Coisas Que Eu Sei - Danni Carlos
Estávamos na rodoviária. Nossa aparência estava bem melhor do que eu esperava. Ana conversava bastante, mas eu estava distraído. Respondia quase tudo no automático.
- Você está mais cansado do que aparenta.
- Acho que você está certa.
- Minha mãe vai ficar brava com você no início, mas depois ela vai te agradecer, e Lucas pode ser que ele seja meio ciumento, mas releve, depois vocês vão ficar amigos.
- Sim faz tempo que vi dona Cida, e seu noivo deve ser um cara bem legal.
- Verdade. A viagem vai ser longa, depois daquela estrada de lama, acho que qualquer ônibus do país vai parecer confortável.
Comemos um lanche simples, o horário do ônibus estava se aproximando, caminhei ao lado de Ana até a catraca do terminal.
Ana atravessou, eu não. Ela não notou de imediato.
- Até mais…
- Ahn? O que? Por que parou?
- Eu tenho coisas pra resolver aqui. Você tem o seu casamento um dia, eu combino de te visitar depois.
- Como assim resolver? Você tem trabalho aqui? Dá pra você ir comigo e voltar depois da festa.
- Não é trabalho, eu só tenho que ir buscar algo.
- O que tem aqui? Você não pode pegar depois?
Ela ficou em silêncio por um tempo.
- Você já prestou queixa do roubo? Você fez isso de manhã mais cedo não fez?
- Eu vou resolver tudo isso, então não se preocupe.
Ela permaneceu em silêncio por mais um tempo.
Fiz menção de me despedir.
- Tinha algo no bar, não tinha? Você viu alguém?
Olhei pra ela, não disse uma única palavra.
- Você vai atrás da moto?
Pensei em negar, mas não consegui fazer.
- Você vai sozinho?
Continuei sem responder.
- O que você tá pensando? Fala alguma coisa. Ela gesticulou nervosa.
- Eu só vou lá resolver.
- Como? Você nem deve saber onde eles estão? Pense.
- Eu descobri ontem a noite e confirmei hoje de manhã.
Ela se aproximou mais da catraca, o fiscal fez ela se mover para a grade.
- Você tem ideia do que vai acontecer?
- Tem ideia do que tem lá?
- Sim, eu tenho.
- E vai mesmo assim?
- Sim, eu vou.
- Por que? É só uma moto. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas, mas ela às segurava de alguma forma.
- Eu não tenho certeza, só não posso deixar ela lá.
- Vão bater em você. Talvez pior.
- Eu…
- Você nunca se abre, sempre resolve, você não entende… Não adianta ser o gênio que imita voz num violão, se você não fala o que sente.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
- Sim, eu não tenho voz.
Passei os dedos pela garganta como quem dedilha um violão.
- Você…
- Então eu vou cuidar das coisas.
Sorri apenas com os lábios.
- Ricardo…
A chamada do embarque soou nos alto-falantes.
- Você precisa ir. Eu vou dar um jeito.
Ela apertou os dedos na grade.
Eu tentei melhorar meu sorriso.
Ela se afastou um pouco.
Eu me virei e caminhei para resolver o que ainda faltava.
Uma hora depois eu estava no desmanche daquele grupo. De fora dava pra ver o grupo sentado conversando em volta de uma mesa.
Percebi que não tinha um plano, a moto estava num canto, eles nem tentaram esconder, suja, quase sem importância. Aquilo me irritou mais do que deveria.
Eu apenas entrei.
O grupo me notou.
Vieram até mim.
- Eu vim por ela
Apontei para a moto.
O “admirador” se destacou entre eles. Veio até mim.
- É você? Você veio sozinho por aquilo?
- Ela é minha…
Ele me interrompeu
- Você não fez nada antes, vai fazer o que agora?
Se aproximou mais, tentando impor seu tamanho maior.
- Eu não tive uma chance antes, agora…
- Agora o que? Outra surra? Aquela mulher vai aparecer de novo para te defender?
Minha mente inundou de pensamentos, não sabia que frase escolher…
Ele se aproximou quase me tocando, me empurrando.
- Cadê ela? Ela era gostosa, eu vou fazer ela mais feliz.
Me movi para frente. O segundo empurrão não funcionou.
Continuei sem encontrar uma resposta.
- Tá querendo parecer maior? Ele se moveu na minha direção com mais força.
- Quatro estrofes.
O “Admirador” parou, estreitou os olhos como quem não entende o que eu falei.
- Uma aposta.
- Você…
As frases só saíram da minha boca
- A gente luta, eu falo quatro estrofes, se eu vencer, eu levo ela.
- Você é idiota, a moto já é minha, você vai apanhar até eu cansar.
Ele começou a se mover na minha direção, uma risada grave ecoou de uma janela suja, Ele olhou pra janela, depois pra mim.
Sorriu e falou
- Uma aposta. Você vai apanhar de qualquer forma, então vamos lá.
Tudo aconteceu muito rápido.
O grupo estava à nossa volta,
Torciam por ele.
E na minha mente só se passava que eu não tinha uma capa para entregar.
Olhei para o homem à minha frente, cerrei os punhos.
- Você vai acabar aqui seu filho da…
- Eis que preparo minhas ações e ataco!
És grande, grosseiro e tolo!
Ameaças o meu Malogro!
Mas eu vou voltar! E na quarta vez no chão tu é que estarás!
Um soco no estômago, um empurrão, me faltou o ar, uma mão atacou meu supercílio, eu voltei a sangrar.
- Cala a boca, você está aqui pra apanhar.
-Melhor seria eu não ter vindo à luta!
Atacar, defender!
De fato, a mim não parece se encaixar!
Mas eu vou voltar! E na quarta vez no chão tu é que estarás!
Outro golpe passou a defesa, dor, eu me afastei, o calor as vozes, cambaleei
- Tá dançando bailarina?
-Dançar não cabe a mim!
Eu…
Um soco direto atravessou, o mundo rodou, o céu ficou diante dos meus olhos.
Então aqui estamos, chão quente, esse gosto de sangue na boca. Mais uma vez tudo isso.
É sempre assim, o cara mais racional do mundo no fim deixa as emoções controlar, acumulo tudo e deixo o orgulho tomar conta.
- Fica no chão seu filho da puta.
Essa fala de novo, os gritos à volta, e essa lembrança me fazendo ficar no chão.
Eu ouvi, na minha cabeça, uma voz doce, algo como preocupação, carinho, talvez um choro, a piada de voltar pra casa e consertar algo.
Não sei mas a gravidade não parecia tão pesada.
Me ergui.
-Só que eu sei que com persistência fui eu abençoado!
Pois eu vou voltar! Afinal é a terceira vez, e no chão vós ainda não estás.
Ele se virou pra mim com raiva. Veio rápido, aquele soco parecia mais forte.
Eu tropecei, A mão dele por mim, só o vento me tocou.
- Perdão, pois não serei o seu bufão!
Consegui firmar o pé. Do desequilíbrio dele, meu primeiro soco completou.
- O que me cabe, eu vim buscar!
Mais um soco no estômago eu consegui aplicar.
-E ao contrário do que a mim foi prometido!
Senti o peso da minha mão no queixo dele, o vi tombar
- Eu vou voltar! Afinal é quarta vez agora no chão tu é que estas!.
Eu havia vencido, era diferente de um filme americano, eu não havia conquistado a plateia, nem havia uma mocinha apaixonada pra me abraçar e beijar no final. Mas eu havia vencido.
O silêncio da plateia veio a mim.
Percebi onde estava.
Que a aposta em si não tinha valor algum.
Então…
Palmas secas, um assobio discreto e aquele homem saiu sorrindo do meio do grupo. Ele falou.
- Eu vejo Cyrano, mas onde está Roxane?
- E onde mais estaria? Indo atrás de Cristiano!
Ele riu. Tocou em meu ombro.
- Então pegue o que veio buscar, antes que…
Fui a minha moto, a chave estava na ignição
Algo me chamou atenção, um adesivo havia sido colado de um jeito errado no tanque.
Alguém tinha tentado pôr uma palavra no tanque.
Restara apenas "Debeb"...
O primeiro “b” estava todo cortado, parecia um “n”.
Alisei o adesivo no tanque. Sorri.
Deneb
- Vamos embora, companheira.
O Motor ligou.
O som não estava tão bonito como de costume.
Um pouco mais metálico.
Ainda sim determinado.
Saímos daquele lugar, ainda era dia.