Cicerone
— Por que eles teriam essa informação? E eles estão abertos em dia de semana à noite? — Perguntou Luciferina dando a partida.
— Como Proto-humana, imagino que te passem despercebidas facções como essa, né? O Museu não tem interesse em territórios, lutas entre Proto-Humanos ou algo assim. Eles se dedicam a obter e cuidar de coleções de artefatos, documentos e até seres de interesse do Submundo. Preservar a história natural e tecnológica é importante em todas as camadas. Inclusive, até seria útil terem Proto-Humanos para reforçar a segurança, mas não sobra muito dinheiro por não terem fins lucrativos. Os sistemas que usam já são bastante caros e quase invioláveis. Espero que não saibam quem foi uma das pouquíssimas pessoas que já conseguiu entrar e sair de lá sem ser pega…
— Olha, manter a noblesse oblige com uma gatuna só é fácil no Submundo. Se comparar com as leis da Superfície, roubar de museu deve ser um dos menores crimes que se comete nesta camada da sociedade.
— É, roubar túmulos, por exemplo, é bem pior. — Verônica responde com pequena alfinetada à sua cliente.
— Hihihi. — Ri Luciferina de volta, um pouco constrangida, um pouco debochada. — Chegamos, mas tem luzes acesas ainda. Usaremos a porta da frente mesmo?
— Sem problemas. — Responde Verônica saindo do carro e, em seguida, pegando o ursinho no colo enquanto a harpia pousa no ombro de Luciferina. Deixá-los mais tempo sozinhos no carro seria sacanagem.
— Só deve ter pessoas do Submundo e os guardas por aqui, imagino. — Diz Luciferina enquanto elas sobem as escadarias que levam da calçada à entrada do Museu.
Verônica guarda sua resposta ao chegarem perto dos guardinhas e mostra seu cartão ao primeiro que encontra. Os vigias olham estranho para o cartão, para as pelúcias que parecem vívidas demais e fazem uma reverência a Luciferina. Um segundo depois de se curvarem alguns graus, mostram-se confusos com a figura de vestes chamativas, mas abrem a porta para as meninas sem perguntar nada. Assim que fecham, Verônica responde.
— A princípio, sim, ninguém mais da Superfí…— E é interrompida.
— VÊ!!!! — Bianca grita ao longe, vindo do corredor da botânica, ainda cheia de faixas em diferentes partes do corpo.
— Puta que pariu. — Verônica resmunga baixinho enquanto bota a mão no rosto.
— Amiga sua? — Luciferina pergunta, de forma fria e direta.
— SIIIIIIIIIIIIIIM, somos grandes amigas. Quase irmãs! Ah… — Em seguida, toda a animação de Bianca se esvai. Após a animação de ver um rosto amigável, sua mente se conecta às cicatrizes dos eventos recentes.
— Ela mora na mesma república do Tomás.
— Entendi. — Luciferina responde, levantando um pouco o nariz.
— Que fofas essas pelúcias! Meu nome é Bianca, prazer em conhecê-la. — Bianca se prepara para cumprimentar Luciferina, que dá sua mão para ser beijada.
— Sabrina. — A princesa necromante usa seu nome real enquanto mantém-se gelada e seca.
— Haha. — Bianca ri confusa, após beijar a mão. — Vê, vi no jornal que o louco do ácido foi encontrado morto. Não gosto de morte por morte, mas… — e Bianca baixa a voz, quase cochichando, ao menos para os padrões da menina. — entendo por que o Tomás fez isso com quem me atacou e também atacou as meninas do lugar que ele trabalha. — Verônica suspira aliviada que o trabalho dos Homens de Preto de manipular a memória da mente de Bianca tenha funcionado.
— Tomás fez isso? O cara do ácido só foi encontrado morto, não entendi a conclusão… — A ruiva ficou confusa com essa parte do relato que também devia ter ficado de fora.
— Todas as noites desde que aquilo aconteceu eu tenho pesadelos de uma mãe d’água gigante me afogando em ácido e tentando me devorar, — Bianca espreme seu rosto em agonia — mas, em seguida, Tomás e Ulisses aparecem para me salvar. — suas expressões se misturam com um pouco de alegria. — Sei que é a Natureza tentando me dizer algo, mas Ulisses é um sensível e corajoso artista que faria tudo por mim, e não teria a força física e visceral de matar.
— Hahaha, como se meu irmão de criação fosse um grande herói. Ele é melhor do que parece e se deixa ser, mas é um idiota que só pensa em se provar forte. — Diz Verônica.
— Melhor? A única coisa que se fala por aí é que Tomás Vachet, o campeão da Srta. Rosa, só serve para brigar. — Diz em voz baixa um homem de mais ou menos sessenta anos, cabelo grisalho, camisa branca e calça jeans, e que assustou as meninas ao chegar sem ninguém perceber.
— E o senhor é? — Luciferina, de fria passa a congelada e, sob sua presença forte causada por uma desconfiança, o senhor que se aproxima se ajoelha rapidamente e beija sua mão.
— Professor Hemerson. Eu sou o curador do Museu e a pessoa com quem vocês provavelmente querem conversar, uma vez que estão aqui a esta hora. — Responde o senhor, se levantando confuso com o que acabou de fazer como se fosse algo totalmente natural.
— Professor, não sei como tu conhece o Tomás, mas ele é uma ótima pessoa para quem vê bem de perto. — Protesta Bianca.
— Um pesquisador deveria se informar mais sobre algo antes de julgar. — Ainda que precisasse das informações do homem, ouvir essas palavras sobre seu irmão fez Verônica ficar levemente irritada.
— O pai de Tomás era um herói e líder comunitário que tirou muitos jovens do crime através da educação e também um lutador muito habilidoso. Teve seu fim nas mãos de um neonazista de merda. O que o guri fez com esse exemplo? Jogou no lixo. Tornou-se um brutamontes vingativo que transformou o mundo no seu objeto de vingança. — Responde o homem em tom de desdém e deboche.
— Errado novamente. Eu realmente não sei de onde tu tirou a informação, até sabe mais do que deveria, mas tá incompleto. Tomás acredita que participar de uma luta é manter o pai vivo através da capoeira. A arrogância e excesso de autoconfiança não é só sobre ele, é sobre manter a lenda do seu herói viva. Quando ele vence uma luta, é a capoeira do seu pai que vence. — Responde a Verônica. Em seguida, percebe o olhar curioso de Bianca que escuta com atenção. — E o que tu tá fazendo aqui?
— Eu ajudo na área de botânica pela minha bolsa, assim como posso fazer minhas pesquisas também, mas já estou de saída. Preciso ir para casa preparar a jantinha do Ulisses! Ele sumiu desde aquele dia, então, preparo comidinhas gostosas toda noite para receber quando aparecer de novo. Vou indo! — Bianca se despede e sai.
— A que devo esta visita? Vieram ver o novo acervo, sobre Rede de Criptagem? — Pergunta o Professor Hemerson.
— Não, o que é isso? Ah, deixa, isso veremos depois. Quero saber de outra coisa. Olha, eu sei que vocês têm bastante registros sobre o passado da cidade. Eu preciso de informações sobre Irerêwerá. — Diz Verônica e Professor Hemerson arregala os olhos.
— Como vocês sabem sobre esse lugar? — Pergunta o Professor, depois de olhar para os lados e baixar o volume da voz.
— Um morto nos contou. Precisamos de algo de lá.
— Um morto o quê?! — O Professor se surpreende, olha para Luciferina novamente e enfim nota que tipo de pessoa ela é. Também percebe que as pelúcias começaram a se mexer sozinhas e, em especial, a harpia parece olhar diretamente em sua alma como se fosse um rato a ser caçado. — Não sei como vocês duas meninas conseguiram falar com um fantasma e quem era ele para dar essa informação, mas melhor eu mesmo explicar antes que vocês investiguem por aí e espalhem o nome de forma imprudente. Venham comigo.
O professor lidera a caminhada do hall do museu até uma portinhola de acesso a outro saguão. A exposição ali é bem diferente. Estátuas esquisitas, animais exóticos e fantásticos representados em pinturas ou empalhados, fotos de ruínas do mundo todo. Seu andar se encerra no meio de um corredor com ilustrações de um pampa coberto em neve, tigres dente de sabre lutando contra ursos, caçadores lutando contra preguiças-gigantes, e alguns indivíduos com vestes e armas distintas, únicas. Verônica entra no lugar pensando em fingir surpresa, mas acaba expressando uma surpresa real ao ver aqueles objetos do ponto de vista de uma observadora, não uma ladina em missão.
— O que vocês sabem sobre a história do Submundo? — Pergunta o Professor, dando um arfar com o nariz e abrindo um sorrizinho.
— Sei que ele existe praticamente desde o início da civilização humana. — Responde Verônica, revirando os olhos perante a expressão do homem.
— Na verdade, desde muito antes, ruivinha. — Diz o Professor, enquanto Verônica se segura para não responder. — Os Proto-Humanos, que antigamente eram chamados de Campeões, e que recebem outras nomenclaturas conforme local e tempo, nem sempre foram ferramentas de disputa entre as chamadas facções. Informações como essa só temos por conta de relatos diversos. Não apenas escritos, não apenas desenhados, mas também diretamente de pessoas do passado.
— Conversando com os mortos? — Luciferina levanta uma sobrancelha.
— Bem vivos, na verdade. Existem alguns… bolsões do tempo neste mundo. Locais que sobrevivem isolados do tempo ou o atravessam mais lentamente e onde foi possível conversar com remanescentes de diferentes eras do passado. Um desses locais é uma ilha gélida chamada Irerêwerá, que fica no meio da Laguna dos Patos, do período Hiboriano.
— Ué, mas não tem ilhas lá, muito menos locais estranhos como esse. — Diz Verônica.
— Não tem se ela não quiser estar lá, mocinha. Parece que há algum tipo de barreira ou proteção que esconde a ilha esconde e filtra os acessos. Quem chega lá, costuma ter consciência de que preservá-la é importante. Inclusive, se um morto com conhecimento do local contou sobre ele a vocês, ele ao menos acredita que vocês merecem a chance de ir lá. Não entendo o porquê dessa crença, mas parece existir.
— Ok, resolvido. — Conclui Verônica e olha para a loira. — Luciferina, liga pra Maria Júlia e pede uma lancha. A chefia do Carpe&Die não vai negar isso para uma das proto-humanas mais importantes dela. Se vamos navegar de um lado para o outro, que seja rápido em uma lancha.
— Nem pensar! — Diz o Professor
— Como? — Pergunta Verônica, irritada.
— Se aquela mulher chegar a considerar que esse lugar existe, vai tentar de tudo até encontrá-lo e montar um pub ou um café na ilha. A Srta. Rosa também é perigosa. Ela vai, no mínimo, vender essa informação para alguém. É importante que esse lugar se mantenha em segredo e só entre quem precisa conhecê-lo. Falando nisso, já que vocês vão para lá, tenho um trabalho a pedir. Esperem um pouco. — Professor Hemerson se retira.
— Não é nobre, não tem noblesse oblige, mas acha que é um. — Reclama Luciferina com cara de nojo. — Como ele tem tanto conhecimento, além de condescendência?
— Uma marmota velha costuma manter e receber muita informação ainda. Típico caso de bom currículo, não tão boa pessoa. Bem, depois disso, vou ter que esperar o Tomás se recuperar para ir comigo. Sozinha, sem nenhum Proto-Humano junto, não vai rolar. Sei sobreviver, mas não sei se isso vai ser suficiente.
— Eu, Luciferina, dar-lhe-ei a honra de ter minha companhia por mais tempo.
— Vai ficar mais cara essa dívida e não sei se terei como te pagar.
— Pois… não se preocupe. Me interessei pelo local. Acho que lá posso encontrar o que estou procurando há tempos para finalizar meu ritual. Até porque… o bom senhor Gioielli falou para mim sobre a ilha, não para ti, nem para o Tomás.
— Esta caixinha aqui, veja bem. — Volta o Professor Hemerson. — Espera-se que haja uma dessas por lá. — Ele mostra uma pequena caixinha de madeira com adornos verdes, vermelhos e brancos, e o abre. — E dentro da caixa deve ter artefatos como este. — Dentro da caixa revela-se uma pedra vermelha em formato engraçado, parecendo o nariz de um animal, junto com dois gravetos curvos com ramos espelhados. — Se, por sorte, chegarem lá e conseguirem sair, tragam para mim.
— Vai sair caro, viu? — Diz Verônica.
— Toda a informação que dei já devia ser suficiente, mas tudo bem. Tragam e negociaremos, mocinhas.
— E por que tu mesmo, detentor de todo conhecimento e esperteza, não vai até lá pessoalmente e pega esse artefato? — Finalmente Verônica se irrita.
— Eu não consegui acessar a ilha ainda… — O Professor responde cabisbaixo e um pouco constrangido, enquanto Verônica solta uma risada rápida e ácida, e Luciferina leva a mão à boca e dá sua risadinha nobre clássica, mas para dentro, ainda que audível.
Verônica tira fotos do objeto e as duas saem do local discutindo como e quando iriam procurar a ilha, concluindo que encerrar a busca o quanto antes seria o melhor. Não sabiam exatamente como chegar ou se chegariam lá, mas sabiam que ficar navegando de um lado para o outro e simplesmente desaparecer do nada no meio da Laguna com certeza chamaria a atenção de barcos ou de pessoas das margens. Logo, resolvem dirigir até a Zona Sul, parte de Porto Alegre que dá acesso à Laguna dos Patos.
Chegando perto das margens do corpo d’água, Verônica diz que o próximo passo, naturalmente, é roubar uma embarcação, ainda que a contragosto de Luciferina. Afinal, era só trazer o barco de volta depois e colocar qualquer dano na conta da Srta. Rosa. Isso seria suficiente para resolver problemas.