III.
Anot.: Até aqui, confere com Ver./Tom. Excesso de drama. Ver: decisão correta.
Eu estava acompanhado por duas belas moças para realizar a investigação desse ser profano que salivou sobre minha esposa como se fosse dele. Bianca é uma bela mulher, apesar de não se cuidar, faz sentido deliciar-se sobre sua aparência. A partir do momento que a machuca, se torna um problema.
Começamos nossa investigação indo até o boteco em que eu e Bianca tomamos cerveja na noite anterior e onde as coisas estranhas se iniciaram. Observamos o local, as fachadas fechadas, a sujeira do bar boêmio de uma grande capital abandonada pelos seus responsáveis. Moribundos, caídos nas calçadas — alguns que ali moravam, outros que ali apenas estavam por conta do álcool ter tirado sua vontade, intenção ou capacidade de ir para casa.
O pó, o lixo, o fedor de mijo, todo o ambiente grotesco era usual da Cidade Baixa e nós três nos sentíamos “em casa”. Os resquícios de uma festa que terminou e que aguarda para recomeçar. Um barulho atrapalha a quietude da ressaca, o ranger das portas do boteco se abrindo e um homem de mão enfaixada vindo diretamente nos xingar.
Totalmente desconexo da realidade, nos cobrou da cerveja que não havíamos pago e que saímos andando sem nem responder. Verônica colocou panos quentes na situação ao abrir a carteira. “A senhora nem bebeu, mas está pagando para esse vagabundo? Devia escolher melhor os amigos”. Disse o homem totalmente mão de vaca e ganancioso. Preso aos bens materiais.
Verônica perguntou com mais detalhes o que aconteceu e ele contou que tentou nos chamar, mas o ignoramos e, ao tocar em mim, sua mão começou a queimar. Disse que só não chamava a polícia para não incomodar o resto dos clientes, mas que jamais deveríamos retornar ali ou teríamos problemas. Verônica se desculpou por nós e vi como seu sorriso era jovem, vívido e voluptuoso.
Andamos mais uns passos seguindo o trajeto percorrido na noite anterior. Algumas quadras após, encontramos algumas câmeras de rua e Bianca sugeriu pedirmos as imagens das gravações. Muito ingênua. Verônica foi sagaz e pensou como eu, fez o que eu faria. Ela pegou um celular e tentou hackear os aparelhos. No entanto, aparentemente as lentes só pegaram a escuridão noturna e bêbados caminhando… mas… espera, ali somos nós. Eu e a Bianca estávamos sozinhos naquele momento. Não tinha ninguém na volta.
As imagens começaram a falhar conforme alguns pontos luminosos verdes embaçados apareciam e sumiam. Um chiado. Agora, os ruídos alcançavam notas estranhas. Sons que nunca ouvi em meus estudos de música, grunhidos orgânicos que Bianca nunca ouviu em suas aulas do curso de biologia. Riscos apareceram, tomam formas que não consigo descrever e sumiram.
De novo, pessoas bêbadas, pessoas sóbrias, pessoas se beijando, pessoas tomando fora. Nós já não estávamos na imagem. Notei nesse momento Bianca com os dedos no ouvido e olhos fechados recitando palavras estranhas no mesmo ritmo que alguém conta até dez para se acalmar em uma crise de ansiedade. Quando Verônica perguntou, ela só disse que esse método ajudou na autorregulação emocional desde a noite anterior, mas não fazia na minha frente porque não queria me preocupar.
Bianca gosta de falar essas coisas para eu parecer um namorado ruim. Não entendo muito bem. Continuamos a caminhada, Verônica perguntou à Bianca o que eu quis dizer com histórico na família lá na república e ela contou a história de sua avó. Uma versão completamente diferente da que me contara e que eu passava adiante.
Agora, ela diz que sua avó foi internada por dizer que viu árvores andando, omitindo a parte de bicho-pau. Ainda alega que seu avô fez o que fez apenas para forçar um divórcio e se casar novamente. Sempre o homem como ruim.
Aparentemente, Bianca ainda descobriu — e nunca tinha me contado — que o que sua avó viu foi, na verdade, uma “paxiúba”, espécie de árvore que realmente parece andar enquanto cresce novas raízes. Não é uma planta nativa do Rio Grande do Sul, mas foi trazida da Amazônia por um colecionador excêntrico.
Sua pesquisa da faculdade é tentar entender por que aquela paxiúba estava mais “acelerada” do que o normal, por ter se mexido mais de um metro em um mês. Ora, uma história completamente razoável. Qualquer um que escutasse Bianca após ouvir os relatos que faço sobre ela me fariam parecer um mentiroso, difamador. Não é à toa que sua avó foi internada por ser delirante.
Meus pensamentos angustiantes e justamente inquietantes perante essa tentativa de me fazer parecer um péssimo namorado foram interrompidos por gritos. Um mendigo, ao nos avistar, murmurou palavras inexplicáveis. Desta vez, provavelmente por consequência da sua natureza de mendigo. Ele se levantou apontando o dedo para nós e correu para a direção oposta como o diabo corre da cruz.
Descobrimos apenas a normalidade nas próximas ruas. A normalidade desagradável, repugnante, nojenta, suja, fétida e pútrida de Porto Alegre. No entanto, a normalidade. Pessoas passam de um lado para o outro — rindo, esbravejando, sorrindo, chorando — mas ignorantes à realidade viscosa que seus corpos atravessam sem perceber.
Noto, pela primeira vez, que Verônica está um tanto perturbada e respirando pesado. Ah, acho que ela está assim há mais tempo. Acredito que desde que viu aquelas imagens? É, foram estranhas. A perturbação é injustificável, no entanto. Talvez suas mentes sejam fracas — não… minha mente criativa, profunda e etérea que é forte e foi imune ao feito. As duas moças não têm culpa de serem… pessoas.
Talvez minha tranquilidade com esses seres que parecem querer romper a realidade para chegar à minha esposa exista por conta desta coisa dentro de meu corpo. Algo cuja natureza, intenções, e personalidade desconheço, mas escolheu meu corpo para se alojar. Ainda não a entendo completamente, porém, desde que reconheci sua existência, algo mudou. Essas duas pessoas que me acompanham jamais vão saber o que é carregar um ser em si.
Chegamos finalmente na calçada onde o nosso problema da noite anterior atingiu o ápice. O ar está normal, várias pessoas passeando ao redor, e não há nenhuma voz esquisita além de artistas de rua sem talento. Eu tenho um mercado aberto para mim, pelo jeito.
Deveríamos retornar? Deveríamos ir até a Usina do Gasômetro? Compartilhei minhas ideias e conclusões e ouvi as considerações das meninas a respeito do próximo passo, mas o raciocínio foi interrompido. Verônica, com seu olhar atento e esperto — afinal, por isso que anda com meu amigo Tomás — notou algo estranho no chão e nos apontou.
Uma fileira de formigas que contornava uma gosma esverdeada em um tom indescritível de podre. Verônica pegou sua mochila grande, volumosa e cheia, abriu e retirou um pote de vidro, luvas e uma haste de metal com um material branco na ponta. Ao passar a haste na gosma e a coletá-la, esta não permaneceu. A gosma verde, como se lembrando que não pertence a esta realidade, se desfez no ar em um efeito de fade out para cada gota que Verônica tentou pegar até não restar nada. Os registros de imagens foram inúteis, pois apareceu apenas o chão nas fotos.