Le Château Noir
O local é o Centro Histórico de Porto Alegre, onde há um pequeno castelo que um político mandou construir há muito tempo atrás. Ele havia abandonado a esposa para morar com a amante jovem no local e, por ciúmes, a mantinha presa no segundo andar do castelo. Os registros históricos dizem que ela fugiu e as lendas dizem que ela foi assassinada lá, mas a verdade só o Submundo sabe: ela fugiu e foi assassinada no caminho.
— Boa noite, meninas, estamos fechando já. — Diz uma vigia.
— Olha, mas tu não sabes com quem estás falando, por isso vou te perdoar desta vez. Saia de vez da entrada que eu, a nobre princesa da morte, Luciferina, e esta mocinha aqui queremos passar. — Luciferina fala de forma tão pomposa, nobre e autoconfiante que a vigia automaticamente pega e beija a mão da menina antes de perceber o que tinha acabado de ouvir. Em seguida, a vigia sacode a cabeça e demonstra irritação.
— Calma, não precisamos disso. Aqui. — Verônica apresenta um cartão para a vigia.
— Ah, tá, passa. — Respondeu a moça. Ela não sabia o que exatamente era aquele cartão, mas o treinamento mandava liberar a porta quando alguém o apresentasse.
— Cartão de Marmota. — Explica Verônica para Luciferina enquanto entram no local.
— E simplesmente tem um local para rituais de necromancia aqui de forma acessível à Superfície?
— Sim, claro que tem. Não, né? Só quando se conhece a Dani. — Disse, enquanto liderava o caminho para descer uma escada em direção a um andar de subsolo.
— Quem é Dani?
— A Danifica… — e Verônica se interrompe perante a ingenuidade e capricho da amiga. Muito tempo convivendo com Tomás faz esquecer que não dá para fazer piadas de quinta série com todo mundo. — Nada, deixa. Na verdade, tem uma sala um tanto discreta que poucas pessoas sabem que existem, menos ainda sabem o que tem atrás e, por fim, entrar nela é um obstáculo final difícil. — Verônica parou na frente de uma porta cheia de inscrições, botões e decorações que parecem móveis.
— Nossa, parece um enigma.
— E é. Só entra quem descobre. Por sorte, aprendi bastante na infância com meus pais que eram arqueólogos.
— Ok, estou curiosa. — Luciferina levanta uma sobrancelha.
— É. Meus pais eram arqueólogos e faleceram em uma missão. Nunca descobri qual ou como, e tento investigar isso, sem muito sucesso. Quando aconteceu, uma colega de trabalho deles, que também é minha madrinha, ficou comigo por um tempo até me entregar para a Srta. Rosa me criar. Tomás já estava lá, crescemos juntos. — Verônica falava enquanto mexia nos botões da porta, tentando decifrar o quebra-cabeça.
— Então tu trabalha como marmota para encontrá-los? Que nobre.
— Ahahaha, não para isso apenas. Eu já admirava o trabalho deles, mas por ser pequena, nunca me levavam junto, só me davam presentes das viagens. Foi aí que comecei minhas coleções. Só que não sobram muitos lugares novos para ir na década de 20 do século 21, né? Ainda mais com Proto-Humanos com todo tipo de poder indo de um lugar a outro. Mas um dia quero descobrir algo novo, ir onde nenhuma Adriana jamais Esteves. Até lá, me contento com o trabalho atual.
— Quem sabe te contrato para descobrir o local perfeito para o meu Reino? Permito até o teu nome em uma das praças do Castelo Real.
— Isso seria ótimo, vossa majestade.— Responde Verônica com uma risada de canto de boca. — Depois da senhorita. — E abre a porta para ela entrar. — O local está limpo. — Verônica passa o dedo nas paredes e móveis para mostrar a falta de pó que poderia “incomodar a princesa”.
— Muito obrigado por verificar para mim. — Diz Luciferina, sem perceber o subtom das palavras de Verônica. — Vamos ver o que temos aqui. Uma pequena câmara de pedra, castiçais e uma mesa circular de pedra no centro com o alfabeto gravado.
— E o que dá para fazer com esse lugar que parece… meio morto?
— Preciso de um copo. — Luciferina abre a mão e estica em direção à ruiva como se esta fosse um mordomo.
— Deixei minha mochila no carro, mas… — Verônica coloca a mão dentro da jaqueta e retira um martelinho. Ela estica o braço para entregar o objeto para Luciferina e logo recolhe. — Espera um pouco. — A ruiva bota a outra mão dentro da jaqueta, retira um frasco de rum, enche o martelinho, vira na boca e aí sim entrega para Luciferina usar. — Pronto, pode pegar.
— Em algum momento, vamos beber alguma coisa decente. — Responde Luciferina ao cheirar o martelinho com uma careta. A menina coloca o copo no meio da mesa com a boca para baixo e, em seguida, pega um alfinete que estava preso no seu vestido. Faz um furo no dedo até sair sangue e começa a contornar cada letra do alfabeto incrustada na mesa de pedra. Em seguida, pega um pano com álcool e passa no dedo. Ao perceber o olhar curioso de Verônica, explica: — Necromancia não é desculpa para bagaceiragem.
— Legal, se tivessem me falado que era só um jogo do copo, nem teria saído de casa. — Diz a ruiva.
— Eu entendo a frustração e ela é legítima. Jogo do copo neste tipo de pedra e em lugar preparado para ter portal, no entanto, dá outro resultado. Estás pronta para começar?
— Começa tu, eu que não vou mexer com essas coisas. Depois vou te pagar de alguma forma, mas isso aí é só contigo. — Verônica fala pensando em fazer piada de pagar com o corpo, só que Luciferina poderia entender de forma literal. “Melhor evitar esse tipo de brincadeira com uma necromante” concluiu a ruiva.
— Tudo bem, eu entendo. Qual o nome de quem vamos chamar?
— Mário Gioielli. Foi o cara que inventou toda a receita. — Respondeu Verônica, começando a ficar desconfortável ao cair a ficha do sobrenatural que estava para acontecer perante ela.
— Mário Gioielli, estás aqui? — Luciferina aponta a palma da mão para o copo, mas nada acontece.
— Não era para botar a mão no copo e ele ir respondendo?
— Capaz que vou deixar um defunto plebeu me dar esse trabalho. — Luciferina tira os olhos de Verônica e olha novamente para a mesa. Com a mão apontada, agora uma energia da cor de vagalumes começa a contornar o seu corpo.
A luz, no entanto, não trouxe calor. O ambiente ficou gélido. Verônica, que, por conta do verão, usava uma jaqueta leve só para manter o estilo e se manter confortável ao pilotar sua moto, sentiu falta de um casaco mais pesado.
— Mário Gioielli, eu, Luciferina, ordeno que responda. — Luciferina usou pomposidade e imponência em sua voz fria. O copo se mexeu sozinho e soletrou “eu estou aqui”.
— CACETA! — Verônica tomou um susto e parou de tremer apenas por frio. Agora estava receosa com os mortos.
— O copo é muito lento e tenho mais o que fazer, vou usar esse material apenas de catalisador. Mário Gioielli, eu ordeno que apareça e fale diretamente comigo.
— Como pode? Uma mera ragazza achar que me ordena?
— AI, PORRA! — Verônica corre para perto da porta fechada quando um homem com vestes de colono italiano aparece falando um português com forte sotaque.
— No entanto, apesar do questionamento, tu estás aqui. — Responde Luciferina. — Eu preciso de uma informação.
— Vá, vá, de que informação tu precisas? Que é tão importante a ponto de me tirar de onde eu estava? Confortável a comer umas porpetas com fettuccine.
— Precisamos da receita de sorvete da sorveteria Gioielli. — Disse Luciferina, enquanto Verônica estava de olho arregalado e não se atrevia a participar do diálogo.
— Mi hanno chiamato dos mortos para perguntar tal besteira? Por que não pediram a meus pronipote?
— Meu caro, senhor. — Luciferina muda para um tom mais cordial. — De fato, peço-lhe mil desculpas pela forma que me comuniquei. Fiz isso apenas para… agilizar o processo e não usar muito do teu tempo, além de eliminar mediadores desnecessários. A receita que é segredo da tua família merecia uma conversa mais rosto a rosto.
— Signorina Luciferina. — Mário se curva um pouco em cumprimento e continua sua fala, também em tom cordial. — Entendo, mas pergunto novamente, por que vir até mim e não ir até meus herdeiros?
— Senhor Mário, seus descendentes a perderam. A geração atual foi deserdada pela anterior, que encontra-se morta. Agora, sobram clientes blasfemando sobre seu nome e um amante da haute cuisine contratou a minha amiga para ajudar a reviver sua receita enquanto mantém seu legado vivo. — Luciferina mostra Verônica em um gesto simples, mas educado, de mão.
— Capisco… — Responde Mário, olhando para a ruiva curioso com o medo em seu rosto. Estar há tanto tempo morto pode fazer alguém esquecer de como vivos temem a morte. — Aguarde um minuto. — Mário fecha os olhos, concentrando-se. Sua boca mexe rápido e em ritmo frenético, como se estivesse conversando com alguém de forma bem acelerada. — Hmmm… — Ele abre os olhos. — Ricardo Gioielli foi o último descendente meu a ter as mãos sobre a receita. Confirmei que sua versão escrita, atualizada, está nos documentos da fábrica. E, sem os ingredientes que produzimos lá, a receita não serve para nada.
— E onde está essa fábrica?
— Procure por Irerêwerá, a ilha onde comecei a produção. Poucos sabem de sua existência, muito menos conseguem chegar lá, pois a ilha se esconde. Agora que vocês sabem o nome, se ela quiser ser encontrada, será. Não posso dizer mais do que isso. — E Mário some pela própria vontade, apesar de Luciferina tentar usar seus poderes para mantê-lo ali.
O brilho ao redor da princesa gótica desaparece e o calor volta ao local para alívio de Verônica que para de tremer. De quê? De frio, claro. De medo, ela jamais tremeu. Em seguida, Luciferina pega o copo e pede um pouco de licor para Verônica que acha engraçado como a loira espera que ela carregue todo tipo de bebida alcoólica nos bolsos.
Então, Verônica tira uma garrafa de licor de cereja e serve Luciferina, que bebe com um sorriso no rosto ao sentir sua energia voltando. O ritual cansou mais do que sua postura elegante deixava parecer. As duas se mexeram para limpar suas sujeiras e o sangue da mesa, mas não tinha mais nada lá, assim como a porta já estava aberta como um convite do lugar para que se retirassem. Verônica voltou a se sentir tensa e liderou a saída com passos rápidos. Foram caminhando até o carro, onde o urso e a harpia estavam dormindo entediados.
Após entrar no carro, Luciferina pergunta.
— Vamos aonde agora?
— Só conheço dois lugares que poderiam ter informações sobre isso e, em um deles, não posso te levar. — Verônica sente outro calafrio ao lembrar das bibliotecárias mandando guardar segredo dos livros ocultos. — O outro, é no Museu da PUC, vamos para lá.