VIII.
Anot.: Tom.
Eu estava disposto a sair correndo, mas a Srta. Rosa mandou um carro. Achou que, na minha raiva, eu poderia causar alguns acidentes. Meus poderes estão ressoando cada vez mais com os meus sentimentos, apesar de ainda não me obedecerem. Refletindo agora, é um saco que, em meus treinos, pareça que Verônica, Srta. Rosa e qualquer um saiba mais de mim do que eu mesmo.
Apesar da distração de agora, naquele momento eu estava com pensamento fixo. Raiva. Ódio. Espancar. Isso estava pessoal demais e eu ainda não entendia o motivo. Claro, tenho algum dever e simpatia pelas pessoas do Roseiral para além do trabalho — mas parecia que o ataque todo tivesse sido diretamente na minha alma.
Conforme o pneu rodava e esquentava o asfalto, imagens rodavam na minha cabeça e esquentavam meus punhos. Precisei de muito esforço para que meus poderes não explodissem o veículo. Por sorte, o motorista era pessoal de Srta. Rosa.
Fiquei surpreso quando descobri que a proposta de combate estivesse vindo do outro lado. A Srta. Rosa falou sobre contas a acertar, acabar com os vestígios da tragédia e ser o ápice da história toda, e que eu era um filho da puta — palavras do tal José Maria. Eu também sentia isso em meu âmago.
A angústia parecia estar tomando forma. As fotos do tal ET de Passo fundo me deixavam ainda mais enfurecido. Um homem esquisito em uma roupa cinza colada com um revólver infantil cheio de ácido. Como aquele cara se tornou o proto-humano representante de um cultista paranormal e ousou me desafiar?
Me subestimarem dessa forma era uma segunda camada. Não bastasse o ódio que eu tinha de José Maria pelo que eu não sei, ele dobrou a aposta ao me confrontar com um infeliz esquizofrênico que acha que é um et. Um homenzinho esquisito que eu derrotaria sem qualquer habilidade extra.
O carro chegou ao destino: o estacionamento da Usina do Gasômetro. Eu abri a porta e comecei a me sentir ainda mais desconfortável e irritado. A agonia e a ira me faziam tremer e espumar, ao mesmo tempo que eu sentia vontade de rir. Um palhaço me esperava como testa de ferro de uma das pessoas que mais me despertaram ódio até hoje.
Estava tudo apagado e a porta da Usina do Gasômetro entreaberta. Caminhei, entrei e dei alguns passos. Vi algumas pequenas luzes vermelhas aqui e ali. Certo. Pessoal ou não, ainda é um combate de entretenimento para esses porcos covardes. Em algum lugar, tem uma banda tocando ao vivo e sendo transmitido ao mesmo tempo que este confronto.
Uma risada estridente e irritante ressoou. Olhei para a fonte: o mezanino do segundo andar. Alguns holofotes se acenderam e ele estava ali. Um pouco mais corpulento do que nas fotos. A roupa toda feita de borracha que cobria o corpo todo, exceto rosto, e uma antena saindo do centro da touca.
A risada a seguir foi minha. Ri com a risada mais grave que já tinha rido em minha vida. Aquele ser desprezível ousava me desafiar e José Maria se escondendo. “Tu é o caralho do ET de Passo Fundo? A coisa mais ridícula que já vi em minha vida”.
Olhei para uma câmera. Eu não sabia quem eram todos os que me assistiam, mas sabia de um deles. Eu senti toda a ira, apontei minha palma para o ET, acumulei todos meus sentimentos e consegui gerar uma imensa esfera de eletricidade vermelha — que disparei em um feixe sem tirar os olhos da câmera.
A estrutura toda à volta do feixe foi repelida e destruída. Se o dano colateral no que estava no caminho foi esse, imagine tu o efeito sobre meu alvo. Desapontado, odioso, me virei de costas em direção à porta. Acabou, não estava satisfeito, precisava do sangue de José Maria em minhas mãos. E foi aí que uma mão feminina me parou (eu não vi, apenas senti) por dois segundos e me virou a tempo de me defender.
Uma pisada de coturno com sola de espinhos de ferro voando em minha cara, que defendi com os braços cruzados, mas não sem ser jogado para trás. “Eu não sou o ET de Passo Fundo, já avisei meu sacerdote que sou o GRANDE AVATAR DO DEUS KAUSTÍŌN” gritou o louquinho enquanto me chutava. Só entendi o que aconteceu ali depois da luta, quando Verônica me mostrou parte da gravação. O ET ativou algum tipo de cinto que soltou uma garra, o prendeu no teto e o permitiu se balançar para cair em mim.
Aquele doido realmente queria me tirar do sério em vez de entender o lugar dele. Eu só não sabia como ele ainda estava quase intacto. Quase, pois o rosto estava com queimaduras e inchaço, mas o resto inteiro estava sem qualquer sinal de danos. Foi aí que ele riu dizendo que sua “pele de borracha” e uma camada “subcutânea” de “aço emborrachado” o protegiam de choques elétricos e impactos fortes.
Decidi verificar o quão resistente o cara era e corri em sua direção. Ele puxou dois revólveres de brinquedo do nada e começou a atirar ácido em mim. Eu sabia o que aquilo era capaz de fazer e primeiro tentei defletir com minha eletricidade. Muitos tiros meus falharam e outros usaram energia demais, fui acertado e recebi queimaduras, me forçando a correr em ziguezague para escapar dos tiros assim que me recuperei.
Quando estava próximo, tive que me arriscar. Rolei e saltei em sua direção. Minhas mãos extremamente fortes e poderosas bateram como facas de aço nos dedos do ET enquanto eu dei uma cabeçada em seu rosto. Ali não tinha camada subcutânea de qualquer merda que ele inventou da sua mente doentia.
Enquanto ele estava tonto, resolvi testar um combo que há um tempo estava bolando com ajuda de Verônica. Eu ginguei um pouco para pegar impulso e dei uma estrelinha para trás enquanto chutava o ET para cima, com um segundo chute logo em seguida, o arremessando para cima. Fiquei de pé rapidamente e dei três socos no ar. Infelizmente, apenas o terceiro funcionou — disparei uma bola de energia que acertou como uma extensão do soco — e ainda foi bem fraco.
Bom, quando ele cair no chão, acabou, né? Foi o que pensei. Ele se levantou rindo com sua voz estridente. Puxou correntes cobertas com ácido e começou a balançar no ar como tentáculos de uma mãe d’água sem qualquer graciosidade.
Doeu. Doeu cada correntada e suas gotas de ácido que conseguiam ultrapassar a roupa ou acertar meu rosto. Logo, viraram apenas correntes, pois todo o ácido tinha escorrido e consegui arrancar de suas mãos.
Quando vejo, o filho da puta estava segurando a respiração e soltando tudo em um grito que se transformou em um canhão de som. Fiquei em dúvida entre proteger a audição ou minha posição, acabei optando pelo segundo e, se não fosse pela regeneração do XPTO depois, eu estaria com perda auditiva até agora.
A seguir, nem percebi quando ele se jogou e me socou na boca, em seguida no estômago, com um chute no fim com seus coturnos e seus espinhos de metal. Logo, me agarrou e tentou me levantar, mas, aparentemente, seus equipamentos de EPI implantados não davam força aos músculos. Não conseguiu.
Eu o puxei pelos ombros enquanto levantava meu joelho para acertá-lo no peito e tentar quebrar suas costelas. No entanto, realmente tinha algo mais resistente ali e nada se fragmentou, apesar de que tenho certeza que ele sentiu dor. Não era para um filho da puta de merda desses me dar tanto trabalho. Teria que lutar a sério contra um palhaço e isso estava me deixando ainda mais puto. Dei mais três joelhadas e o arremessei para longe.
Enquanto ele se levantava, usei o tempo para pensar rápido e olhar o cenário ao meu redor. Eu não conseguia realmente impacta-lo ou eletrocutá-lo, mas um bosta desses tinha que ter fraquezas. Por um motivo muito estranho, lembrei de quando eu ainda era criança e meu pai foi arrumar algo na fiação de casa usando luvas de borracha, mas um curto rápido fez o material derreter e o ferir.
Notei uma estátua de madeira dos Lanceiros Negros logo ao lado do “ET de Varginha”, “de Vagina”, “Bilu”, qualquer merda assim. As lanças em si eram de ferro e tive uma ideia. Corri em disparada ignorando os xingamentos e bravatas em voz estridente do “metido a alienígena” e cheguei na parte da escultura onde um homem segurava sua lança com apenas uma mão.
A madeira era maciça e quebrei na altura do pulso. Ao mesmo tempo, o “Soda Cáusticon” tava puto e me chamando de arrogante. Eu? Eu só coloco meus adversários no lugar deles, abaixo de mim, e agora o estava levando a sério. O abobado deveria levar como um privilégio e se curvar.
Apesar de estar de costas, minha concentração era tão grande que conseguia sentir a minha volta com campo magnético. Essa sensação em si era fraca ainda e não sei se conseguirei de novo, mas o conselho da Verônica de respirar fundo e tentar manter a mente atenta deu certo na mistura de ira estabilizada em que eu estava. Funcionou para o que eu precisava.
Peguei o punho que carregava a lança e virei para o “ET Xilofone” lá. Era esse o nome do grande deus do caralho voador? Tanto faz. Corri e bati nele com a lança várias vezes, ouvindo o som de metal chocando com metal, mas ainda abafado por ser um… aço emborrachado? Sei lá o que é isso.
Notei algo que, na raiva, não tinha percebido até então. A cada golpe, ele sorria mais de prazer. Meus socos e pancadas o faziam ficar excitado. Era a inércia que o fazia ficar puto. De qualquer forma, ele começou a revidar.
Apertou o seu cinto que apareceu do nada e um gancho foi disparado, furando minha barriga pela lateral e, por sorte, sem pegar em nenhum órgão interno. Ele me puxou e tive que ceder para não ter um pedaço de carne arrancada. Antes de eu virar a lança para o et, ele mesmo agiu, disparando lâminas de corte que me feriram em várias partes enquanto eu tentava defleti-las. Eram realmente afiadas e senti até uma costela ser lascada.
Cobri um dedo de eletricidade e consegui captar um disco no ar pelo buraco, mas ele continuou girando com a energia que coloquei e puxei para cortar a corda que me puxava. Eu estava ferido, cansado e irritado. Peguei a lança pela mão de madeira e depositei toda energia que eu conseguia. Colocar eletricidade demais não era problema naquele momento, pelo contrário, e eu estava me exaurindo para além do que seria saudável, mas para finalizar o combate, fazia sentido.
A eletricidade vermelha aumentou o calor da lança de metal a ponto de começar a chamuscar a madeira maciça e eu comecei a golpear o ET. Dessa vez, consegui fazer cortes em sua roupa de borracha que derretia com temperatura tão alta. Os golpes estavam limpos e causando mais estrago do que eu previ. Finalizei arremessando a lança, que acertou seu peito bem no meio.
Foi nesse momento que caí de joelhos de tanto cansaço, mas a adrenalina e a raiva ainda não me permitiam sentir dor. Eu estava pronto para gritar um desafio diretamente a José Maria quando uma sensação horrível começou em minha mente. As janelas e portas de vidro estouraram enquanto um líquido viscoso verde começou a inundar o local.
De uma porta ao fundo, um ser usando uma túnica apareceu, recitando palavras estranhas que eu não entendia nada. Seu rosto demorou para ficar reconhecível para mim na explosão de sensações, mas eu entendi quem era: José Maria.
Aquele líquido começou a me agonizar cada vez mais. Me sentia me afogando em um mar de ácido que entrava por nariz e boca para me queimar por dentro. Não deveria ter som algum — debaixo do líquido e eu de ouvido estourado — mas as palavras continuavam a chegar em mim. O esquisito metido a et começou a rir e, mesmo quase inaudível, essa voz estridente e irritante conseguia me causar muito desconforto. Entre risadas, palavras arrogantes eram legíveis em seus lábios dizendo que me faria me curvar.
Mães d'água começaram a surgir enquanto o ET começava a flutuar no líquido. Sua pele e sua roupa também derretiam, mas ele não parecia se importar. Seu rosto começou a mudar, ficar gelatinoso, e seus membros verdes-translúcidos. A cabeça começava a inflar.
A sensação do ácido derretendo meu corpo cada vez mais só era suprimida pela sensação de agonia e ira no meu peito. Minha mente parecia explodir com palavras aparecendo em runas. Algumas eu entendia e outras não. Vislumbrei mares, criaturas, planetas. Estava me sentindo cada vez mais perturbado.
Sumiu.
Tudo. Toda a piração, do nada, sumiu. O líquido verde nunca esteve ali, as janelas estavam inteiras, meu corpo não tinha nenhum ferimento que teria surgido após meu golpe final. José Maria estava parado, pálido, de olhos esbugalhados. A única coisa que restava materialmente da experiência foi o Et de Passo Fundo estar com partes do corpo desfiguradas. O cara estava de joelhos, chorando em desespero, clamando pela volta de Quem o abandonou.
Eu não sei o que aconteceu. Aquele ácido que ele me jogou no início da batalha devia estar com toxinas. Talvez algum gás jogado no ar. De alguma forma, eles me provocaram uma alucinação muito grande. Enquanto eu relato esta cena, Verônica diz que tem coisas para me contar, mas não quer me ver pirar de vez nem atrapalhar meu relatório. Sei lá, mas sei que foi uma experiência muito doida.
Novamente, esse tipo de reflexão só estou fazendo agora. Na hora eu estava confuso, com raiva, com taquicardia, com sangue nos olhos, com fome, com adrenalina e a dor começava a aparecer para dobrar as outras sensações. Estava na hora de acabar com tudo.
Eu caminhei até o ET de Passo Fundo. Devagar, mas objetivo e firme. Ele não tinha como escapar dessa vez. Senti uma mão feminina leve tentando me parar com gentileza e firmeza, mas desculpa, não vai ser possível.
Cheguei perto, puxei a touca do homem para trás, coloquei a mão entre os seus cabelos, e segurei sua cabeça. O ergui o mais alto e distante possível e encarei seus olhos chorosos. Gritei com toda minha alma e realizei uma lobotomia com eletrochoque na intensidade proporcional à grandiosidade que ele achava ter.
Soltei no chão aquele pedaço de carvão queimado preso a um pescoço. Me virei para José Maria que ainda estava catatônico. Corri com todo resto de energia que eu tinha em sua direção, mas fui interceptado por uma mulher usando terno preto que me agarrou e me segurou no chão.
Eu estava sem forças e não conseguia me levantar. Sentia apenas raiva da interrupção. Apareceram alguns “homens de preto” que rodearam José Maria. Minha audição já estava voltando aos poucos e entendi algo sobre ele ter interferido demais na Superfície e desafiado o Véu da Ignorância.
Em seguida, um deles pegou uma pistola a laser e disparou na testa de José Maria, que caiu como papel quando um furo atravessou sua cabeça. Finalmente entendi por que eu o odiava tanto, mas nunca mais vou poder demonstrar. Derrota.
Logo em seguida apareceu Bombcorn do nada, atirando pipocas e acompanhado de umas pessoas com canhões de papel colorido, música e celebração da minha vitória em batalha. Esta parte só vi em vídeo. Filhos da puta.