O Último Canto do Cisne
Apesar da imaginação pirata de Verônica, a sorte não estava com elas naquela noite. Como se o carma tivesse encontrado a ruiva antes mesmo do seu crime acontecer, não encontraram nenhuma embarcação à mercê de um roubo. Exceto por um pequeno barquinho em formato de cisne.
Sem muitas opções, as duas meninas, o urso e a harpia subiram no barco e começaram a pedalar. O silêncio da laguna só era interrompido por ondinhas causadas pelo vento e pelas vozes de Verônica e Luciferina que começaram a conversar e rir sobre infortúnios e perrengues passados e similares a esse. Uma conversa que estava prestes a morrer.
De tédio, as conversas e as risadas morreram. As duas passaram mais de hora navegando lentamente com o motorzinho mixuruca. Não sabiam por onde andar, estavam só esperando pechar na ilha de alguma forma. Só que, ao mesmo tempo que elas não encontravam nada, algo as encontrou.
Crack
Uma lança atravessou o pescoço do cisne e se prendeu. Uma corda, amarrada à lança, começou a puxar a embarcação. Os quatro olharam para a origem, mas não viam nada além do fim da corda se perdendo no infinito. A harpia de pelúcia tentou bicar a corda, mas, antes de chegar na metade, a maré começou a se levantar com uma onda gigante. Só que lagunas não possuem ondas gigantes.
Ao olhar para baixo, viram a embarcação sendo levada pela cabeça de uma serpente marinha. Uma criatura que a própria presença faria qualquer ser humano sentir-se minúsculo e insignificante. O medo de serem devoradas foi seguido por uma sensação talvez ainda pior: a indiferença.
A serpente parecia estar apenas de passagem e ignorando suas existências.
O suor frio escorria das testas nervosas das meninas. Verônica procurava, na sua mochila, objetos úteis para ajudá-las. Luciferina pensava em como atacar a criatura para afastá-la. Suas ações e pensamentos perderam objetivo quando o corpo da cobra terminou de passar e um coice de seu rabo as jogou em direção ao nada — que então já virou algo — e tudo se espalhou sobre uma praia de neve à beira de uma floresta glacial.