Capítulo 140 — Eu Venci.
Kagetsu continuava caminhando.
Seus passos eram lentos, mas cada um deles fazia o chão da Realidade Branca estremecer sob as chamas que ainda se espalhavam pelas rachaduras do espaço. A Shiroromura, inteiramente formada por seu próprio Kai, ardia em suas mãos, deixando rastros de fogo branco e alaranjado no ar.
À sua frente, Yorm permanecia caído.
Seu corpo estava destruído. A armadura ancestral, antes imponente, havia sido reduzida a fragmentos escurecidos e retorcidos. O sangue negro escorria pelos cortes de seu tronco, enquanto o lugar onde seu braço esquerdo estivera continuava aberto, incapaz de se regenerar completamente. Seu rosto, parcialmente desfigurado pelas chamas, carregava uma expressão de ódio tão profunda que parecia ter ultrapassado qualquer limite de racionalidade.
Ele tentou se levantar.
A mão direita pressionou o chão. Seus músculos estremeceram, e os dentes afiados se apertaram uns contra os outros.
Mas seu corpo não respondeu como deveria.
Yorm estava acostumado a ser aquele que decidia o resultado de uma batalha. Estava acostumado a ver seus adversários caírem diante de suas leis, incapazes de compreender sequer o que lhes acontecia. A Verdade era sua autoridade. A Realidade Branca era seu domínio. E, durante boa parte daquela luta, ele havia acreditado que nenhum ser naquele mundo poderia arrancar-lhe essas certezas.
Agora, porém, estava no chão, ferido, mutilado e obrigado a olhar para o homem que havia tentado destruir.
E nenhuma solução vinha à sua mente ancestral.
Kagetsu se aproximou mais.
E mais.
Até que finalmente parou diante dele.
O Shinpan-Kan o observou de cima, envolvido pelas próprias chamas. Seu rosto era quase impossível de distinguir naquela forma. Os olhos completamente brancos não demonstravam emoção alguma, e a silhueta de seu corpo parecia pertencer a alguma entidade antiga, algo que havia sido arrancado de uma lenda e colocado diante deles.
Mesmo assim, não havia arrogância naquele olhar.
Kagetsu não sorria por se considerar superior. Não havia prazer em vê-lo caído. Não havia sequer o desejo de humilhá-lo.
Ele simplesmente o encarava.
Mesmo depois de tudo o que Yorm havia feito, mesmo depois de ter sido obrigado a lutar até aquele estado, Kagetsu ainda parecia respeitar o adversário que tinha diante de si.
Então, lentamente, girou a Shiroromura.
A enorme arma flamejante rodopiou em sua mão, espalhando pequenas partículas de fogo que desapareceram antes de alcançar o chão.
Yorm ergueu o rosto.
Seus olhos se estreitaram.
— Maldito!
A palavra saiu carregada de uma raiva quase sufocante.
Kagetsu não reagiu.
— Por que ainda me olha como se fôssemos amigos?!
Yorm tentou se erguer um pouco mais, mas a dor o fez vacilar. Ainda assim, continuou encarando o Shinpan-Kan, incapaz de aceitar a serenidade daquela figura.
— Afinal, o que diabos você é?! Um demônio? Um Deus?!
Sua expressão se contorceu.
— Não! Ainda não passa de um verme inútil da Igreja!
As chamas ao redor de Kagetsu crepitaram.
Ele permaneceu imóvel.
— Você é a escória do que aquela Igreja tem a oferecer! — Yorm continuou, cuspindo as palavras com desprezo. — O plano dos Ancestrais não vai cair! E hoje só saímos dessa realidade com a sua cabeça!
Por um instante, a única coisa que se ouviu foi o fogo.
Então Kagetsu se moveu.
Não houve aviso. Nenhum grito. Nenhuma declaração sobre justiça ou vingança.
A Shiroromura simplesmente desapareceu da posição em que estava.
No instante seguinte, a arma flamejante atravessou a bochecha de Yorm.
A lâmina penetrou o rosto do Ancestral, atravessando sua mandíbula e destruindo a região de sua boca em uma explosão de chamas brancas. O calor atingiu o interior de sua face, queimando tudo por onde passava. O som do impacto foi abafado por um estalo violento, seguido pelo grito sufocado que escapou de sua garganta.
Yorm paralisou.
Seus olhos se arregalaram.
A dor não era capaz de matá-lo. Não imediatamente. Mas aquilo era diferente de um corte comum. O fogo de Kagetsu continuava queimando o ferimento, impedindo que seu corpo simplesmente ignorasse o dano.
O Ancestral tentou mover a cabeça, mas a arma ainda atravessava sua mandíbula.
Kagetsu a retirou.
Yorm tombou para o lado, apoiando a mão direita no chão enquanto um som rouco escapava de sua garganta destruída.
Kagetsu girou a Shiroromura mais uma vez.
O movimento foi tranquilo, quase automático, como se estivesse apenas limpando uma espada depois de um golpe.
As chamas envolveram a lâmina e consumiram os vestígios escuros de sangue que haviam ficado nela.
A poucos metros dali, Ren finalmente conseguiu erguer parte do corpo.
Seu peito ainda estava gravemente ferido pelo corte horizontal que Kagetsu lhe havia desferido. As marcas negras de sua forma ancestral se espalhavam por sua pele, mas até mesmo aquela transformação parecia estar perdendo a estabilidade. Cada respiração exigia um esforço que ele não gostaria de demonstrar.
Ainda assim, quando viu o que havia acontecido com Yorm, ficou imóvel.
Por um momento, acreditou que o Ancestral estivesse morto.
Era difícil imaginar que alguém pudesse continuar vivo depois de receber um golpe daqueles no rosto.
Então Yorm começou a se mover.
Primeiro, os dedos de sua mão direita se contraíram contra o chão.
Depois, seus ombros estremeceram.
Lentamente, com uma dificuldade que jamais teria admitido sentir, ele ergueu a cabeça.
Seu rosto estava completamente destruído naquela região. Metade já havia sido desfigurada anteriormente pelo golpe de Kagetsu, e agora sua boca e mandíbula haviam sido reduzidas a uma massa irreconhecível de tecido queimado.
O Ancestral respirava de maneira irregular.
A dor era insuportável.
Então, diante dos olhos de Ren, algo começou a acontecer.
As aberturas nas bochechas de Yorm se fecharam lentamente. A carne destruída se reconstruiu em pequenos movimentos, enquanto as partes danificadas da mandíbula voltavam a se unir. O processo não foi rápido nem completo, mas, pouco a pouco, o ferimento que Kagetsu acabara de causar deixou de ser uma abertura exposta.
Ren arregalou os olhos.
— Ele consegue se regenerar...
Kagetsu também pareceu surpreendido.
Foi uma reação mínima. Apenas uma breve interrupção no movimento da Shiroromura, como se aquela informação tivesse alterado por um instante o que esperava encontrar.
A regeneração de Yorm, entretanto, estava longe de ser suficiente para restaurá-lo por completo.
Seu rosto continuava desfigurado. Os cortes em seu tronco permaneciam abertos, e o braço esquerdo não voltaria tão cedo. A habilidade havia conseguido reparar apenas o ferimento mais recente, consumindo uma parcela considerável das forças que ainda lhe restavam.
Yorm cuspiu um pouco de sangue negro.
Então levantou os olhos para Kagetsu.
— Isso não vai ser suficiente para me calar!
Sua voz saiu áspera, deformada pelas lesões recém-curadas.
Ele sorriu de maneira torta, revelando os dentes afiados.
— Eu posso morrer aqui, mas irei morrer te relembrando do quão inútil você é, Kagetsu Arashi!
O Shinpan-Kan não respondeu.
Yorm continuou a provocá-lo. Insistia em suas palavras, tentando encontrar alguma rachadura naquela serenidade, alguma reação que lhe permitisse acreditar que ainda exercia algum controle sobre a situação.
Mas Kagetsu não lhe ofereceu nada.
Nenhuma resposta.
Nenhum gesto de raiva.
Nenhum sinal de que aquelas palavras tivessem conseguido alcançá-lo.
E foi justamente naquele instante que algo mudou.
Kagetsu tremeu.
Foi um movimento pequeno, quase imperceptível no início. Seus ombros estremeceram, e suas pernas perderam a firmeza por uma fração de segundo.
A Shiroromura desceu abruptamente.
Sua ponta atingiu o chão, e Kagetsu precisou se apoiar no cabo para impedir que o próprio corpo desabasse.
Ren interrompeu suas tentativas de se levantar.
Yorm também ficou em silêncio.
Ambos observaram o Shinpan-Kan, sem compreender imediatamente o que estava acontecendo.
Kagetsu tentou permanecer de pé.
Seu corpo tremeu outra vez.
Então ele tossiu.
Um jato de sangue escapou de sua boca e caiu sobre o chão, onde as gotas escuras desapareceram entre as chamas.
Por alguns segundos, Kagetsu permaneceu inclinado sobre a Shiroromura, respirando com dificuldade.
E, lentamente, o fogo começou a desaparecer.
Primeiro, as chamas ao redor de seus ombros diminuíram. Depois, a luz que envolvia seus braços se fragmentou, deixando pequenas partículas brancas flutuando no ar antes de se apagarem.
A figura colossal envolta em fogo começou a revelar o homem que existia por baixo dela.
Seus cabelos curtos e brancos estavam desarrumados. Algumas pontas haviam escurecido, queimadas pelo próprio poder. Os óculos escuros que quase sempre carregava já não estavam em seu rosto.
As chamas desceram por seu peito.
E então revelaram a extensão do que havia acontecido com seu corpo.
Kagetsu estava sem a parte superior do uniforme. Restavam apenas as calças de seu traje de Shinpan-Kan, e seus pés descalços estavam apoiados sobre o chão branco.
Seu tronco estava inteiramente queimado.
Havia regiões em que a pele havia escurecido, outras em que a superfície estava avermelhada e profundamente danificada. Partes do corpo pareciam ter sido consumidas pelo calor de dentro para fora.
Não eram ferimentos que ele pudesse simplesmente ignorar.
Era como se o poder que havia acabado de salvá-lo estivesse agora cobrando tudo o que lhe havia permitido fazer.
Kagetsu tentou erguer a cabeça.
As chamas ao redor de suas pernas se apagaram.
Por fim, a Shiroromura começou a desaparecer.
A arma que havia enfrentado dois Ancestrais, que havia atravessado as defesas de Yorm e transformado aquela realidade em um inferno particular, começou a se desfazer em partículas de fogo branco.
A haste desapareceu primeiro.
Depois, a lâmina.
As chamas se desprenderam dela, flutuaram lentamente ao redor de Kagetsu e desapareceram no vazio.
Ele tentou manter a mão fechada, como se ainda segurasse o cabo.
Mas não havia mais nada ali.
Kagetsu perdeu o apoio.
Seu corpo começou a tombar para trás.
Por um breve instante, tentou resistir. Os músculos de suas pernas se contraíram, e sua mão buscou algum ponto onde pudesse se apoiar.
Não encontrou nada.
O Shinpan-Kan caiu lentamente de costas.
E, naquele mesmo instante, a Realidade Branca começou a mudar.
As chamas que cobriam o ambiente se apagaram uma após a outra. As rachaduras alaranjadas desapareceram. O chão voltou a perder a coloração escura, e as distorções que haviam se espalhado pelo espaço começaram a se fechar.
O domínio de Kagetsu estava terminando.
A realidade que ele havia tomado para si retornava, lentamente, ao controle de Yorm.
O Ancestral observou tudo aquilo.
Então um sorriso surgiu em seu rosto.
Pela primeira vez em muito tempo, Yorm voltou a sorrir sem sentir que precisava esconder o próprio medo.
— Finalmente...
Ele se levantou com dificuldade, segurando o próprio corpo com a única mão que lhe restava.
— Está de volta às minhas mãos.
Kagetsu permanecia consciente.
Mas mal conseguia se mover.
Seu corpo queimado estava estendido sobre o chão branco, e cada respiração parecia exigir mais força do que ele ainda possuía.
A habilidade que havia despertado tinha um nome.
Kai das Chamas Sagradas: Deus do Fogo.
Não era uma transformação que pudesse ser mantida indefinidamente. Era uma habilidade de emergência, despertada apenas quando não restava outra alternativa, uma manifestação tão poderosa que permitia ao usuário impor a própria vontade sobre a realidade ao redor.
Mas havia uma consequência.
Uma única consequência.
A morte.
O coração de Kagetsu começaria a queimar depois que o poder se extinguisse. E, a partir daquele momento, restavam-lhe aproximadamente quatro minutos de vida.
Quatro minutos para um homem que havia passado a existência inteira lutando.
Quatro minutos para alguém que, mesmo diante de dois Ancestrais, havia escolhido continuar de pé.
Quatro minutos para Kagetsu Arashi.
Yorm percebeu que não havia mais tempo a perder.
— Ren!
O Ancestral voltou o rosto para o companheiro.
— Levante-se! Mate-o agora mesmo!
Ren ouviu a ordem.
Seu corpo ainda estava no limite. O ferimento no torso continuava sangrando, e sua forma ancestral parecia oscilar, as marcas negras perdendo parte da intensidade enquanto ele tentava recuperar o equilíbrio.
Mas ele se levantou.
Lentamente, primeiro apoiando uma das mãos no chão, depois obrigando as pernas a sustentarem seu peso.
Por um momento, permaneceu curvado, respirando com dificuldade.
Então desapareceu.
O movimento foi tão rápido que até mesmo Kagetsu teve dificuldade para acompanhá-lo.
Ren surgiu ao lado do Shinpan-Kan e agarrou seu corpo, levantando-o com uma força absurda. Kagetsu mal conseguiu reagir. Seu corpo queimado foi erguido do chão, e, por um instante, ele ficou suspenso no ar.
Ren o soltou.
Antes que Kagetsu pudesse cair, a foice já estava em movimento.
O golpe horizontal rasgou a pele queimada de seu tronco.
Kagetsu arqueou o corpo involuntariamente, e o sangue escorreu pela região atingida.
Ren não esperou que ele alcançasse o chão.
Avançou novamente, agarrou seu pescoço e o arremessou contra o solo com toda a força que ainda possuía.
O impacto foi brutal.
A Realidade Branca tremeu.
O corpo de Kagetsu atingiu o chão e deslizou por alguns metros, deixando uma marca escura sobre a superfície completamente branca.
Ren permaneceu sobre ele, respirando com dificuldade.
Kagetsu não tentou se levantar.
Seus olhos estavam abertos, fixos no rosto do homem que o havia derrubado.
Não havia súplica neles.
Não havia desespero.
Apenas uma tranquilidade estranha, quase dolorosa, de alguém que havia feito aquilo que precisava fazer.
Ren ergueu a foice.
A lâmina começou a descer.
Mas, antes que pudesse completar o movimento, a voz de Yorm interrompeu o silêncio.
— Espere.
Ren parou.
A foice ficou suspensa a poucos centímetros do pescoço de Kagetsu.
Yorm se aproximou lentamente, arrastando os passos pelo chão. Seu corpo estava longe de ter se recuperado, mas o simples fato de Kagetsu estar caído parecia devolver-lhe uma parte da confiança perdida.
Ele parou ao lado dos dois.
Olhou para o Shinpan-Kan com desprezo.
Então abriu um sorriso demoníaco.
— Vou assumir... — começou, examinando os próprios ferimentos. — Confesso que levei alguns golpes.
Seus olhos voltaram para Kagetsu.
— Mas era óbvio que você não nos venceria.
O sorriso se alargou.
— Afinal, como eu já falei... é só um homem sozinho. Inútil. Com motivos mentirosos para continuar lutando.
Kagetsu continuou olhando para ele.
Yorm levou a mão direita à cintura.
O artefato ainda estava preso ali, como se nem mesmo toda a violência daquela batalha tivesse conseguido arrancá-lo de seu lugar.
O Ancestral o retirou e o ergueu lentamente.
A superfície do objeto refletiu a luz branca da realidade.
— Agora, iremos pegar educadamente o seu Kai...
Ele inclinou a cabeça.
— E o daquele soldado medíocre que lutou tanto para proteger.
Bashiki.
Mesmo gravemente ferido, o soldado ainda era a razão pela qual Kagetsu havia resistido até aquele ponto.
O Ancestral pretendia tomar o Kai dos dois.
Kagetsu sorriu discretamente.
Yorm parou.
Por um instante, não compreendeu o que estava vendo.
— Como ainda consegue sorrir?
O desprezo em sua voz voltou a se intensificar.
— É mesmo um idiota. Vai morrer como um fraco.
Ele lançou um olhar breve para Ren, que finalmente começou a guardar a foice nas costas.
— Vá pegar aquele soldado. Traga-o aqui e o mate em frente ao Shinpan-Kan.
Ren assentiu levemente.
Então se virou.
Yorm voltou a atenção para Kagetsu.
Agora, a diferença entre os dois era evidente.
O Ancestral permanecia de pé, ainda que ferido. Kagetsu estava caído diante dele, com o corpo queimado, cortado e incapaz de se mover.
No centro de seu peito, algo brilhava.
Era uma luz fraca, irregular, quase imperceptível.
O coração de Kagetsu começava a queimar.
Yorm observou aquele brilho e sorriu.
A face desfigurada continuava marcada pelas queimaduras. Pequenas cicatrizes ainda atravessavam a região da boca que Kagetsu havia destruído, enquanto o tronco permanecia coberto de cortes abertos. A armadura estava quase completamente arruinada, e o braço esquerdo continuava amputado.
Apesar de tudo, o Ancestral ainda se considerava vitorioso.
O silêncio se prolongou.
Um segundo.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Yorm franziu a testa.
Não havia escutado nenhum passo.
Ren ainda estava parado.
O Ancestral virou lentamente a cabeça.
— O que há de errado?! Vá logo atrás daquele soldado!
Ren não respondeu.
Continuou olhando para a frente.
Yorm estreitou os olhos, incomodado com aquela reação.
Então se virou completamente.
E percebeu.
Bashiki não estava mais ali.
O lugar onde o soldado havia permanecido durante toda a batalha estava vazio.
Não havia corpo. Não havia sangue recente que indicasse que alguém o tivesse arrastado. Não havia sequer qualquer sinal de que ele tivesse sido movido.
Simplesmente não estava mais naquela realidade.
Yorm ficou imóvel.
— O quê...?
Seus olhos percorreram o espaço à sua frente.
— Onde ele está?!
Ren também olhou ao redor, tentando compreender o que havia acontecido.
Ambos examinaram a Realidade Branca. Yorm observou as distâncias, os limites do espaço, as regiões que antes haviam sido alteradas pelo poder de Kagetsu.
Nada.
Bashiki havia desaparecido.
E não fazia sentido.
A realidade estava novamente sob o controle de Yorm. Nenhuma passagem permanecia aberta. Nenhum outro ser deveria ser capaz de entrar ou sair dali sem que ele percebesse.
Então...
Uma risada rompeu o silêncio.
Baixa.
Fraca.
Interrompida por uma tosse.
Yorm virou a cabeça.
Ren fez o mesmo.
Kagetsu estava caído no chão, com os olhos semicerrados e o sangue escorrendo pelo canto da boca.
E estava rindo.
O som era tão fraco que parecia impossível acreditar que ainda viesse dele. Cada risada era interrompida pela dificuldade de respirar, e algumas se transformavam em tosses dolorosas.
Mesmo assim, Kagetsu continuava.
Yorm o encarou com nojo.
— O que é tão engraçado?!
Kagetsu tentou respirar.
Tossiu novamente.
Então ergueu um pouco o rosto.
— O que foi, Yorm?
A voz saiu rouca, quase inaudível.
Mas o sorriso continuava ali.
— Não está encontrando o homem que planejava matar?
Yorm ficou completamente imóvel.
O sorriso de Kagetsu se alargou por um instante, e outra tosse de sangue interrompeu sua risada.
— Você...
O Ancestral deu um passo em sua direção.
— O que fez?!
Kagetsu fechou os olhos por um momento, tentando conter a tosse.
Quando voltou a abri-los, olhou diretamente para Yorm.
— Quando... você percebeu as minhas chamas...
Sua respiração falhou.
Ele precisou de alguns segundos antes de continuar.
— Quando eu despertei essas chamas... você pensou que eu simplesmente tinha avançado na sua direção.
Yorm não se moveu.
Ren observava Kagetsu com uma expressão cada vez mais tensa.
— Mas eu fiz outra coisa.
Kagetsu respirou com dificuldade.
— Eu fui mais rápido do que vocês conseguiram perceber.
No instante em que as Chamas Sagradas haviam tomado o corpo de Kagetsu, a Realidade Branca inteira pareceu estremecer.
Yorm ainda estava convencido de que o Shinpan-Kan havia perdido a batalha. Ren, embora atento, também acreditava que Kagetsu estava apenas preparando um último ataque desesperado.
Então o fogo branco explodiu ao redor do guerreiro.
O chão se abriu em rachaduras luminosas. As cores se espalharam pela realidade, e uma pressão avassaladora fez o espaço inteiro estremecer.
Yorm mal teve tempo de erguer a cabeça.
Kagetsu desapareceu.
Para os dois Ancestrais, tudo o que se seguiu pareceu um único movimento.
O Shinpan-Kan avançou na direção de Yorm, envolto pelas chamas, com a Shiroromura se formando em sua mão.
Mas aquilo era apenas o que os olhos deles conseguiram acompanhar.
Na verdade, Kagetsu havia feito algo muito diferente.
No exato instante em que seu poder despertou, ele compreendeu que aquela realidade já não era inteiramente de Yorm.
As Chamas Sagradas haviam se espalhado pelo espaço, impondo a vontade de Kagetsu sobre a estrutura da Realidade Branca. Por uma fração de tempo, ele sentiu algo que jamais havia experimentado antes.
Não era simplesmente controlar o fogo.
Não era apenas aumentar sua força ou sua velocidade.
Era como se pudesse sentir a própria realidade.
Seus limites.
Suas paredes invisíveis.
As fronteiras que separavam aquele lugar do mundo exterior.
E, no meio daquela percepção extraordinária, Kagetsu viu Bashiki.
O soldado permanecia caído, ferido e recuperando a consciência aos poucos, incapaz de fugir ou sequer compreender o que estava acontecendo ao seu redor.
Kagetsu não hesitou.
Enquanto seu corpo avançava na direção de Yorm, uma parte de sua atenção permaneceu concentrada no soldado.
Em uma fração de segundo, ele desviou sua trajetória.
O movimento foi tão rápido que não produziu qualquer reação perceptível nos dois Ancestrais.
Kagetsu surgiu ao lado de Bashiki, abaixou-se e o ergueu nos braços.
O soldado era pesado, e seu corpo estava ferido. Mas, naquele estado, Kagetsu sentiu como se carregasse apenas uma pequena parcela do peso que deveria carregar.
O Deus do Fogo havia levado suas capacidades físicas muito além de qualquer limite anterior.
Ele segurou Bashiki com cuidado, protegendo sua cabeça contra o próprio peito queimado.
Então voltou sua percepção para a estrutura daquela realidade.
E encontrou aquilo que procurava.
Uma fronteira.
Uma separação quase imperceptível entre a Realidade Branca e o mundo de onde Bashiki e ele haviam sidos arrancados.
Kagetsu concentrou suas chamas naquele ponto.
O fogo branco se estendeu por seus dedos, mas não se espalhou como uma explosão. Pelo contrário, tornou-se fino, concentrado, como uma lâmina invisível pressionando uma superfície que ninguém mais poderia tocar.
A realidade resistiu.
Por um instante, Kagetsu sentiu a estrutura daquele espaço se contrair contra sua vontade.
Então ele forçou.
E o tecido da Realidade Branca se abriu.
Não foi uma porta.
Não foi um portal comum.
Foi uma ruptura na própria existência daquele lugar, uma abertura estreita que revelava, do outro lado, o mundo real.
Através dela, Kagetsu viu Celestria.
Viu o lugar para onde Bashiki precisava voltar.
O soldado ainda acordava aos poucos.
Kagetsu o segurou por mais um instante.
Não havia tempo para verificar seus ferimentos. Não havia tempo para explicar o que estava acontecendo.
Ele simplesmente o atravessou pela abertura.
No instante seguinte, Bashiki desapareceu da Realidade Branca.
A ruptura se fechou imediatamente.
O espaço voltou a ser contínuo.
Nenhum vestígio permaneceu.
Kagetsu ficou parado por uma fração de segundo, sentindo o peso daquela escolha.
Ele compreendeu que não poderia fazer aquilo novamente.
O poder que havia despertado permitira que ele interferisse naquela realidade de uma maneira que jamais imaginara. Mas a abertura havia exigido uma concentração extraordinária, e ele sabia que não conseguiria repeti-la.
Uma única vez.
Uma única pessoa.
E Kagetsu havia escolhido quem deveria atravessá-la.
Não a si mesmo.
Não uma forma de escapar.
Bashiki.
O soldado que continuara de pé mesmo quando sabia que não poderia vencer.
Kagetsu havia escolhido salvá-lo.
E, logo depois, voltou a avançar contra Yorm, carregando consigo o segredo que os dois Ancestrais só descobririam quando já fosse tarde demais.
A lembrança terminou.
Kagetsu voltou a encarar os dois Ancestrais.
Sua respiração estava cada vez mais fraca, mas o sorriso não havia desaparecido.
— Ele vai voltar para a Igreja...
Yorm não respondeu.
Seus olhos estavam arregalados, e a mão direita apertava o artefato com tanta força que os dedos pareciam prestes a quebrá-lo.
Kagetsu continuou:
— Vai contar que vocês estiveram em Celestria. E agora... também sabe o plano de vocês.
Uma tosse interrompeu suas palavras.
Ele virou ligeiramente a cabeça, tentando recuperar o fôlego.
O sangue escorreu de sua boca.
Ainda assim, prosseguiu.
— Ele vai contar para todos que os Ancestrais estão matando soldados da Igreja... roubando seus Kai... e usando isso para preparar alguma coisa.
Seus olhos se fixaram nos de Yorm.
— E então...
Kagetsu sorriu.
— O plano de vocês desaparece.
O silêncio que se seguiu pareceu engolir toda a Realidade Branca.
Yorm rangeu os dentes.
O som foi tão forte que parecia que eles se quebrariam sob a pressão.
Por alguns segundos, ele não conseguiu pronunciar uma palavra.
Tudo aquilo.
Toda a luta.
A mutilação.
A dor.
A humilhação de ter sido reduzido a um estado que jamais imaginara experimentar.
E, no fim, aquele homem ainda havia encontrado uma maneira de frustrar seus planos.
Não havia sido necessário derrotar os dois Ancestrais.
Não havia sido necessário matá-los.
Kagetsu só precisava garantir que alguém sobrevivesse.
E havia conseguido.
Ren permanecia em silêncio.
Sua expressão era difícil de interpretar, mas até mesmo ele parecia ter compreendido o peso daquela revelação.
A vitória que os dois haviam começado a recuperar havia acabado de escapar por entre seus dedos.
Kagetsu tossiu novamente.
A dor percorreu seu corpo, e ele precisou fechar os olhos por alguns instantes.
Quando voltou a abri-los, encontrou os dois Ancestrais diante de si.
E sorriu.
Não era um sorriso de deboche.
Era o sorriso de alguém que finalmente havia encontrado uma resposta.
Yorm ergueu lentamente o braço direito.
O artefato começou a brilhar.
— Seu...
A voz do Ancestral saiu baixa, carregada de ódio.
Ele apontou o objeto diretamente para Kagetsu.
— Maldito!
Um feixe de luz branca disparou do artefato e atingiu o peito do Shinpan-Kan.
Kagetsu soltou um grunhido.
Seu corpo se contraiu contra o chão, e os dedos de sua mão direita se fecharam involuntariamente. A luz envolveu seu tronco, atravessando a superfície queimada de sua pele e alcançando aquilo que ainda restava de seu Kai.
A absorção começou.
Kagetsu tentou resistir.
Por um instante, as chamas brancas reapareceram ao redor de seus dedos, pequenas e instáveis, como as últimas brasas de uma fogueira prestes a morrer.
Mas não havia mais força suficiente.
O poder que havia sustentado seu corpo durante aquela batalha estava desaparecendo.
E o artefato continuava sugando tudo o que restava.
Kagetsu soltou outro grunhido, desta vez mais intenso. Seu corpo se arqueou, e as veias de seu pescoço ficaram visíveis enquanto a energia era arrancada de dentro dele.
Yorm permaneceu imóvel.
Seu rosto não demonstrava satisfação.
Apenas ódio.
A luz se intensificou por alguns segundos e, então, começou a diminuir.
As últimas partículas de energia deixaram o corpo de Kagetsu.
O artefato brilhou uma última vez.
E a luz desapareceu.
Yorm abaixou o braço.
O silêncio voltou a dominar a realidade.
Kagetsu permaneceu deitado.
Seu Kai havia sido roubado.
Aquela energia que lhe permitia lutar, que sustentava as Chamas Sagradas e que o havia transformado em algo capaz de enfrentar dois Ancestrais, agora pertencia ao artefato.
O corpo do Shinpan-Kan parecia ainda menor.
Seu tronco estava queimado, coberto de cortes e manchas escuras. As marcas da batalha se acumulavam sobre ele, e a perda de seu Kai havia deixado suas últimas forças praticamente inexistentes.
Até mesmo seu corpo parecia ter perdido parte de seu volume, como se toda a energia que o mantinha de pé tivesse sido arrancada junto com o poder.
Ren olhou para Yorm.
A forma ancestral começava a desaparecer de seu corpo. As marcas negras recuavam lentamente, revelando a pele ferida por baixo delas. O sangue continuava escorrendo de seu torso, e ele mal conseguia manter a postura.
Ainda assim, conseguiu perguntar:
— O que iremos fazer agora?
Yorm não respondeu imediatamente.
Seu rosto estava mais sério do que em qualquer outro momento daquela batalha.
Ele olhou para Kagetsu.
Depois para o artefato.
Por fim, desviou os olhos.
Guardou o objeto novamente na cintura e se inclinou para recuperar a espada que havia deixado cair durante a luta.
Segurou o cabo com a mão direita.
A lâmina, criada a partir de seu próprio Kai, estava parcialmente danificada, mas ainda podia ser utilizada.
Yorm a ergueu.
Então, sem qualquer hesitação, enfiou a espada no próprio corpo.
Ren observou o movimento.
A lâmina atravessou o tronco do Ancestral e começou a se desfazer em energia negra, sendo absorvida por seu corpo. Era uma maneira de recolher novamente o Kai que havia materializado na forma da arma.
Quando terminou, Yorm deixou escapar uma respiração lenta.
Depois começou a caminhar.
— Vamos embora.
Ren permaneceu imóvel por um instante.
Yorm não olhou para trás.
— Deixe este maldito sofrer até a morte.
A ordem foi pronunciada com uma frieza absoluta.
Ren voltou os olhos para Kagetsu.
O Shinpan-Kan estava caído a poucos metros de distância, incapaz de se levantar. Seu peito ainda apresentava aquele brilho irregular, mas agora parecia quase apagado.
Por um breve momento, Ren permaneceu observando-o.
Talvez esperasse alguma última reação.
Talvez procurasse compreender como um homem que havia perdido tudo ainda conseguia sorrir.
Mas Kagetsu não disse nada.
Ren finalmente se virou.
E acompanhou Yorm.
O Ancestral ergueu a mão direita, a única que ainda possuía, e fez um movimento curto no ar.
A realidade respondeu.
Uma abertura surgiu diante deles, rasgando a superfície branca e revelando a passagem para fora daquele lugar.
Yorm começou a atravessá-la.
Ren o seguiu.
Mas, antes de desaparecer completamente, Yorm parou.
Virou a cabeça.
A vários metros dali, Kagetsu continuava caído no chão.
O Shinpan-Kan não havia tentado se levantar. Não havia gritado. Não havia pedido ajuda.
Mesmo naquela condição, seus olhos permaneciam abertos.
E ele ainda sorria.
Yorm o encarou por alguns segundos.
Naquele olhar havia ódio.
Mas havia também outra coisa.
Medo.
Um medo que ele jamais admitiria em voz alta.
Porque, mesmo depois de vencer a batalha física, mesmo depois de roubar o Kai de Kagetsu, Yorm sabia que aquele homem havia conseguido algo que ele não poderia desfazer com a própria força.
Bashiki estava vivo.
E levaria consigo o que aconteceu naquela madrugada.
Yorm cerrou os dentes uma última vez.
Então atravessou a passagem.
Ren desapareceu logo depois.
A abertura começou a se fechar.
O espaço se contraiu lentamente, até que a passagem desapareceu por completo.
E Kagetsu Arashi ficou sozinho.
Completamente sozinho.
A Realidade Branca havia retornado ao seu estado original. Não havia mais chamas. Não havia mais rachaduras. Não havia mais vestígios do domínio que o Shinpan-Kan havia imposto sobre aquele lugar.
Apenas um espaço infinito, inteiramente branco.
Kagetsu permaneceu deitado, encarando o que parecia ser o céu daquela realidade.
Seus olhos estavam cansados.
Sua respiração era fraca.
Ele tentou mover a mão direita, mas os dedos mal responderam. Seu corpo havia chegado ao limite, e até mesmo o menor movimento parecia exigir uma quantidade absurda de esforço.
O silêncio era absoluto.
Nenhuma voz.
Nenhum passo.
Nenhuma presença.
Somente ele.
E o tempo que ainda lhe restava.
Kagetsu sentiu algo estranho no peito.
No início, foi apenas uma sensação de calor profundo, diferente de qualquer ferimento que já havia experimentado.
Então veio a dor.
Seu coração parecia estar fervendo dentro do próprio corpo.
Kagetsu contraiu levemente o rosto.
O brilho em seu peito se intensificou, e a pele ao redor começou a ficar cada vez mais avermelhada. Pequenas ondulações se formavam sob a superfície, como se algo estivesse fervendo por dentro.
Ele compreendeu.
Já haviam se passado três minutos.
Restava pouco.
Muito pouco.
Kagetsu continuou olhando para o céu branco.
Não tentou se levantar.
Não tentou encontrar uma saída.
Não havia mais nada que pudesse fazer.
A batalha havia terminado.
Bashiki estava vivo.
E, em algum lugar fora daquela realidade, a mensagem começava a caminhar de volta para Celestria.
Kagetsu fechou os olhos por um instante.
Meu coração... está queimando.
A dor aumentou.
Ele respirou lentamente, embora o ar parecesse cada vez mais difícil de alcançar.
Mas acho que dessa vez eu fiz o que deveria ter feito, Sora.
Uma lembrança atravessou sua mente.
Uma voz gentil.
Um sorriso tranquilo.
Um homem que havia desviado de todos os seus golpes quando Kagetsu ainda era apenas um adolescente de quinze anos, alguém que acreditava que a força era suficiente para resolver qualquer problema.
Sora.
O homem que o havia derrotado sem sequer precisar atacá-lo.
O homem que lhe dera a Shiroromura.
O homem que havia confiado nele, que o havia escolhido para se tornar um Shinpan-Kan e que lhe ensinara que a verdadeira força não existia apenas naquilo que alguém era capaz de destruir.
Kagetsu sentiu os lábios se moverem levemente.
Eu acho que... de certa forma...
Uma tosse interrompeu o pensamento.
Seu peito se contraiu.
O sangue escorreu pelo canto de sua boca.
Ele demorou alguns segundos para conseguir respirar novamente.
Então, em silêncio, voltou a olhar para o céu.
Eu venci.
Não havia derrotado os dois Ancestrais.
Não havia acabado com o plano deles.
Não havia saído daquela batalha de pé.
Mas havia protegido alguém.
Havia impedido que Bashiki morresse ali, naquela realidade, sem que ninguém soubesse o que havia acontecido.
Havia garantido que a Igreja recebesse um aviso.
Havia comprado tempo para pessoas que talvez nunca soubessem seu nome.
E, para Kagetsu, aquilo precisava ser suficiente.
O brilho em seu peito aumentou novamente.
A dor tornou-se mais intensa, mas sua mente começou a se afastar dela.
Pouco a pouco, as lembranças vieram.
Primeiro, um menino pequeno, sentado sobre o chão de uma casa velha.
Akio.
Seus cabelos eram brancos desde muito novo, e ele costumava erguer o rosto para Kagetsu com uma curiosidade que parecia não ter fim. Queria aprender tudo o que o irmão mais velho sabia. Queria acompanhá-lo quando saía para caçar. Queria provar que também era capaz de ajudar a família.
Kagetsu se lembrava de como Akio tentava segurar ferramentas grandes demais para suas mãos.
Lembrava-se de suas pequenas reclamações quando era impedido de acompanhá-lo.
E lembrava-se, acima de tudo, de como o menino sorria quando Kagetsu voltava para casa trazendo comida.
O sorriso de Akio.
Tão pequeno.
Tão inocente.
Tão distante.
A lembrança mudou.
Renji.
Mais tímido do que os outros, mas alegre de uma maneira silenciosa. Era ainda menor que Akio e costumava permanecer perto de Kagetsu, observando-o trabalhar sem interromper.
Às vezes, quando os outros dormiam, Renji se aproximava para perguntar se havia algo que pudesse fazer.
Kagetsu sempre dizia que não precisava.
Renji sempre insistia.
Ele queria ajudar.
Queria ser útil.
Queria fazer parte daquilo que o irmão mais velho carregava sozinho.
Kagetsu sentiu os olhos arderem.
Não sabia se era a dor.
Ou se eram as lembranças.
Então veio Toma.
O menor de todos.
Uma criança tão pequena que ainda tinha dificuldade para pronunciar o nome do irmão.
Kagetsu se lembrou de suas mãos miúdas agarrando a barra de sua roupa. Lembrou-se das tentativas atrapalhadas de chamá-lo quando ele se preparava para sair de casa.
Toma sempre queria que Kagetsu ficasse mais um pouco.
Mais alguns minutos.
Só mais uma história.
Só mais um momento.
Naquela época, Kagetsu acreditava que sempre haveria uma próxima vez.
Que voltaria para casa.
Que os encontraria novamente.
Que poderia continuar protegendo os três.
Mas nunca houve uma próxima vez.
A lembrança de Toma desapareceu lentamente.
E, por fim, veio Mio.
Sua irmã querida.
A menina que havia permanecido com ele quando o mundo inteiro parecia ter abandonado os dois.
Kagetsu se lembrou de seus cabelos, de sua voz, de como ela costumava olhar para ele quando tinha medo.
Lembrou-se das noites em que a mantinha próxima do fogo para que não sentisse frio.
Dos dias em que dividia com ela a pouca comida que conseguia trazer.
Das vezes em que prometia que tudo ficaria bem, mesmo quando não fazia a menor ideia de como cumpriria aquela promessa.
E então, inevitavelmente, veio a última lembrança.
O chão.
O silêncio.
Seus irmãos.
Mio, curvada sobre eles, já transformada em algo que ele não conseguia compreender.
O instante em que ela se virou.
O olhar que não parecia mais pertencer à sua irmã.
O momento em que Kagetsu percebeu que não havia outra maneira de impedi-la.
Aquela lembrança havia acompanhado sua vida inteira.
Durante anos, ele carregara a culpa de ter sido o responsável pelo fim da própria família.
Mesmo sabendo que não havia tido escolha.
Mesmo sabendo que era apenas um menino tentando sobreviver.
Uma parte dele continuava presa naquele instante, incapaz de perdoar a si mesma.
Mas agora, deitado naquele espaço vazio, Kagetsu se lembrou de algo que havia esquecido por muito tempo.
Ele também havia sido uma criança.
Uma criança que fora abandonada.
Uma criança que aprendera a caçar, cozinhar e lutar porque não havia ninguém para ensiná-la.
Uma criança que havia feito tudo o que podia para manter seus irmãos vivos.
Ele não tinha conseguido salvar todos.
Mas havia tentado.
E talvez, depois de tantos anos, pudesse finalmente aceitar isso.
O calor em seu peito se intensificou.
Kagetsu tentou respirar profundamente, mas o movimento não passou de um esforço fraco.
Seus olhos começaram a se fechar.
Lentamente.
O céu branco ficou cada vez mais distante.
Ele não sentia mais vontade de lutar contra aquilo.
Não havia mais inimigos diante dele.
Não havia mais ninguém para proteger naquele lugar.
Pela primeira vez em muito tempo, Kagetsu podia simplesmente descansar.
Pensou em Sora.
Pensou em Seinaru.
Pensou na promessa que havia feito ao amigo, muitos anos antes.
"Vamos fazer uma promessa? Nunca enfrentar nossos problemas sozinhos, sempre lembrar que temos um ao outro."
Kagetsu sentiu uma pequena tristeza ao se lembrar daquela promessa.
Ele não havia conseguido cumprir tudo o que desejava.
Não havia conseguido voltar para casa com a vitória que imaginara.
Não havia conseguido encontrar uma maneira de sair daquela realidade.
Mas, mesmo assim, não se arrependia.
Porque, naquela batalha, ele não havia lutado sozinho.
Levava consigo cada ensinamento que recebera.
Cada lembrança.
Cada pessoa que havia amado.
Cada promessa que ainda tentava honrar.
E, acima de tudo, levava consigo os quatro irmãos que nunca deixaram de acompanhá-lo, mesmo depois de tantos anos.
O brilho em seu peito começou a se apagar.
A dor tornou-se distante.
Seus braços permaneceram imóveis sobre o chão.
Seu rosto, antes marcado pela tensão da batalha, finalmente relaxou.
Restavam apenas dez segundos.
Kagetsu já mal conseguia manter os olhos abertos.
Ainda assim, reuniu as últimas forças que lhe restavam para mover os lábios.
Um sorriso pequeno surgiu em seu rosto.
Não era o sorriso de um guerreiro que havia derrotado seus inimigos.
Não era o sorriso de um homem que havia provado ser superior a alguém.
Era o sorriso de um irmão mais velho.
De um amigo.
De alguém que, depois de passar a vida inteira tentando impedir que outras pessoas sofressem, finalmente acreditava que poderia reencontrar aqueles que havia perdido.
Seus olhos se fecharam quase por completo.
E, em seus últimos pensamentos, ele viu os quatro novamente.
Akio.
Renji.
Toma.
Mio.
Não como estavam naquela última noite.
Não como vítimas de uma tragédia que havia destruído sua infância.
Mas como seus irmãos.
Pequenos.
Vivos em sua memória.
Esperando por ele.
Kagetsu sorriu uma última vez.
Eu finalmente vou voltar para vocês...
O brilho em seu peito desapareceu.
E, na imensidão completamente branca da Realidade de Yorm, Kagetsu Arashi deu seu último suspiro.
O homem que havia sido abandonado ainda criança.
O menino que perdera toda a sua família.
O caçador que enfrentara os Ancestrais.
O guerreiro que admirara Sora acima de todos.
O Shinpan-Kan Número Cinco.
O homem que, mesmo diante da morte, havia escolhido salvar outra vida.
Kagetsu Arashi morreu sozinho naquela realidade.
Mas não morreu derrotado.
E, pela primeira vez em muitos anos, ele não precisava mais lutar.
Ele finalmente estava voltando para casa.