
— Bárbara, você está diferente.
— Diferente como?
— Primeiro, você mudou o cabelo: a cor, o tamanho... Seu rosto mudou um pouco, sua roupa mudou e seu jeitinho de ser também mudou. Quem é você?
— Henrique, faz favor. Eu sou eu, simples assim.
Os três estavam atrás da cabine de sinalização, tentando garantir que ficassem seguros até o trem chegar.
— Henrique, para de perturbar a Bárbara, por favor.
Os dois se olharam.
— Chico?
— O que foi?
— Você também está diferente... Sua voz mudou.
— Ahn?
Bárbara ficou no meio, enquanto os meninos permaneciam sentados, cada um em uma ponta, atrás da cabine de sinalização. Francisco se levantou e começou a cantarolar algumas notas.
— Mi, mi... Fá, fá... Dó, dó... Lá!
Ele repetiu as notas em diferentes tons.
— E não é que está diferente mesmo, rapaz?
— Francisco, você rejuvenesceu?
Quando passou a mão pelo rosto, não sentiu mais suas rugas nem as marcas de expressão. Ainda assim, conseguia enxergar sua barba branca.
— Porra, agora que vi, perdi meu óculos, mas porra, me deixou mais jovem mesmo, caralho! Que foda!
Ele passa a mão pelo corpo tentando procurar o óculos.
— Ata, achei, tirei antes de entrar na floresta.
Bárbara olha para ele.
— Te deixou mais jovem, mas o cabelo branco denuncia sua memória curta.
Bárbara logo em seguida começa a rir da cara dele.
— Posso raspar, posso pintar... Posso fazer tudo, isso não tem nada haver com minha memória.
Bárbara fez uma expressão de deboche enquanto olhava para ele.
Então, eles escutaram o trem se aproximando. Francisco rapidamente se agachou e, logo em seguida, todos ficaram agachados. Bárbara, posicionada na quina da cabine, observou o trem chegando.
Mas, após piscar algumas vezes, percebeu algo estranho.
O trem chegou. À primeira vista, parecia apenas um trem abandonado, velho e esquecido. Mas, em um piscar de olhos, tudo havia mudado.
Não como se tivesse sido transformado naquele momento, mas como se ele sempre tivesse sido daquele jeito.
Ela olhou para os rapazes.
— Gente... O trem não é um trem.
— Como assim? Explica.
Disse Francisco. Quando se virou para trás, querendo verificar se Henrique também havia ouvido aquilo, viu que ele já estava com uma expressão completamente confusa.
— Então... É uma cobra gigante, com uma cabeça de gato gigante.
Francisco voltou a olhar para Bárbara, desacreditado.
— Que porra? O trem é um Sub?
— Pelo visto... Sim.
O corpo da criatura era longo e não possuía aberturas, portas ou janelas. Sua cabeça de gato era um pouco maior que o próprio trem. Seus olhos eram laranjas e emitiam uma espécie de brilho. A criatura era completamente preta. Não possuía pelagem; aquela enorme cabeça de gato era totalmente sem pelos.
Uma porta, semelhante às de um avião — daquelas que, ao se abrirem, também formam uma escada — se abriu. Dela saiu um rapaz de boina ciano, usando um colete amarelo. Vestia roupas comuns: uma blusa preta, calça azul e tênis brancos.
Ele desceu e foi em direção à cabine.
Bárbara sussurrou:
— Sentem-se! Agachem mais, porra! Ele tá vindo!
— Caralho, não tem como abaixar mais não, porra.
— Vê se come menos fermento na próxima vida, seu idoso de merda.
— Toma no cu.
— Vai você.
Henrique se aproximou mais deles.
— Cala a boca, vocês dois, puta que pariu!
Ouviu-se o som da porta se abrindo.
A cabine era feita de tijolos e possuía uma janela. Porém, do lado voltado para o trem — onde também ficava a porta da cabine — havia um ponto cego.
— Bora, bora! Vai, vai!
Assim que Henrique disse isso, todos saíram correndo. Quando chegaram em frente ao que seria o trem, ficaram parados, encarando a criatura e se perguntando o que deveriam fazer.
— O que a gente faz?
— Sei lá. Como a gente vai entrar? Pergunta pro Henrique.
— Como a gente vai entrar, Henrique?
— E eu vou lá saber? Nunca vi essa porra!
Bárbara se aproximou e passou a mão sobre o corpo da criatura até que, por um instante, sua mão atravessou para dentro dela.
Então percebeu que, naquela área, existia uma espécie de dobra, como um leve contorno no corpo da criatura que lembrava uma porta.
Bárbara aproximou a cabeça para olhar.
— Bárbara, sai daí! Tira a cabeça! Quer morrer, menina?
Ela recuou.
— Entra e vê, Henrique.
Ela esperou os dois se aproximarem e os três entraram juntos. Francisco, ao passar, bateu o braço na lateral, pois não era possível atravessar todos de uma só vez.
Por dentro, tudo era escuro. O lugar parecia vazio, mas ainda era possível enxergar o lado de fora, como se houvesse uma espécie de insulfilm protegendo o interior.
A porta da cabine se abriu.
Imediatamente, todos pularam para os cantos daquele vagão e se jogaram no chão para não serem vistos.
Todos ficaram apreensivos e começaram a se olhar.
Henrique e Francisco acabaram pulando para o mesmo lado e ficaram praticamente agarrados um ao outro. Bárbara ficou no outro canto, olhando para os dois e tentando segurar o riso diante da situação. Pareciam um casal apaixonado.
— Agora que eu vi... Você usa brinco, Henrique?
— Uso, uai. Por quê?
— Nada... E esse creme? Cheiro gostoso.
— PARA, CHICO!
Bárbara começou a rir, até o momento em que o trem parou.
Sons de pessoas podiam ser escutados. Bárbara se agachou e tentou olhar para fora. Com isso, viu aquela tal indústria, onde parecia estar acontecendo algum tipo de evento. Uma música tocava alto, havia sons de pessoas conversando, e era possível ver o “maquinista”, se é que assim poderia ser chamado, pulando para fora e entrando na festa.
Bárbara se agachou novamente para ver o que estava acontecendo.
— Pessoal, podem levantar.
Eles se levantaram.
— Volta aqui, amorzinho.
— Sai pra lá, Chico.
Bárbara encarou os dois.
— O que vamos fazer agora?
— Esperar até o maquinista voltar.
Então, eles ficaram parados esperando. Depois, voltaram a se sentar e permaneceram escondidos. Francisco começou a ficar incomodado e a morder os lábios.
— Chico, o que foi?
— Nada. Estou com vontade de ir ao banheiro.
— Puta que pariu, não consegue segurar?
— Não. Não sei como vocês dois não estão com vontade depois de comer pra caralho agora de tarde.
— Eu só não estou com vontade, Chico. Tenta segurar mais um pouco, tenta.
Então, menos de um minuto depois...
— Não dá, não consigo!
Ele se levantou e saiu da cabine, indo em direção à festa. Bárbara e Henrique se agacharam para ver para onde ele estava indo.
— Caralho, bicho burro da porra! Era só dar a volta e mijar escondido. Por que ele foi até lá?
— E eu vou lá saber, Henrique? Vamos atrás dele ou ficamos aqui até ele voltar?
— Vamos ter que ir, né?
Eles se levantaram e saíram do trem.
A indústria onde estava acontecendo a festa era uma daquelas indústrias de soja. Havia três galpões e tanques industriais ao lado. Todas as estruturas já estavam abandonadas, com os metais desgastados e cobertos por aquela característica cor de ferrugem. O evento acontecia em um desses tanques, que havia se rompido.
Existia apenas um galpão e um enorme tubo que ainda estavam relativamente conservados. Eram as estruturas mais próximas da plataforma de trem. O galpão ficava ao lado do tanque central, onde o evento estava acontecendo.
Henrique e Bárbara foram caminhando devagar, logo atrás de Francisco.
— Francisco, onde caralhos tu quer mijar?
— Lá dentro com certeza deve ter um banheiro químico. Tenho quase certeza.
— Maluco, tu já tem idade pra ser meu pai. Vai mijar no mato, porra!
— É que eu queria passar uma água no rosto.
— E você acha que vai ter água num banheiro químico? Tu é idiota ou só se faz?
Francisco ficou emburrado. Bárbara permaneceu atrás dos dois enquanto eles caminhavam lado a lado.
Até que finalmente chegaram ao local da festa.
Não havia ninguém tocando naquele momento, mas, na parede de inox do tanque, estava escrito: “PARALAMAS”.
Havia pessoas de várias idades, embora a maioria fosse jovem. Conversavam, riam, fumavam e bebiam.
Era um lugar até limpo. O tanque possuía muito espaço vazio, um palco improvisado e, ao lado, um corredor forrado com PVC. Eles seguiram em direção a um grupo que parecia ser o dos organizadores ou das pessoas mais “responsáveis”. Francisco foi adiante.
— Oi, boa noite! Saberiam me dizer se tem um banheiro por aqui?
— QUE QUE CÊ DISSE, HEIN, VÉIO?
— Banheiro. Onde fica o banheiro?
— HEIN?
Uma moça de cabelo verde e curto, afastou o rapaz alterado para o lado e segurou Francisco pela mão.
— Olha, vai ter banheiro limpo e tudo mais lá dentro. Eu sou a Ana, estou organizando o evento. Posso saber com quem você veio? Não estou vendo sua pulseirinha.
Francisco, puxa a mão e olha lentamente para trás, encarando os dois com um sorriso sem graça. Bárbara puxa Francisco para o lado.
— Então, moça, desculpa. É que nós chegamos agora. Foi bem complicado chegarmos aqui. Poderia me falar onde conseguimos as pulseiras?
— Ah, sim, entendo. Então, olha: entrem e vão até o final do corredor. Vocês dois viram à esquerda. Você vira à direita para chegar ao banheiro. Aí eu já vou com vocês, ok?
— Sim, tudo bem!
— Você me enviou o comprovante no meu número, né?
— Sim, enviei. Na verdade, estamos sem Wi-Fi. Poderia me rotear lá dentro?
— Não, tudo bem. Podem indo lá.
Bárbara e o restante foram até a porta daquele corredor. Ficaram todos se encarando, surpresos por a moça ter caído tão facilmente no papinho deles. Antes que entrassem, algumas pessoas saíram, possivelmente após terem acabado de usar o banheiro.
O corredor era simples, todo feito de PVC, com lâmpadas muito distantes umas das outras, deixando-o iluminado apenas o suficiente para que fosse possível enxergar o chão. Eles caminharam até chegarem ao final.
— Henrique, vamos todos ao banheiro. Vamos antes que a gente sinta vontade depois.
— Ah... Não vou precisar, Bárbara, pode deixar. Na verdade, vou atrás do maquinista. Não encontrei ele por aqui, então deve ter vindo para dentro, não sei.
Eles balançaram a cabeça, concordando, e então se dividiram.
Bárbara seguiu junto com Francisco até o banheiro. Havia duas pequenas cabines: uma para os homens e outra para as mulheres. Na frente, havia uma pia grande, com duas torneiras e um espelho.
Quando Francisco viu a cabine masculina, correu imediatamente até ela e entrou.
Bárbara foi até o espelho e se olhou. Observou como estava naquele momento. Pegou uma mecha do cabelo e a puxou até o nariz para sentir o cheiro. Reconheceu o cheiro do xampu que costumava usar.
Depois, olhou para suas roupas e estranhou aquilo. Não sabia como, nem quando, havia começado a vestir aquelas roupas. Sentiu falta das suas antigas.
— Cinzas, está aí?
E nada...
Bárbara se sentia completa. Melhor. Mais forte. Ela sentia que aquele cordão agora estava em constante movimento. Era automático, vivo. Não iria parar.
Jogou um pouco de água no rosto e, quando olhou novamente para o reflexo no espelho, viu Cinzas atrás dela, usando sua máscara.
Assustada, virou-se imediatamente.
Quando olhou novamente, quem estava ali era Francisco. Ela se segurou na pia, assustada com o susto.
— Tá tudo bem, Bárbara?
Ela não respondeu nada e entrou na cabine feminina.
Francisco olhou para ela, mas decidiu ignorar. Foi até o espelho, lavou as mãos e o rosto. Quando passou a mão pela barba, sentiu um incômodo. Olhou para os pelos. Tentou forçar algo a sair. Um cristal, talvez.
Mas, em vez disso, um cristal preto surgiu.
Francisco ficou parado, encarando-o. O cristal era afiado o suficiente para ser usado como uma lâmina de barbear. Francisco virou levemente a cabeça e percebeu que cabelos escuros começavam a nascer na raiz de seus fios.
Quando terminou de fazer a barba, o cristal, por alguns instantes, começou a clarear, até ficar completamente vermelho.
Ele esquentou. Esquentou tanto que Francisco não conseguiu mais segurá-lo. Quando o deixou cair, o cristal simplesmente desapareceu no ar, deixando apenas uma pequena fumaça e um forte cheiro de borracha queimada.
Henrique, depois de se separar dos dois, seguiu pelo lado esquerdo. Caminhou por algum tempo até entrar em um galpão industrial.
Lá dentro, havia um rapaz usando um casaco sem mangas. Ele carregava uma máscara de idoso na cabeça, mas não a estava usando; ela permanecia virada para o lado.
O rapaz estava sentado à mesa junto do maquinista.
A maneira como aquele garoto estava sentado atrás da mesa fazia parecer que ele era o dono de todo o lugar.
Quando viu Henrique aparecer, fez um sinal para que o maquinista ficasse em silêncio.
— Um momento, Felipe...
Nisso, ele tirou a máscara e a colocou sobre a mesa.
— Como posso ajudar o senhor?
— Ah, eu e meus amigos estamos esperando a Ana. Ela disse para eu vir até aqui. Tem problema eu esperar por ela?
— Não, sem problemas. Pode esperar.
O rapaz se levantou e fez um sinal para Felipe, o maquinista, se levantar também.
Então, os dois se viraram e foram mais ao fundo do galpão. Ficaram de costas para Henrique.
Ele conseguia vê-los, mas não conseguia escutar a discussão entre os dois.
Pouco depois, Ana entrou.
Ela abriu um sorriso ao cumprimentar Henrique e seguiu até os rapazes que discutiam ao fundo. Pegou um celular com o rapaz que anteriormente usava a máscara.
Ana caminhou de volta.
Antes de chegar até Henrique, porém, recebeu uma ligação.
Henrique não conseguiu ver quem estava ligando.
— Opa, consegue esperar um pouco? Essa ligação é para ele.
— Tá.
Ana abriu um sorriso novamente e voltou até os dois.
O rapaz olhou para Ana com uma expressão irritada, aparentemente incomodado por estar sendo interrompido novamente.
Ele atendeu a ligação e ficou parado.
Depois, olhou para Ana e perguntou algo. Ela respondeu. Então, ele olhou para Felipe e estendeu o braço, indicando que ele deveria se afastar. Felipe começou a caminhar em direção a uma escadaria.
O rapaz voltou a olhar para Ana e fez outra pergunta. Ele disse algo, e Ana logo seguiu atrás de Felipe, subindo as escadas.
Então, o rapaz se virou e encarou Henrique.
Ele voltou até a mesa, que era iluminada apenas por uma luminária. Pegou a máscara e a colocou no rosto, junto vestiu o capuz preto de sua blusa sem mangas.
Então, seu Sub apareceu por trás dele.
A criatura possuía a aparência de um homem idoso, mas tinha um corpo forte e elegante. Vestia-se como se tivesse acabado de sair de um desfile, usando até mesmo uma cartola preta.
— Vamos conversar, Henrique?