V.
Anot.: Ul.
O sol estava ardendo no topo do céu fazendo meu corpo derreter e a agonia que me queimava vinha além do medo da insolação. A perda de água fez algo sob minha pele e carne se mexer, tremer, dar súbitos movimentos de agitação — invisíveis, mas tateáveis. Não íamos conseguir mais informações parados ali, então decidimos ir a um restaurante almoçar.
Continuamos a caminhar pela orla em busca de alguma sombra, ainda que o prefeito tenha retirado quase todas as árvores do local. Vimos quiosques oferecendo diferentes pratos superfaturados em que nenhum de nós três tinha interesse em desperdiçar dinheiro, logo passamos reto. Seguimos nesse caminho em direção ao Centro Histórico. Na entrada do bairro, já tem restaurantes e botecos para nos abrigar e satisfazer a fome.
Conforme nos aproximávamos do Centro, também nos aproximávamos da praça que ficava no caminho, a Brigadeiro Sampaio. Estava rolando uma Feira de Cultura Peruana e o cheiro dos alimentos nos atraiu. Escolhemos nosso destino.
Pedimos porções de causa limeña (“escondidinho” peruano), anticucho (espetinho de coração de boi) e lomo saltado (prato sinoperuano de carne preparada como yakisoba e servida com batata frita). Bianca tentou me lembrar de que eu havia “parado de comer carne” e eu a lembrei que veganismo já é algo ultrapassado. Hoje a verdadeira conexão com a natureza é através do consumo de carnes purificadas.
Eu me conecto todos os dias com o plasma universal para que o sofrimento dos animais que eu venha a consumir seja substituído pelo regozijo de ser sacramentado e levado para reencarnar em um planeta melhor. Não é a mesma selvageria e brutalidade com que Verônica morde aquele coração que segura com as mãos. Pensei que fosse uma bela mulher, mas é muito animalesca.
Sua saliva cai gota a gota sobre a carne ainda não mordiscada e antecipa a corrosão que ocorrerá na digestão do seu estômago. Ela para de comer quando um som de notificação toca no celular. Limpa as mãos e escreve um SMS. Deve ser para Tomás, que ainda rejeita os smartphones. Um dia eu e Bianca transcenderemos como ele nessa desnecessidade da tecnologia. É um ponto que devo dizer onde ele é superior.
A única com dificuldades em se alimentar é Bianca. Ela mexe com a comida devagar. As feridas do ácido ainda causam dores no antebraço e ela não corta, não garfa, não pega o alimento direito. Ao mesmo tempo, ela não tira o olhar de uma mesa que está no outro canto onde um rapaz corta a carne do prato de sua namorada, que coincidentemente está com os braços enfaixados. Eu fico feliz.
Bianca reconhece a maturidade da nossa relação onde eu não preciso agir como seu pai. Ela tem dificuldades, mas é uma mulher independente dentro de um limite. Não precisa de macho para isso. Finalmente, Verônica quebrou o silêncio.
A ruiva pergunta se em algum momento sentimos aquelas luzes, vozes e fenômenos nos conduzindo em direção à água. Afinal, fomos até a orla e paramos por lá. Eu e Bianca explicamos, mais uma vez, só que mais pausada e didaticamente, que não.
Reforçamos que, na nossa caminhada, fomos até a Orla e primeiro dobramos à direita antes do fenômeno começar. Bianca explica que a cada passo que deram sentia aquela força sendo maior com uma pressão vindo justamente da direção para a qual estávamos indo. Vê explica que Tomás estava investigando os casos de mulheres atacadas com ácido por um estranho de túnica e uma criatura de pele cinza.
Ela complementa que, junto com Tomás, chegou à conclusão de que esses ataques estavam seguindo um percurso, similar ao nosso, também em direção à orla e, depois, dobrando à direita. Me irrita o quão baixo ela fala sobre esse assunto.
Eu e Bianca elevamos a voz para ver se conseguimos todos falar mais alto. Minha namorada revela que nossa caminhada recente também havia despertado sensações nela. Sentia a mesma pressão que sentira no dia anterior, apenas mais fraca. E sentia que se aproximava da fonte conforme percorríamos a orla e ao atravessarmos a rua para a praça, sentiu enfraquecer. Eu pedi para que ela apontasse de onde vinha essa energia agora e ela apontou para a Usina do Gasômetro.
Verônica prontamente começou a mandar mensagens e murmurou Srta. Rosa. Lembrei que ela mencionou que Tomás estava investigando ataques às prostitutas do puteiro em que trabalha. Será que Srta. Rosa é uma delas? Enfim, devem estar atualizando informações.
Ela disse algo sobre deixarmos o Tomás dar continuidade a partir daqui e eu fortemente me opus. Bianca concordou e disse que deveríamos levar às autoridades, mas logo eu e Verônica também nos opusemos. Se fosse por isso, também deixaria para o Tomás. O guarda-costas de um puteiro me parece mais interessado na segurança das putas do que a polícia. Eu não queria deixar tudo nas mãos do meu amigo nem deixar quem atacou minha amada sem provar da minha própria fúria.
Verônica diz que não sabemos o que estamos enfrentando e eu disse que era bobagem. Sinto que dentro de mim há algo não natural e posso acabar com qualquer perigo. A preocupação dela é legítima, normal fêmeas quererem a proteção. Eu propus um brainstorm: eu e Bianca primeiro revimos toda a questão sobrenatural que passamos para não deixar nenhum detalhe de fora. Segundo, começamos a especular a origem de tudo isso.
O terror de Bianca e minha empolgação atraiu o olhar de pessoas à volta. Ela às vezes me apoia na arte e gostei como ela fez atuação de método usando o próprio trauma para me ajudar a atrair pessoas para a minha narrativa. É assim que pretendo conduzir meu teatro de rua. Apenas Verônica se mostrou ansiosa com tantos olhares. Medo de palco?
Uma moça peruana se aproximou. Se apresentou como Rubi e como a pessoa que estava coordenando a feira. Achou que estávamos fazendo brainstorm para alguma obra narrativa e disse que o que falamos não era muito estranho para ela. Havia ouvido e lido esse tipo de história na infância e na adolescência lá no Peru.
Bianca, com toda sua xenofobia de guria branca de apartamento, disse que fazia sentido, parecia coisa de povo tradicional e antigo peruano. Rubi se mostrou bem desconfortável com os comentários e ignorou, ainda bem. Imagina passar mais vergonha por causa dessa minha namorada. Enfim, a indígena contou que havia lido Lovecraft, um autor dos Estados Unidos, e que essa história que estávamos elaborando parecia ter se inspirado no homem.
Puxei no celular qual seria a biblioteca com melhor acervo de Lovecraft em Porto Alegre e a resposta foi a Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães. Verônica sugeriu vermos apenas PDFs, mas eu duvido que dados sejam o mesmo que papel na hora de uma pesquisa. Decidimos ir para a biblioteca pesquisar. Por mais que fosse um autor de ficção, algo poderia inspirar uma resposta. Verônica pareceu aliviada quando mencionei ser literatura. Acho que, talvez, no fundo, seja uma mulher aculturada.