Do lado de fora da delegacia, a madrugava ventava e estava sem movimento, até a parte de dentro da delegacia nesse meio tempo ficou quieta. A mãe de Bárbara está encostada no carro, do outro lado da rua, abraçando o próprio casaco. Ela estava tensa e com os olhos presos no portão da delegacia.
Esperando por muito tempo, o portão se abre.
Dois policiais saem primeiro, e logo atrás vem Bárbara.
Os passos dela ecoam na calçada enquanto caminha devagar, ainda meio abatida. As luzes da rua iluminam o rosto cansado dela.
A mãe arregala os olhos.
— Filha! Estou aqui!
Ela corre alguns passos até Bárbara. As duas se abraçam forte, como se a mãe tivesse medo de soltá-la de novo.
— Meu Deus, Bárbara… você está bem? Eles fizeram alguma coisa com você? Você se machucou? — pergunta a mãe, segurando o rosto da filha com as mãos, examinando cada detalhe.
Bárbara respira fundo, tentando manter a calma.
— Mãe… mãe, calma. Tá tudo bem. Eu tô bem, de verdade.
— Você tem certeza? Você parece tão pálida…
— Foi só um susto, tá? Nada demais. Já passou.
Um dos policiais faz um pequeno gesto de despedida.
— Ela já está liberada. Qualquer coisa, é só entrar em contato com a delegacia.
— Obrigada… muito obrigada — responde a mãe, ainda segurando o braço da filha.
Elas caminham juntas até o carro. A mãe abre a porta do passageiro com pressa, como se quisesse proteger Bárbara de tudo lá fora.
— Entra, filha. Vamos pra casa.
Bárbara entra no carro e se afunda no banco. A mãe dá a volta rapidamente, entra no banco do motorista e ainda olha para ela mais uma vez, preocupada.
— Você tem certeza que está tudo bem?
Bárbara força um pequeno sorriso cansado.
— Tenho, mãe. Prometo.
Bárbara encosta a cabeça no vidro do carro enquanto a mãe sai com o carro e dirige pelas ruas quase vazias da cidade. As luzes dos postes passam uma após a outra, refletindo no vidro. O cansaço pesa nos olhos dela.
Sem perceber, Bárbara acaba cochilando.
Algum tempo depois, o carro para suavemente. A mãe desliga o motor e olha para o lado.
— Bárbara… filha… chegamos.
Bárbara abre os olhos devagar, ainda meio perdida, piscando algumas vezes.
— Hm… já?
— Já. Vamos, você precisa descansar.
A mãe sai do carro primeiro. Ela caminha até o portão da casa, destranca e o empurra, que abre com um rangido. Em seguida volta ao carro, entra novamente e manobra devagar, estacionando na garagem.
Depois que desliga o motor, o silêncio toma conta do lugar.
Bárbara abre a porta do carro e sai, esticando os braços para o alto e se espreguiçando.
— Nossa… eu tô acabada…
A mãe observa a filha por um instante, com um sorriso pequeno, ainda misturado com preocupação.
— Filha… seu quarto acabou virando meio que um quarto de hóspedes — explica ela enquanto caminham até a porta da casa. — Mas no guarda-roupa ainda tem algumas roupas suas de antes.
Bárbara esfrega os olhos, sonolenta.
— Tudo bem, vamos entrar logo… eu tô quase dormindo em pé.
A mãe ri baixo e abre a porta.
A casa está silenciosa, iluminada apenas por uma luz fraca do corredor. As duas caminham devagar até o quarto.
Quando entram, Bárbara se joga na cama. Nem se preocupa muito em se arrumar; apenas tira os sapatos e se cobre com o lençol.
A mãe fica parada na porta por alguns segundos, observando a filha se acomodar. Quando percebe que Bárbara já está quase dormindo, ela fala:
— Feliz aniversário, minha filha. Durma bem.
Bárbara murmura algo quase inaudível, já meio dormindo. A mãe sorri e fecha a porta do quarto com cuidado. Naquela noite, finalmente em segurança e exausta de tudo que aconteceu, Bárbara dorme profundamente.
Dando quatro horas da tarde, a porta do quarto de Bárbara se abre devagar, deixando entrar um feixe de luz alaranjado do fim de tarde que corta a escuridão do quarto. A mãe dela se aproxima da cama e se senta ao lado, fazendo o colchão afundar levemente.
— Bom dia, dorminhoca! É seu aniversário, vamos acordar meu bem!
Bárbara se mexe, soltando um resmungo abafado enquanto vira o rosto para o outro lado do travesseiro.
— Oi, mãe… deixa eu dormir mais…
— Não. Eu já marquei de sairmos essa noite.
Bárbara abre um dos olhos com dificuldade, ainda com a visão meio embaçada.
— Mas, mãe… eu acabei de sair do hospital…
— Bárbara, você foi dormir eram três e quarenta da manhã. Agora são quatro da tarde, você descansou o suficiente. Levanta. A família estava preocupada com você, vai ser só uma saída, nada de mais.
Ela solta um suspiro longo, ainda derrotada pelo cansaço.
— Tá bom…
A mãe, que estava sentada na beira da cama, apoia as mãos no colchão se levanta e abre as janelas do quarto, deixando tudo iluminado e logo caminha até a porta.
— Anda, vou terminar de me arrumar, você tem uma hora pra se arrumar — diz ela, já no corredor.
A porta se fecha e o quarto volta a ficar silencioso.
Bárbara permanece alguns segundos parada, olhando para o teto, piscando devagar enquanto tenta acordar de verdade. Ela vê melhor o quarto agora acordada.
Há lençóis dobrados sobre a cadeira perto da escrivaninha, um copo d’água pela metade no criado-mudo e o celular descarregado ao lado do travesseiro. E as cortinas batendo na parede são quase fechadas, mas deixam passar faixas de luz dourada que iluminam partículas de poeira flutuando no ar.
Bárbara passa a mão pelo rosto, esfregando os olhos ainda pesados de sono. Depois leva os dedos aos cabelos, que estão completamente bagunçados, como se tivessem brigado com o travesseiro a noite inteira.
Ela pisca algumas vezes, tentando acordar de verdade.
— Bom dia… — diz a voz ao lado dela.
Bárbara solta um suspiro longo.
— Bom dia… — responde, ainda meio sonolenta. — Será que dá problema eu dormir mais um pouco?
— Sim, só que a sua mãe, ou nossa mãe… vai estar entrando no quarto enchendo o seu saco dizendo que “você não tem idade para agir como criança”. Aquela conversa clássica.
Bárbara faz uma careta.
— É… justo.
O Sub estava deitado ao lado dela na cama, encarando o teto como se estivesse pensando em algo muito importante. De repente ele se senta rápido demais, cheio de energia, como se tivesse lembrado de algo urgente.
Bárbara estranha.
— Que foi?
Ele se levanta da cama e começa a andar de um lado para o outro pelo quarto, claramente ansioso. As mãos gesticulam no ar enquanto ele pensa em como falar.
— Eu quero fazer uma pergunta! — diz, finalmente.
Bárbara levanta uma sobrancelha.
— Uma pergunta?
— Sim.
— Ok… — ela se ajeita na cama, se senta. — Qual?
O Sub respira fundo, claramente empolgado e nervoso.
— Eu escolhi um nome pra mim.
Bárbara pisca algumas vezes.
— Sério?
Ele continua andando pelo quarto, claramente agitado demais para ficar parado.
— Lembra que o Henrique disse que o Sub dele tem nome?
— Acho que lembro… — Bárbara responde, tentando puxar da memória.
— “Olho nos Olhos”! — diz ele rapidamente. — O nome do Sub dele é “Olho nos Olhos”.
O Sub para por um segundo, como se estivesse organizando os pensamentos.
— Seu pai… quero dizer… nosso pai… — ele hesita por um segundo. — Enfim, você entendeu.
Bárbara inclina a cabeça, esperando ele continuar.
— Ele tinha um CD antigo. Um daqueles CDs gravados, cheio de músicas misturadas.
— Eu lembro.
— Tinha uma música que a gente amava quando era pequena.
— Qual?
— “Cinzas”.
Bárbara fica em silêncio por um momento, lembrando.
— A gente ficava dançando pela sala. Como se fosse… sei lá… um castelo ou alguma coisa assim. Era tipo um samba.. Meio dramático.
Bárbara solta uma pequena risada.
— Eu lembro disso.
— Então… Eu pensei… que podia ser meu nome.
Ela inclina a cabeça.
— Cinzas?
— É.
— Você quer que eu te chame de Cinzas?
O Sub dá de ombros, mas claramente está esperando aprovação.
— Sim.
Bárbara pensa por alguns segundos, observando ele.
— Tá bom.
Ele parece imediatamente mais relaxado.
— Sério?
— Sim. Se é importante pra você.
Bárbara se espreguiça e passa a mão no rosto outra vez.
— Voltando um pouco na conversa… Bárbara.
— O que?
— Sobre seu pai… nosso pai, sua mãe… minha mãe. Como eu devo dizer?
— Fala que eles são seus também.
— Como assim?
— Ué. Você é meu subconsciente. Tecnicamente veio da minha cabeça.
— E daí?
— Então, de certo modo… eles também são seus pais.
O Sub fica em silêncio por um momento, processando a lógica. Depois cruza os braços.
— Estranhamente… faz sentido.
Bárbara ri.
— Pois é.
— Então tá decidido — ele diz, mais calmo agora. — Meu nome é Cinzas.
— Prazer, Cinzas.
Ele sorri.
— Prazer, Bárbara.
Bárbara se joga de volta na cama.
— Agora deixa eu dormir mais cinco minutos.
— Nem pensar!
Bárbara cobre o rosto com o travesseiro.
— Droga... — diz com a voz abafada.
Cinzas vai até o guarda-roupa sem dizer nada. Abre a porta, olha e puxa algumas peças, todas em tons escuros. Calça, top, casaco. Preto sobre preto.
Ela joga a muda na cama com cuidado suficiente para que as roupas não se espalhem. Cinzas então vai até a Bárbara que ainda segurava o travesseiro.
— Vamos, vai se arrumar.
Bárbara ficou sentada na cama por alguns segundos depois que Cinzas sumiu no ar. Soltou um suspiro longo antes de se levantar. O quarto parecia grande demais, nunca tinha espaço quando morava ali, as paredes onde tinha passado a adolescência, pensamentos antigos e atuais entrando em conflito na cabeça.
Ela passou a mão no cabelo e tentou parar de pensar nisso. Foi até o banheiro tomar banho. A água quente caía enquanto ela tentava esvaziar a cabeça, mas os pensamentos voltavam do mesmo jeito. Quando terminou, secou o rosto e levantou os olhos para o espelho.
Ficou parada.
Era o mesmo rosto de sempre… mas parecia estranho. Como se algo tivesse mudado. Bárbara franziu um pouco a testa.
Por um momento, teve a sensação desconfortável de que não sabia quem era. Ela desviou o olhar, terminou de se arrumar.
Abriu a porta que dá para o corredor que segue lado de fora, se conecta com a porta da garagem, que conseguia ver a sua mãe, que já a esperava escorada no carro. Elas entram, saem de casa como se já fosse rotina. E desde que saíram, ficaram alguns minutos em silêncio enquanto seguiam pelas ruas do centro.
Pararam do outro lado da rua, da mercearia onde a mãe tinha marcado, algumas pessoas já estavam reunidas do lado de fora. Bárbara olhou pela janela, observando as luzes e as vozes misturadas na noite.
— Está de noite de novo.