A Princesa e A Mendiga
— Mendiga é teu cu. — Diz Verônica, bem baixinho, respondendo mentalmente a uma ofensa que simulou sobre sua própria aparência no cenário atual.
A ruiva está parada na frente da porta de um apartamento de um prédio antigo, mas muito bem preservado, no bairro Rio Branco em Porto Alegre. Algo do tempo em que ainda faziam imóveis com chão de parquet e três quartos sem custar uma fortuna. Hoje, custa, e a ruiva talvez tivesse dinheiro para quase comprar um desses se vendesse todas suas coleções. É uma troca tentadora, mas ainda longe de acontecer.
Verônica usava suas vestes mais comuns. Jaqueta preta de couro, uma blusa regata cavada branca do AC/DC e calças de brim azul. Os tênis eram all-star botinha preto com rebites. Nas costas, uma mochila cheia e com pedaços de itens aleatórios saindo pelos bolsos que não conseguiram ser fechados.
Ela já bateu nessa porta algumas vezes na vida e toca de novo hoje ainda estranhando algumas peculiaridades. Tudo nela se destaca dos demais imóveis do condomínio, o que leva à dúvida se a habitante e proprietária não pagava multas constantes por sair desse padrão. Gente esquisita é normal no Submundo, mas na Superfície se destacar tem seu custo.
Um cheiro de incenso estranho sai pelas frestas da entrada. Algodão-doce? Um incenso de algodão doce? Não é isso o que se espera vindo de trás de uma porta de ébano super escuro com adornos de cerejeira japonesa e enfeites dourados. Todos esses detalhes ainda sintonizam com a estranheza de uma aldraba feita com crânio humano sob resina junto a detalhes decorativos que ajudam a parecer falso para quem não estiver muito atento.
Todas as interações de Verônica e Sabrina até hoje foram esporádicas, geralmente comerciais ou trocas de acenos ao cruzarem caminhos. Pensando agora, a postura comum da Princesa Necromante, que será conhecida melhor nos próximos momentos, era diferente quando Tomás estava junto. Perto do irmão de Verônica, Sabrina ficava ainda mais fria, mas era como se a baixa temperatura também a afetasse. Enquanto a ruiva pensava, a loira abria a porta para atendê-la:
— Bonsoir, cara Verônica, como posso ajudá-la? — Diz Sabrina após abrir a porta e estendendo a sua mão com apenas um dedo levantado para que Verônica beijasse. A loira e seus olhos violetas se contrastavam com as roupas de seda fina que cobriam seu corpo. Roupas que não viam as ruas, mas se viam nos espelhos todos os dias, visto que haviam cristais espalhados em detalhes e botões. Uma princesa em suas vestes de casa.
— Oi, — e Verônica beija a mão de Sabrina como se fosse a coisa mais natural a se fazer perante quem claramente é uma princesa. Em seguida, ela fica irritada ao perceber que agiu sem pensar e perante a postura de elegância agressiva de Sabrina. — como eu falei pelo Talária — E Verônica apontou para o app de mensagens do Submundo em seu celular. — Eu preciso de uma ajuda tua.
— Que tipo de ajuda, ma cherie? — Diz Sabrina com uma sobrancelha levantada perante a má educação recorrente de plebeus que, mais uma vez, repete-se na sua presença. — E o chevalier Tomás, não veio junto? — A loira busca com os olhos o pirilampo vermelho pelo corredor.
— Ele não vem hoje. Ainda está se recuperando da última batalha. A regeneração dele ajuda, mas não faz milagres. E, também, eu preciso é de um cérebro bem específico hoje, não de músculos. Claro, se não for quebrar as tuas unhas. — Disse Verônica, soltando veneno depois de se conter até agora por precisar de Sabrina.
— Oh, claro. Sendo assim, é de minha noblesse oblige ajudar uma… pleb… pessoa em necessidade, depois de ter me ajudado tantas vezes. — Respondeu Sabrina de forma pomposa, doce, mas fria como um marshmallow na geladeira. Sabrina convidou, com gestos, Verônica a entrar.
— Preciso obter informações que se foram com os mortos. — Verônica entrou depois de Luciferina, fechou a porta e cumprimentou as duas pelúcias vivas, Harperino e Purserino, como quem cumprimenta gatos e cachorros ao chegar na casa de alguém.
O interior do apartamento de Sabrina definitivamente não parece de um porto-alegrense, muito menos do século 20, quando provavelmente foi construído. Os móveis e decoração misturavam o que se veria em um castelo medieval, mais especificamente em um quarto de princesa, com o que se veria em um cemitério da mesma época. Eletrodomésticos, no entanto, quebravam o padrão junto com as pelúcias espalhadas pela casa, apesar de apenas duas se mexerem.
— Falar com morto é um pouco difícil. Falar com mortos específicos ainda mais. Obter resposta, então… — Diz Sabrina, enquanto deposita delicadamente um dedo no próprio queixo. — Posso precisar de algum catalisador ou um local como um portal.
— Imaginei que, para vossa majestade, — e Verônica fala com um tom pomposo e disfarçadamente debochado, enquanto faz gestos exagerados com as mãos — algo assim estivesse entre suas capacidades e intelecto. Sei de um lugar conhecido por ter uma boa conexão com o outro lado. Podemos ir lá.
— Ah, ma cherie, mesmo Princesas podem evoluir e, como Necromante, tenho muito o que crescer em poder e conhecimento ainda. — Responde Sabrina, com uma pequena risada perante à tentativa frustrada de Verônica ser elegante. — Há quanto tempo o defunto se foi? — A loira dá as costas e complementa sua fala avisando que vai para seu quarto escolher um vestido.
— Uns vinte anos. — Verônica começa a olhar a decoração da sala e da casa com mais cuidado. Espia aqui, cheira ali, dá umas voltas perdidas. Sua mão passa devagarmente por uma pilha de joias, seus dedos enrolam algumas pedras aleatórias, mas logo solta ao perceber a harpia de pelúcia encarando até sua alma.
Em seguida, sente um puxão na sua calça. O ursinho de pelúcia parece querer mostrar algo e a leva até um quarto. Nesse quarto, há estantes com livros de capas que desafiam qualquer noção de sacralidade, instrumentos de cirurgia, e outros objetos macabros. Parecia o quarto de brinquedos de uma princesa necromante. No meio, um pequeno altar.
— Então, pode dar algum trabalho, mas dá para fazer. — Diz Sabrina, com sua voz pomposa, enquanto separa sua lente e suas jóias que brilham como o verde de vagalumes do inferno.
— Mas os seus… bichos de estima…
— PEW — A harpia interrompe Verônica em desaprovação.
— Nobres cavaleiros, por favor, eles são meus nobres cavaleiros. Pode chamá-los de pelúcias, mas bichos de estimação é ofensivo. — Sabrina responde com voz de nariz empinado.
— Desculpe, não sabia. — Responde Verônica enquanto é conduzida pelo ursinho até o pequeno altar. Sobre ele, há símbolos inscritos em um círculo onde repousa o fenrir de pelúcia que ela mesma trouxe para Sabrina algum tempo atrás e uma caixa de refrigeração onde ela sabia que estavam partes dos mortos. — Mas eles não são espíritos? — O urso começa a mostrar empolgação enquanto faz grunhidos apontando para o lobo em cima do altar.
— Meus cavaleiros são criados a partir de ectoplasma de mortos sim, mas a energia espiritual é usada para gerar um novo espírito. Como a nobre que sou, jamais faria algo tão sujo. O que faço é criar os mais poderosos, interessantes e leais seguidores para a fundação do meu reino. — Sabrina fica parada na porta do quarto onde Verônica está. — Vou tomar meu banho, me arrumar e, então, saímos.
— Certo. Sobre o local, acho que tu vai gostar, princesa. É um castelo ali no centro, com um local usado como portal para se comunicar com os que já foram.
— Perfeito. Depois do banho. — E a loira vai para sua suíte.
Enquanto Sabrina se lavava, secava e vestia, Verônica olhava mais algumas coisas curiosas na casa. O urso novamente a puxa, desta vez até a cozinha, e pede para que ela alcance o pote de mel de cima da geladeira que a harpia parece se recusar a entregar. A ruiva pega o pote e dá para o urso que começa a festejar e se lambuzar como uma criança comendo doce.
— Purserino! Que mal educado de tua parte. Usar a gentileza da visita plebeia para fugir do teu castigo. Vamos fazer uma revisão de etiqueta e noblesse oblige na volta. — A Princesa Necromante repreendeu o urso de pelúcia, mas quem sentiu as palavras foi a “plebeia” Verônica, que imediatamente passou as mãos pelos objetos da casa e subtraiu alguns sem nem mesmo a harpia perceber.
Sabrina, não, Luciferina estava pronta. Um vestido preto longo feito à mão, com materiais similares a seda, cheio de babados e desenhos de flores, e turmalinas negras espalhadas. Uma tiara e outras joias de obsidiana adornam o resto do corpo. Em todos os objetos e na lente de contato, o verde da luz de um vagalume do inferno se destaca. Abaixo de tudo isso, um salto. — Estou pronta, vamos lá?
— Sim. Nosso destino é o Castelinho do Alto da Bronze. — Responde Verônica, ainda incomodada por ter sido chamada de plebeia. — Eu acho que a tua coroa não vai caber no capacete, viu? — E começa a se retirar da casa junto com Luciferina, sendo que é esta quem abre a porta.
— Hahahaha — Ri Luciferina com a mão na boca enquanto caminham pelo corredor do prédio. Harperino acompanha pousado no ombro da menina e Purserino caminha ao seu lado. — Ah, não vamos de moto, ma cherie. — As duas entram no elevador. — Nós vamos em meu cavalo. — E aperta no botão do subsolo.
— Olha, amiga… Ir cavalgando até o centro não vai ser desconfortável?
— Hahahaha — Luciferina ri de novo com a mão na boca, como se estivesse perante uma criança ingênua, enquanto a porta do elevador abre para o estacionamento. A loira pega uma chave do bolso e aperta o botão de abrir o carro. O automóvel que responde é uma Ferrari negra perolada.
— Ah, entendi. — Diz Verônica enquanto bota sua mochila no banco de trás e senta na carona.
— E que tipo de informação nós queremos pegar nesse ritual? — Pergunta Luciferina enquanto senta com imponência e capricho no banco, veste luvas e fecha a porta.
— Uma receita de sorvete. — Responde Verônica, abrindo o porta-luvas de Luciferina.
— Essas pessoas não têm coisas mais importantes para pedir para ti? — Luciferina fecha o porta-luvas antes de Verônica terminar de abri-lo. Em seguida, pega o controle do portão, aperta o botão e nada acontece. Ela dá uma batidinha, aperta de novo e o portão começa subir.
— Trabalho é trabalho, né? As criaturas pagam, eu faço. De vez em quando surge uma esquisitice dessas. Sabe aquela sorveteria na Cidade Baixa, a Gioielli?
— Já ouvi falar, mas sempre me pareceu... coisa de povo… — Responde Luciferina;
— Era a melhor sorveteria da cidade até um tempo atrás. Na Superfície. Já no Submundo era a melhor do estado, com destaque no mundo todo pelo uso de ingredientes de origem desconhecida. Daí, as receitas eram passadas de geração para geração e, na última vez, o pai achou o filho indigno de herdar os segredos. Por isso, o sorvete perdeu qualidade há mais de década. O velho morreu e o filho ficou sem legado.
— Só agora esse rapaz quis a receita? — Pergunta a nobre necromante enquanto vira o carro em uma esquina.
— Nah, ele nem tem interesse. Acontece que o Anderson Tavares, um ricaço do Submundo, acabou de voltar para Porto Alegre depois de décadas e quer colocar a receita na sua coleção. Ele é apreciador de comida e quase iniciou uma facção uma vez só para ter Proto-Humanos tematizados. Acabou ficando só em coletar e comer mesmo. — Verônica abre a janela e mostra o dedo para um cara que não deu a preferência.
— Eu acho que posso precisar de um serviço teu também.
— Ah, é? Mais uma pelúcia? — Pergunta Verônica, com uma risada, enquanto esperam um mendigo bêbado atravessar a rua.
— Não. Ainda não consigo invocar e controlar quatro ao mesmo tempo. Só que como tu viste, ainda não consegui nem concluir o ritual da terceira.
— Pensei que tu precisava daqueles cadáveres quase frescos, inclusive. Vai precisar de novos? Não faço assassinatos, mas às vezes sobra algo quando o Tomás luta e…
— Não, não, aquelas partes ainda servem. Eu preciso é de outra coisa: de uma vela ou material para preparar uma. De alguma forma, deve ter envolvimento com o elemento gelo ou com frio, como na condição de morte daquelas pessoas. Ah, e quanto mais fresco, sofisticado e nobre forem os materiais, melhor. — Luciferina estaciona o automóvel. — Vocês fiquem aqui e cuidem do carro. — Diz a menina para suas pelúcias enquanto desce do veículo.
— Vamos por aqui. Está nos últimos segundos da visitação. — Verônica atravessa a rua com sua amiga gótica.