Just to be Friends - Megurine Luka
Quando estávamos prestes a sair, o homem do posto de saúde se aproximou da ambulância, pôs a mão pela janela e entregou um pacote pra mim e outro para Ana.
- Isso é pelo trabalho de vocês. Como vereador deste distrito eu tenho que recompensar por tudo que vocês dois fizeram.
Ana respondeu - O combinado era só a carona.
- Então aceite esse bônus, um agradecimento não oficial por um trabalho bem feito.
Ana sorriu - Muito obrigada.
- Também agradeço ao Senhor - Falei com um sorriso tímido.
- Tenham uma boa viagem.
Ele fechou a porta traseira e a ambulância começou a se mover, em poucos instantes estávamos saindo daquela cidadezinha.
Abri o meu pacote e encontrei uma quantidade razoável de dinheiro. O pacote de Ana era igual.
- Fizemos um bom trabalho, e ainda fomos bem pagos. Ana sorriu - Ainda está doendo muito.
- Só está incomodando um pouco. Estamos indo para Brumado?
- Sim.
- Então só falta uma cidade. Basta pegar um ônibus para você chegar no seu casamento. Já ligou pra casa?
- Liguei lá do posto de saúde, mas não contei do assalto, não queria preocupar minha família
- Eles levaram o seu celular?
- Não, só que aqui não tem sinal. E você tá com seu celular ai,? Vai ligar pra seu irmão e pra Clara?
Ponho a mão no bolso, vejo que o celular ainda está lá.
- Vou ligar depois, eles estão acostumados a ficar alguns dias sem receber ligações minhas.
Naquele momento uma série de pensamentos vieram a mim. Antes eu estava pensando em como tirar a gente daquela cidade, se Ana ia ficar bem, se ela ia se atrasar, foi só naquela hora eu realmente me dei conta do roubo da moto, senti uma dor que não entendi direito. Eu sabia que era só um objeto, mas…
Pela luz da janela percebi que o dia já estava acabando. Olhei para Ana e sorri. Ela sorriu de volta, fui relaxando. Minha cabeça pendeu um pouco, os olhos pesaram.
- Ricardo… Acorda. Ricardo… Acho que estamos chegando.
Voltei a mim, percebi que estava apoiado no ombro dela.
- Eu dormi durante a viagem?
Ana confirmou com a cabeça. Já era noite. O motorista nos deixou em uma pousada.
Depois de me limpar, apesar de ter de usar as mesmas roupas, saí um pouco do quarto. Ainda era noite, encontrei Ana na entrada da pousada.
- Não consegue dormir? Nervosismo pelo seu grande dia?
- Não sei, só não estou com sono.
- Não se preocupe, só precisa pegar um ônibus e vai chegar lá, Vai chegar até mais rápido do que eu esperava. Com todo o atraso, achei que você chegaria no quinto dia. Agora deve chegar no quarto.
- Não é bem isso. Ana falou sorrindo.
- Vamos relaxar.
- Pracinha de novo?
Havia algo diferente no olhar.
- Não deve ter isso aqui. Vamos para o bar da pousada.
Ela inclinou levemente a cabeça e me seguiu.
- Você começou a beber? Antes você não bebia e reclamava quando eu fazia.
- Hoje eu bebo pouco. Não gosto de ficar bêbado. E eu reclamava porque ficava preocupado quando você bebia demais.
Puxei uma cadeira para ela sentar.
- Sempre tentando cuidar dos outros…
Sorri - É o meu hábito.
Minutos depois estávamos comendo e conversando, Ela reclama do susto, do assalto, estava revoltada com a minha calma. Eu prometi que iria prestar queixa. Pedi algumas cervejas. Talvez isso a acalmasse. Ouvir ela falar da moto, me causava uma irritação, não com ela, mas com o cara, eu sentia um aperto no peito sempre que pensava nisso.
- Você sempre foi assim, calmo demais, resolvendo tudo até acumular.
- Eu sei, isso cansa as pessoas à minha volta.
- Você não entende…
A conversa estava sem rumo, acho que ela estava apenas desabafando.
- Já bebemos muito.
Ela pediu mais cerveja.
- Você sempre faz assim, vê e tenta ajudar, não fala tudo que quer falar, não entende tudo que falam.
- É difícil pra mim
Ficamos em silêncio por um tempo, Ana bebeu mais um copo de cerveja, eu tomei mais um gole, olhei para ela
- Você já imaginou alguém capaz de tocar um violão tão bem que ele consiga conversar com os sons das cordas?
Ana inclinou a cabeça, aquele sinal de dúvida que eu conhecia tão bem.
- Todo mundo vai chamar ele de gênio,vão falar olha ele faz o violão falar
Tomei mais um gole de cerveja
- ninguém jamais se pergunta por que ele precisou aprender a falar através do instrumento.
- E por quê?
- E se ele não tiver… Deixa lá não faz mais diferença. Eu sorri o melhor que pude.
Ana estava com o rosto vermelho. A bebida já estava fazendo efeito.
- Sempre assim, vai acumular, depois tenta resolver, foi assim comigo, com Marcos.
Ela balançou a mão que segurava o copo.
- Eu deveria ter ficado com você naquele dia.
- Já estávamos separados, não é legal ficar com um perdedor no chão.
- Não estou falando sobre ficar juntos, estou falando sobre não ter ido com o Marcos depois de vocês dois terem brigado.
Ela baixou a cabeça.
- Você tinha vindo falar comigo, estava afobado, mas não foi grosseiro. O Marcos, é que começou a te xingar. Você só se virou e estava indo embora, aí ele disse aquelas coisas nojentas sobre mim pra te provocar.
- Bem, eu perdi a cabeça, eu deveria ter ignorado, continuado meu caminho. Mas eu voltei, o resultado era óbvio.
- Quando eu te vi sendo atacado hoje, eu só me movi.
Ela passou os dedos na borda do copo.
- Eu deveria ter feito o mesmo antes.
- Mas fez hoje.
Dei o meu primeiro sorriso verdadeiro da noite
- Sim, eu fiz…
Ela esvaziou o copo e ficou com um meio sorriso no rosto.
Ana continuou bebendo e conversando, reclamou um pouco mais de mim, falou da mãe, do noivo, eu enrolava bebendo o menos possível.
Aos poucos ela foi ficando mais incoerente, e eu já estava tonto o suficiente para parar.
Em algum momento eu achei ter visto um dos homens do grupo que levou a moto entrar no bar, mas eu estava tonto demais para confiar nos meus sentidos.
Os copos foram se acumulando.
Ana estava claramente bêbada.
- Está na hora de ir pro seu quarto mocinha, você já bebeu muito.
- Sempre estraga o prazer, ela falou com a voz enrolada.
Ri do jeito dela falar.
- Você precisa dormir para aguentar a viagem de ônibus de amanhã.
- Ok. Papai.
Depois de pagar a conta, comecei a levar Ana até o quarto. Ela estava mole e mais pegajosa do que o normal.
- Eu gosto do seu cabelo arrumado.
Ela passava a mão no meu cabelo enquanto eu tentava mantê-la de pé.
- Você esta com um perfume esquisito hoje.
- Ana, você não está falando coisa com coisa.
- Você que sempre trabalha muito.
- É a minha vida.
Finalmente consegui chegar até a porta do quarto dela.
Foi difícil abrir a porta enquanto mantinha aquela versão pegajosa da Ana e pé, quando finalmente consegui colocá-la na cama, tentei me levantar mas fui puxado de volta.
- Não vai me deixar sozinha.
- O que? Tentei me levantar.
Com uma força inesperada ela tentou se erguer e me puxar para um beijo.
Por um instante eu senti algo no meu peito.
Quase cedi.
Uma lembrança de uma voz doce em casa me fez parar.
Segurei o ombro de Ana.
- Ana isso é um…
- Lucas, não me deixa só.
Um turbilhão de pensamentos passavam na minha cabeça.
- Vai ficar tudo bem, vai tudo dar certo, você não vai ficar sozinha.
Com gentileza eu fiz ela deitar, ela começou a cochilar e dormir.
Saí daquele quarto com tantos sentimentos e pensamentos que mal conseguia ouvir à minha volta.
Culpa, tristeza, alívio, talvez raiva.
Meus pés me levaram de volta para o bar.
Acho que eu queria beber e calar um pouco a mente e o coração.
Quando sentei no balcão, respirei fundo, pedi um suco.
O atendente me olhou com uma cara de quem dizia. Sua cara não combina com o que você pediu.
Passei alguns minutos tomando suco de laranja, e ouvindo o ruído do bar.
A tensão deve ter diminuído o efeito da bebida. Porque nessa hora eu vi o “admirador” numa mesa de canto conversando e bebendo.
Não sei se foi a tensão, ou a raiva, ou estresse, ou qualquer outra coisa, mas não pensei em chamar a polícia, só fiquei ali ouvindo a conversa deles até que eles foram embora.
Antes de Ana acordar eu comprei algumas roupas pra mim e pra ela.
Liguei para casa e tentei parecer o mais normal que pude, mas eu sei que Clara percebeu algo e pediu que eu tomasse cuidado, pediu pra voltar pra casa o mais rápido possível. Fiz uma piada de que eu ia ficar mais tempo pra consertar a porta da sala, ela riu. Nós nos despedimos.
Quando voltei à pousada Ana estava com uma cara de ressaca.
- Eu dei muito trabalho ontem?
- Não. Você só foi uma bêbada carente e resmungona. Chamou seu noivo boa parte da noite.
Falei em tom de brincadeira.
- Seu ônibus sai meio-dia, chega no destino antes da meia-noite. De moto seria mais rápido, mas os ônibus param muito no caminho.
Notei ela suspirar de alívio.
- Falei pra minha família que sua moto quebrou, pra eles não ficarem muito preocupados, a aventura real eu conto depois.
- Boa escolha.
- Sim.
Agora vamos descansar de verdade, eu devo estar com uma aparência horrível e você está com cara de ressaca.