando o que poderia ter feito de diferente. Anos carregando uma pergunta que jamais encontrara resposta.
E agora ela estava ali.
Diante dele.
— Eu...
Sua voz falhou.
— Mio, eu...
A menina não o deixou terminar.
Aproximou-se e o abraçou.
Kagetsu ficou imóvel.
Então seus braços envolveram a irmã com uma força desesperada, e ele enterrou o rosto em seu ombro.
— Me desculpa... — sussurrou. — Me desculpa, Mio. Eu devia ter voltado mais cedo. Devia ter protegido vocês. Eu devia...
— Kagetsu.
A voz dela era suave.
A mesma voz que ele se lembrava de ouvir quando voltava para casa cansado.
Mio afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele.
— Você ainda se culpa por isso?
Kagetsu arregalou os olhos.
— Mas eu...
— Eu conheço você.
Ela sorriu levemente.
— Você sempre fazia essa cara quando achava que tinha que resolver tudo. Até quando era pequeno, tentava esconder que estava cansado para a gente não se preocupar.
Kagetsu baixou a cabeça.
Mio colocou as mãos sobre o rosto dele.
— Eu me lembro de você voltando para casa com as mãos machucadas. Lembro de você fingindo que não estava com fome para deixar a comida para nós. Lembro de você prometendo que tudo ficaria bem, mesmo quando nem você sabia como faria isso acontecer.
Uma lágrima escorreu pelo rosto da menina.
— Você era só uma criança, Kagetsu.
Ele começou a tremer.
— Eu não consegui salvar vocês...
Mio permaneceu olhando para ele.
— Você tentou.
— Mas não foi suficiente!
A voz de Kagetsu ecoou pela escuridão.
Os três irmãos ficaram quietos.
Mio não se afastou.
— Eu sei.
A resposta fez Kagetsu erguer os olhos.
Ela não disse que tudo estava bem.
Não disse que ele não deveria sentir dor.
Não tentou apagar o que havia acontecido.
Apenas segurou as mãos dele.
— Eu sei que você tentou, Kagetsu. E sei que passou muito tempo se perguntando se poderia ter feito alguma coisa diferente.
Ela respirou fundo.
— Mas eu não quero que você continue vivendo como se tivesse que pagar por aquilo todos os dias.
Kagetsu chorava silenciosamente.
Mio encostou a testa na dele.
— Você foi nosso irmão mais velho. Foi quem nos alimentou, quem cuidou da gente e quem nos fez rir quando tudo parecia difícil. Você nos deu muito mais do que imagina.
A voz dela ficou ainda mais suave.
— Eu não quero que se lembre de mim apenas daquela noite.
Kagetsu fechou os olhos.
— Por favor...
Mio o abraçou novamente.
— Lembre-se de mim quando eu ria de você. Quando você chegava em casa todo orgulhoso porque tinha conseguido caçar alguma coisa. Quando eu reclamava que você era idiota e você fingia ficar bravo.
Ela soltou uma pequena risada entre as lágrimas.
— Lembre-se de nós como sua família, Kagetsu. Não apenas como aquilo que você perdeu.
O guerreiro apertou o abraço.
— Eu nunca esqueci vocês.
— Eu sei.
Mio acariciou os cabelos dele.
— E você não precisa esquecer para continuar vivendo.
Kagetsu permaneceu abraçado à irmã.
Ao redor deles, Akio, Renji e Toma se aproximaram, envolvendo os dois num abraço apertado.
Akio sorriu.
Renji apertou a roupa do irmão.
Toma estendeu os braços, pedindo para ser carregado novamente.
E Mio, ainda abraçada a Kagetsu, sussurrou:
— Vai, irmão.
Ele ergueu o rosto.
— O quê?
Ela sorriu.
— Ainda tem gente esperando por você.
Kagetsu olhou para os irmãos.
Pela primeira vez em muitos anos, as lembranças daquela família não vieram acompanhadas apenas da dor.
Vieram também com o calor de uma casa pequena, com risadas durante as refeições e com a sensação de que, mesmo diante de todas as dificuldades, havia existido amor.
Kagetsu os abraçou uma última vez.
E, quando finalmente se afastou, percebeu que Sora ainda estava ali, observando a cena à distância.
O Número Um mantinha seu sorriso sereno.
Não parecia apressado.
Não parecia triste.
Apenas aguardava, como se soubesse que algumas despedidas precisavam acontecer sem que ninguém tentasse interrompê-las.
Kagetsu olhou para ele.
Sora assentiu levemente.
Então, atrás dos irmãos, outra figura começou a surgir.
Cabelos negros.
Olhar familiar.
Uma expressão que Kagetsu reconheceria em qualquer lugar do mundo.
Seinaru Hitomi.
Kagetsu ficou olhando para o amigo.
Por alguns instantes, nenhum dos dois disse nada.
Não precisavam.
Seinaru se aproximou com a mesma tranquilidade de quem havia acabado de encontrar o companheiro depois de uma missão difícil.
Kagetsu sorriu levemente.
— Você demorou.
Seinaru ergueu uma sobrancelha.
— Eu?
— É.
— Você é quem está caído no meio de uma luta.
Kagetsu soltou uma risada.
Seinaru estendeu o punho.
Kagetsu olhou para o gesto.
Durante anos, aquele pequeno movimento havia acompanhado os dois.
Depois de uma luta.
Antes de uma missão.
Após uma discussão.
Sempre que precisavam lembrar um ao outro de que ainda estavam ali.
Kagetsu encostou o próprio punho no do amigo.
O contato foi leve.
Mas, naquele lugar, pareceu carregar o peso de todas as vezes em que haviam feito aquilo antes.
Seinaru olhou diretamente para ele.
— Ainda não acabou, Kagetsu.
O guerreiro fechou os olhos por um instante.
Quando voltou a abri-los, havia lágrimas em seu rosto, mas também havia algo que não existia quando a escuridão o consumira.
Determinação.
— Eu sei.
Seinaru sorriu.
— Então levanta.
Kagetsu olhou para Shiroromura, ainda em suas mãos.
Depois, para o amigo.
— Você sempre foi péssimo em dar conselhos.
— E você sempre foi péssimo em ouvi-los.
Os dois riram.
E, naquele breve instante, Kagetsu não se sentiu como um guerreiro derrotado.
Sentiu-se como o garoto que havia encontrado alguém disposto a caminhar ao seu lado.
O garoto que, diante de uma fogueira, fizera uma promessa.
E que ainda tinha motivos para cumpri-la.
As figuras começaram a se reunir diante dele.
Seinaru permaneceu à sua direita.
Mio, Akio, Renji e Toma ficaram próximos uns dos outros.
Sora aproximou-se por último, com seu sorriso tranquilo e sua presença acolhedora.
Kagetsu olhou ao redor, confuso.
— O que está acontecendo?
Sora parou diante dele.
— Você sabe o que precisa fazer.
— Não sei se consigo.
— Eu não disse que seria fácil.
Sora manteve os olhos nos dele.
— Disse apenas que você não perdeu.
Kagetsu apertou Shiroromura.
— Yorm ainda é mais forte do que eu.
— Talvez.
A resposta surpreendeu o guerreiro.
Sora continuou:
— Talvez ele tenha mais experiência com o próprio poder. Talvez conheça esta realidade melhor do que você. Talvez ainda possua recursos que não vimos.
Ele sorriu levemente.
— Mas nenhuma dessas coisas decide, por si só, o que acontecerá a seguir.
Kagetsu ficou em silêncio.
Sora deu um passo para o lado.
Uma imagem surgiu diante deles.
Um homem ferido, caído no chão branco, inconsciente e incapaz de se defender.
Bashiki.
O soldado que Kagetsu havia tentado proteger.
Sora olhou para a imagem.
— Ele precisa de você, Kagetsu.
O guerreiro sentiu o peito apertar.
Bashiki não era seu amigo.
Não era alguém que conhecia havia anos.
Não tinha feito uma promessa com ele.
Era apenas um homem que havia encontrado numa situação desesperadora.
E, ainda assim, Kagetsu não conseguira deixá-lo para trás.
Sora voltou a encará-lo.
— Faça o que sempre fez.
Sua voz parecia ainda mais doce.
— Proteja as pessoas, Kagetsu.
O guerreiro abaixou a cabeça.
Uma lágrima escorreu por seu rosto e caiu sobre Shiroromura.
Ele pensou em seus irmãos.
Pensou em Seinaru.
Pensou em Sora, que lhe ensinara que a força não precisava ser uma ferramenta de dominação.
Pensou em todas as pessoas que havia encontrado ao longo da vida e que, de alguma maneira, haviam lhe dado motivos para continuar.
Aquela arma não era apenas um presente.
Aquele título não era apenas uma posição.
E sua força não existia apenas para derrotar inimigos.
Kagetsu fechou os olhos.
Quando voltou a abri-los, sua expressão havia mudado.
Não havia desaparecido a dor.
Não havia desaparecido o medo.
Mas ele já não estava tentando fugir de nenhum dos dois.
Estava pronto para continuar apesar deles.
Sora sorriu.
Seinaru ergueu o punho.
Mio segurou a mão dos irmãos.
Todos permaneceram diante de Kagetsu.
Então, enquanto a escuridão começava a envolver cada uma daquelas figuras, suas vozes se uniram.
A voz de Sora.
A voz de Seinaru.
As vozes de seus irmãos.
Todas se misturaram, atravessando a consciência do guerreiro e alcançando algo que nem mesmo Yorm havia conseguido destruir.
— Deixe queimar, Kagetsu!
A escuridão tomou tudo.
E Kagetsu abriu os olhos.
A Realidade Branca permanecia silenciosa.
O corpo de Kagetsu continuava caído no chão, exatamente onde Yorm o havia deixado.
O sangue ainda manchava suas roupas.
Seus ossos continuavam destruídos.
Os decretos que debilitavam sua força e velocidade permaneciam ativos.
Nada em seu corpo físico parecia ter mudado.
Yorm observou o guerreiro por alguns segundos, com um sorriso de desprezo.
— Foi uma boa tentativa, Shinpan-Kan.
Ele se virou.
Do outro lado daquela realidade vazia, Bashiki continuava inconsciente, sem qualquer condição de se defender.
Yorm começou a caminhar em sua direção.
— Mas chega de perder meu tempo com você. Vou matar aquele ali primeiro... já volto para finalizar o que restou de você.
Seus passos ecoaram pela vastidão branca.
Um.
Dois.
Três.
Então, um som interrompeu o silêncio.
Era baixo no início, quase imperceptível.
Um ruído irregular, semelhante ao estalar de uma grande fogueira.
Yorm parou.
O sorriso desapareceu lentamente de seu rosto.
Outro estalo.
Dessa vez, mais alto.
Ele virou a cabeça.
Atrás dele, pequenas chamas brancas começavam a surgir ao redor do corpo de Kagetsu.
Yorm estreitou os olhos.
As chamas não se espalhavam pelo chão. Não consumiam o espaço ao redor como fogo comum.
Elas simplesmente apareciam, uma após a outra, envolvendo lentamente o guerreiro caído.
Uma pequena língua de fogo percorreu o braço de Kagetsu.
Depois outra.
As chamas subiram pelo ombro, alcançaram o peito e começaram a cobrir suas roupas.
Yorm permaneceu imóvel, observando.
— Ainda quer isso? — murmurou.
O corpo de Kagetsu não respondeu.
Mas o fogo continuou crescendo.
Em poucos segundos, quase toda a sua silhueta estava envolvida por chamas brancas.
O ar daquela realidade começou a vibrar.
O som da combustão aumentou, preenchendo o espaço vazio com um rugido cada vez mais intenso.
Yorm deu um passo na direção do guerreiro.
Seus olhos percorreram o corpo de Kagetsu, analisando cada movimento, cada mudança na energia que o envolvia.
— O que está acontecendo...?
Então os dedos de Kagetsu se moveram.
Foi um movimento pequeno.
Quase insignificante.
Mas Yorm percebeu imediatamente.
O guerreiro apoiou uma das mãos no chão.
As chamas se intensificaram.
Seus braços tremeram, sustentando lentamente o peso do corpo ferido.
Os músculos deveriam falhar.
Os ossos deveriam impedi-lo de continuar.
Os decretos de Yorm deveriam manter sua força e velocidade muito abaixo do necessário para se levantar.
Ainda assim, Kagetsu começou a erguer o corpo.
Lentamente.
Centímetro por centímetro.
As chamas brancas subiram ao redor dele, transformando sua silhueta numa figura cada vez mais difícil de distinguir.
Yorm arregalou os olhos.
— Impossível...
Kagetsu colocou um pé no chão.
Depois o outro.
E se levantou.
Por completo.
Seu corpo inteiro estava envolvido pelas Chamas Sagradas. O fogo branco cobria suas roupas, seus braços, seus ombros e seu rosto, deixando apenas os olhos visíveis.
Seus olhos haviam perdido a cor habitual.
Agora eram completamente brancos.
Não havia expressão de dor.
Não havia sinal de hesitação.
Apenas uma presença esmagadora que parecia transformar o próprio silêncio em algo insuportável.
Yorm permaneceu imóvel.
Pela primeira vez desde que trouxera os dois invasores para sua realidade, não tinha uma provocação pronta.
Kagetsu estendeu lentamente um dos braços.
A mão se abriu.
As chamas se concentraram na palma, comprimindo-se numa massa luminosa que começou a ganhar forma.
Primeiro, surgiu o cabo.
Depois, a haste.
Por último, a lâmina.
Uma alabarda feita inteiramente de fogo branco tomou forma nas mãos do Shinpan-Kan.
Shiroromura.
Não a arma física que havia desaparecido sob as leis de Yorm.
Mas a arma que Kagetsu agora era capaz de criar por conta própria.
Ele segurou a alabarda com firmeza.
Girou-a lentamente, e as chamas desenharam um arco branco no espaço vazio.
Então apontou a lâmina para o Ancestral.
Quando falou, sua voz estava quase irreconhecível.
Era profunda, distorcida pelo rugido do fogo, como se as palavras viessem de dentro das próprias chamas.
— Kai das Chamas Sagradas: Deus do Fogo.
A realidade estremeceu.
O primeiro sinal foi o calor.
Uma onda escaldante atravessou o espaço, fazendo a superfície branca sob os pés de Yorm vibrar como uma extensão de metal exposta a temperaturas extremas.
Depois veio a luz.
As chamas de Kagetsu se expandiram, espalhando-se pelo ambiente sem consumir o corpo de seu criador.
O branco absoluto começou a mudar.
Linhas avermelhadas surgiram no horizonte inexistente, atravessando o vazio como rachaduras numa superfície de vidro. O chão adquiriu tonalidades escuras, enquanto veios de luz branca percorriam a paisagem.
A Realidade Branca de Yorm estava ganhando cores.
O vazio começava a se transformar.
O ar, antes praticamente inexistente, agora tremia sob o calor crescente. As chamas se refletiam numa superfície que minutos antes não possuía qualquer característica além do branco absoluto.
Yorm olhou ao redor.
Uma rachadura luminosa atravessou o chão.
Outra surgiu atrás dele.
O espaço inteiro parecia estar sendo reconstruído a partir de uma força que não reconhecia suas leis.
E, no centro de tudo, Kagetsu permanecia de pé.
Envolvido pelas Chamas Sagradas.
Com Shiroromura nas mãos.
Yorm arregalou os olhos.
Sua boca se abriu ligeiramente.
A expressão que surgiu em seu rosto não era raiva.
Não era desprezo.
Não era sequer a surpresa de um guerreiro diante de uma habilidade desconhecida.
Era medo.
Medo genuíno.
Pela primeira vez, o Ancestral da Verdade parecia compreender que havia algo diante dele que não poderia simplesmente subjugar com uma declaração.
Kagetsu não lhe deu tempo para compreender.
O guerreiro avançou.
Uma explosão de chamas brancas irrompeu sob seus pés, lançando-o para a frente numa velocidade absurda.
Yorm reagiu por instinto.
Sua mão alcançou o próprio corpo, e a espada ancestral surgiu novamente entre seus dedos.
Ele ergueu a lâmina no instante em que Kagetsu chegou.
CLAAANG!
Shiroromura atingiu a espada.
O choque explodiu numa onda de fogo branco e energia vermelha que atravessou o ambiente.
Yorm foi empurrado para trás.
Seus pés deslizaram pelo chão, abrindo duas marcas profundas na superfície alterada.
Kagetsu girou a alabarda e atacou novamente.
Yorm bloqueou o golpe.
Outra explosão.
O impacto fez seus braços tremerem.
O Ancestral tentou contra-atacar, mas Kagetsu já havia mudado o ângulo da arma, atingindo sua guarda com um golpe lateral.
BOOOOM!
A explosão lançou Yorm vários metros para o lado.
Ele recuperou o equilíbrio e ergueu a espada diante do corpo.
Seus olhos não abandonavam a silhueta flamejante.
O que...?!
Kagetsu avançou outra vez.
Yorm bloqueou.
O choque espalhou chamas pelo chão.
O Ancestral tentou girar a espada para desviar a alabarda, mas Kagetsu acompanhou o movimento e desferiu outro golpe, obrigando-o a recuar.
Uma vez.
Duas.
Três.
Cada impacto explodia em luz branca, empurrando Yorm para trás e arrancando pedaços da superfície daquela realidade.
O Ancestral, que antes controlava cada instante da luta, agora era obrigado a responder a ataques que mal conseguia acompanhar.
— O que está acontecendo?! — gritou, bloqueando mais um golpe. — Como isso é possível?!
Kagetsu não respondeu.
Sua silhueta avançou novamente, envolvida por um rugido de fogo.
Yorm tentou recuar para recuperar distância.
Kagetsu o perseguiu.
Não havia a lentidão que deveria acompanhar os ossos destruídos.
Não havia a fraqueza imposta pelos decretos.
Seus movimentos eram fluidos, violentos e precisos, como se a força que o sustentava não dependesse mais das limitações físicas que Yorm havia imposto.
O Ancestral rangeu os dentes.
Não. Isso não faz sentido.
Ele desviou de um golpe e tentou contra-atacar.
Kagetsu girou Shiroromura.
A lâmina de fogo atingiu a espada ancestral, produzindo outra explosão.
Yorm foi empurrado para trás.
Eu criei esta realidade!
A espada tremeu em suas mãos.
Eu determinei as leis que a governam!
Kagetsu avançou.
Yorm bloqueou por pouco.
O choque fez o Ancestral sentir os braços cederem por um instante.
Então por que ele continua de pé?!
Pela primeira vez, Yorm estava lutando apenas para sobreviver aos ataques do adversário.
E aquilo o aterrorizava.
O Ancestral finalmente conseguiu criar distância.
Saltou para trás, deslizando sobre a superfície quente até abrir espaço suficiente para erguer a espada.
Seus olhos estavam fixos em Kagetsu.
A figura flamejante avançava lentamente, carregando Shiroromura como se a arma não possuísse peso algum.
Yorm apertou o cabo da espada.
Precisava recuperar o controle.
Precisava impor novamente suas leis.
Afinal, aquela realidade era sua criação.
Era seu domínio.
Seu poder não poderia simplesmente deixar de funcionar.
— Vamos ver se continua tão rápido!
A voz saiu mais alta do que pretendia.
Yorm ergueu a lâmina.
A energia vermelha se concentrou ao longo do metal, e uma palavra japonesa surgiu sobre sua superfície, brilhando intensamente.
— Kai da Verdade: Decreto! Você perde seu Kai!
A palavra se desprendeu da espada.
O caractere vermelho avançou numa velocidade impressionante, cortando o espaço em direção a Kagetsu.
Yorm acompanhou o movimento com os olhos.
Aquela ordem havia sido suficiente para enfraquecer adversários muito mais poderosos.
Se atingisse Kagetsu, sua capacidade de controlar as Chamas Sagradas deveria desaparecer.
O Ancestral esperou o impacto.
Mas, no instante em que o decreto se aproximou, Kagetsu ergueu Shiroromura.
Um único movimento.
A lâmina de fogo atravessou o caractere.
KRAAAASH!
A palavra japonesa se partiu ao meio.
Os fragmentos vermelhos se desfizeram numa explosão de luz, desaparecendo antes de alcançar o guerreiro.
Yorm ficou paralisado.
Seus olhos se arregalaram tanto que, por um instante, ele pareceu esquecer até mesmo como respirar.
— Não...
A voz saiu num sussurro.
Kagetsu continuou avançando.
Yorm recuou um passo.
— Não... como?!
O Ancestral olhou para a espada, depois para a alabarda flamejante.
— Eu criei esta realidade! Eu determino o que você pode ou não fazer!
Kagetsu parou.
A superfície sob seus pés continuava mudando, tingida de branco, vermelho e tons escuros. As chamas ao redor de seu corpo se erguiam como uma tempestade viva.
Ele inclinou a cabeça ligeiramente.
Então apontou Shiroromura para Yorm.
Sua voz voltou a ecoar, profunda e distorcida.
— Agora estamos na minha versão desta realidade.
Yorm não respondeu.
Kagetsu deu um passo à frente.
— Enquanto estivermos aqui, ninguém determina o que o outro pode ou não fazer.
As chamas se intensificaram ao redor da alabarda.
— Suas leis não irão me afetar. Agora eu também possuo controle sobre a sua realidade!
Yorm permaneceu olhando para ele.
O medo em seu rosto tornou-se ainda mais evidente.
Pela primeira vez, a certeza que sustentara cada palavra, cada decreto e cada humilhação começava a desmoronar.
Kagetsu não havia apenas resistido ao seu poder.
Estava disputando com ele o próprio domínio daquela realidade.
E, naquele momento, Yorm já não sabia se ainda era o senhor absoluto do lugar que havia criado.
Kagetsu desapareceu.
Yorm mal teve tempo de reagir.
A silhueta flamejante surgiu diante dele, e Shiroromura atravessou o espaço num golpe lateral.
O Ancestral tentou erguer a espada.
Tarde demais.
A lâmina de fogo atingiu seu braço esquerdo.
SHRAAAK!
O corte atravessou o membro por completo.
O braço foi separado do corpo, e sangue negro ancestral espirrou sobre a superfície incandescente, evaporando em parte antes de atingir o chão.
Yorm arregalou os olhos.
Por uma fração de segundo, olhou para o próprio braço, como se não conseguisse compreender o que acabara de acontecer.
Então Kagetsu girou o corpo.
O chute atingiu o peito do Ancestral com força devastadora.
BOOOOM!
Yorm foi arremessado por uma distância enorme, atravessando o ambiente numa trajetória descontrolada até atingir o chão.
A superfície rachou sob o impacto.
Ele rolou uma vez, tentou apoiar a mão restante e soltou um grunhido de dor.
O sangue negro escorria do membro amputado, formando uma poça irregular ao redor do corpo.
Yorm apertou o ferimento com a mão direita.
Seu rosto estava mais pálido do que antes.
Ele tentou se levantar, mas o choque do impacto o obrigou a permanecer ajoelhado.
O som das chamas se aproximou.
Yorm ergueu a cabeça.
Kagetsu estava diante dele.
Não havia pressa em seus movimentos agora.
O guerreiro segurava Shiroromura com uma das mãos, enquanto as chamas brancas continuavam a envolver seu corpo.
Yorm olhou para a alabarda.
Depois, para os olhos completamente brancos de Kagetsu.
Sua voz saiu trêmula.
— Como... como conseguiu?
Kagetsu girou Shiroromura lentamente.
A lâmina desenhou um arco luminoso no ar, espalhando pequenas fagulhas pelo ambiente.
Por alguns segundos, ele não respondeu.
Então falou.
Sua voz continuava distorcida, quase irreconhecível, mas havia uma firmeza nela que não existia antes.
— Você estava errado sobre uma coisa, Yorm.
O Ancestral permaneceu imóvel.
Kagetsu apertou o cabo da alabarda.
— Eles não me acham um inútil.
Yorm arregalou os olhos.
A silhueta flamejante deu um passo à frente.
— Na verdade, são a razão pela qual eu ainda consigo estar de pé...
As chamas cresceram ao redor de seus ombros.
— ...e me recusando a cair!
Yorm ficou sem palavras.
Aquelas pessoas.
Aquela família.
Aquele amigo.
Aquele homem que o havia recebido na Igreja e lhe ensinado que a força não existia apenas para destruir.
Todos eles continuavam presentes em Kagetsu.
Não como fraquezas.
Não como lembranças que o impediam de lutar.
Mas como as razões pelas quais ele ainda conseguia se levantar.
Kagetsu puxou Shiroromura para trás.
A lâmina se alinhou com seu corpo.
Yorm percebeu o movimento e tentou se afastar, mas seu braço amputado e o impacto anterior haviam comprometido sua capacidade de reagir.
Kagetsu assumiu a postura de ataque.
As chamas se concentraram ao longo da alabarda, tornando a lâmina ainda mais luminosa.
O guerreiro avançou.
Yorm ergueu a espada com a mão restante, tentando preparar uma defesa.
Mas Kagetsu já estava sobre ele.
A Shiroromura flamejante desceu na direção de sua cabeça.
O golpe parecia inevitável.
E então—
TUM.
Um som de tambor atravessou a realidade.
Por uma fração de segundo, tudo se tornou preto e branco.
As chamas perderam suas cores.
O chão desapareceu.
O próprio espaço pareceu congelar.
Kagetsu sentiu uma presença surgir diante dele.
E, antes que a alabarda alcançasse Yorm, uma foice bloqueou o golpe.
CLAAAAANG!
O impacto sacudiu a realidade.
As cores retornaram num clarão violento, e uma rajada de vento perturbador explodiu entre os dois combatentes, empurrando Kagetsu para trás.
A silhueta flamejante deslizou pela superfície, deixando um rastro de fogo branco.
Ele recuperou o equilíbrio e ergueu a Shiroromura.
Do outro lado, uma figura permanecia entre Kagetsu e Yorm.
Ren.
Seu corpo inteiro estava coberto pelas marcas negras.
Elas percorriam o rosto, os braços e o pescoço, espalhando-se sob as roupas como rachaduras de uma energia que não pertencia a um ser humano comum.
Seus olhos haviam assumido uma aparência demoníaca.
O manto que costumava carregar desaparecera.
A foice permanecia firme em suas mãos.
Ren estava novamente em sua forma ancestral.
E não dizia uma única palavra.
Yorm olhou para ele, ainda ajoelhado, pressionando o ferimento onde seu braço estivera.
A surpresa em seu rosto durou apenas alguns instantes.
Então, lentamente, um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— Então era isso que estava escondendo...
Ren não respondeu.
Não desviou os olhos de Kagetsu.
A figura flamejante permaneceu imóvel por um momento, segurando Shiroromura diante do corpo.
O fogo branco rugia ao redor dele, iluminando a realidade que agora carregava as marcas de sua própria força.
Yorm conseguiu se levantar lentamente.
O sangue negro continuava escorrendo do braço amputado, mas ele manteve a postura, tentando recuperar a compostura diante do novo cenário.
Ren permaneceu ao seu lado.
Os dois encararam Kagetsu.
O Shinpan-Kan Número Cinco girou a alabarda uma última vez e apontou a lâmina para os dois adversários.
As chamas se intensificaram.
Yorm olhou para Ren.
Depois, para Kagetsu.
Sua expressão já não carregava o mesmo desprezo de antes.
Ainda havia medo.
Mas, agora, havia também a determinação de alguém que compreendia que a batalha havia entrado numa nova fase.
Ele ergueu a mão que ainda possuía e puxou a espada de dentro do próprio corpo.
A lâmina ancestral surgiu novamente, envolvida por energia vermelha.
Yorm assumiu uma postura de combate ao lado de Ren.
— Vamos acabar com isso logo.
Kagetsu não respondeu.
Apenas apertou o cabo de Shiroromura.
E, no centro daquela realidade transformada por duas vontades que se recusavam a ceder, as chamas brancas continuaram queimando.