Antigo Mundo Novo
A bola de fogo já tinha aparecido ao horizonte e seu calor começava a deixar a pele da ruiva avermelhada tanto pelo reflexo direto quanto pelos raios defletidos pela neve da praia. Um som pesado e ritmado de passos de rinoceronte fazia o chão tremer. O gelo em que estava estatelada não era tão confortável, mas Verônica sentiu falta dele quando foi erguida no ar pela garra de uma criatura e colocada sobre seu dorso. Sem forças para se mexer, aos poucos abriu os olhos para presenciar o seu fim, mesmo com a visão embaçada.
A distância para o chão era de dois metros e meio, mais ou menos. O dorso em que estava era troncudo. Logo conseguiu entender, que na verdade, estava no ombro de uma criatura bípede. Mesmo assim, jogar-se e correr seria impossível no momento.
Seu nariz sentiu o cheiro de tecido mofado, de suor úmido, de fumaça e, por fim, do perfume adocicado de lenha. Percebeu também o cheiro ancestral de carne sendo assada e seu corpo reagiu salivando os lábios com o pouco de água que ainda tinha. Logo, os lábios se secaram ao concluir quem seria o próximo alvo do espeto.
Ao erguer um pouco a cabeça e os olhos, Verônica enxerga uma figura humanoide menos robusta e mais esbelta, mas que ainda assim é capaz de quebrar seu crânio com as mãos. A criatura segurava algo parecido com uma faca e reclamava enquanto mexia em um cisne maior que um humano. Estava decepcionada ao ter confundido o barco com um pássaro de verdade.
O fim chegou: como a garra de um urso pegando um peixe no rio para devorá-lo, a mão do humanóide que carregava Verônica a ergueu perto da fogueira. Pelo jeito, as criaturas tinham mais desenvolvimento cultural do que um urso e a matariam lentamente antes de assá-la como churrasco. A mão abaixou a jovem ruiva e a depositou sentada em um tronco.
Enquanto tentava pensar em uma forma de roubar o facão, a visão embaçada de Verônica se recuperou um pouco e, no seu foco, uma mão feminina forte colocou uma grande cuia de chimarrão.
— Tchê, guria. Não fica mosqueando. Te gruda neste mate pra te aquecer um pouco. O povo de fora não aguenta esse frio não. — Disse a mulher, para quem Verônica direcionou o olhar em seguida.
Ela media algo como um pouco mais de dois metros de altura, usava um vestido belo e simples de prenda otimizado para ela se mexer de verdade, e tinha um facão preso à cintura.
— Bueno, Conrado, — Disse a mulher com um sotaque de portuñol castelhano para o homem gigante. — agora pega a cara-pálida que caiu por lá.
O homem responde com algo que parece um tupi-guarani, mas arcaico, tanto em sotaque quanto em variação. Logo parece perceber que Verônica não entende e diz:
— Piá, não te acanha e te aprochega nessa carne aí enquanto vou buscar tua amiga. Tu estás fraca, precisa encher o bucho. — Enquanto isso, Conrado se afasta e caminha em direção ao outro lado da praia.
O efeito revigorante da erva-mate começou a afetar Verônica enquanto ela sorvia o líquido em entre seus lábios — uma sensação que parece feitiçaria a qualquer um que não conhece o chimarrão. A reflexão de Verônica foi interrompida por um som oco que chegou em seus ouvidos junto à visão de um mochinho sendo colocado na sua frente. Dois sons menores e também ocos vieram a seguir quando duas cumbucas são depositadas no mochinho.
Em uma das vasilhas, Anita deposita uma única costela de um grande animal, e o cheiro da carne faz a boca de Verônica salivar tanto e tão quente que quase encheu novamente a cuia de chimarrão. Na outra, Anita coloca um pedaço de moranga caramelizada. O estômago de Verônica e o chimarrão começam a roncar juntos. Então, a ruiva entrega a cuia para Anita.
Conrado se aproxima novamente. Verônica finalmente consegue enxergá-lo, todo pilchado, com lenço vermelho no pescoço, chiripá na parte inferior, e botas grossas de um couro que não pode ter saído de um animal comum. As mãos do homem novamente lembram armas. O gigante carregava Luciferina e a colocou no tronco, ao lado de Verônica, enquanto Anita alcançava a cuia cheia para a loira.
Sem voz, as duas desfiaram as carnes com os dentes como criaturas vorazes. A pomposidade e elegância de Luciferina foram devoradas pela fome e cansaço que sentia. O vestido já rasgado agora se via coberto de gordura animal que respingava na roupa ou que ela esfregava no tecido acidentalmente com a mão.
A cor voltou aos rostos das meninas enquanto se atracavam na comida e ignoravam a sua volta. Enquanto os sentidos voltavam, Verônica agradeceu por Tomás não estar com elas no momento. Com o nível de inteligência do guri, já teria tentado trocar soco com os dois gigantes à sua frente e garantido que eles realmente seriam o churrasco.
Voltando ao mundo à volta, o som da natureza que vinha de dentro da mata as acertava em volumes e ritmos inéditos e começou a ficar mais nítido conforme os estômagos se enchiam e aniquilavam a fome, dando lugar a outros sentidos. A costela gorda nas mãos de Verônica caiu quando ela finalmente se deu conta do cenário que estava a poucos passos dela.
Pisadas ainda mais fortes do que a de Conrado tremiam a terra, movimentos mais majestosos do que os de Anita atravessavam obstáculos, grunhidos brutais e quebradiços de criaturas digladiavam-se, piados agudos de criaturas aladas rasgavam os céus, e gorjeios graves de urubus macabramente celebravam ansiosos para levar a recompensa da batalha dos outros.
Anita e Conrado eram humanoides gigantes e robustos, mas minúsculos comparados às árvores de tronco maciço cujas alturas desafiavam os limites conhecidos de crescimento vegetal e os bicos afiados de aves colossais que perfuravam as nuvens entre imponentes morros e montanhas.
Um único som agradável se iniciou com a primeira cena carismática que Verônica conseguiu perceber desde sua chegada na ilha. Conrado dedilhou o início de uma milonga em uma gaita cordeona enquanto cantava a lenda de uma mulher que desafiou a floresta e foi abençoada por Caá-Yari, uma história com pontos similares a algo que Verônica já ouviu. A letra mostrava como Conrado abominava magia, mas via uma exceção na protagonista da sua canção.
O encantamento com a música é ofuscado quando as duas gurias percebem, atrás de um galpão de onde a mulher vai e vem, uma serpente cuja cabeça seria capaz de engolir todos ali em uma abocanhada. A criatura imóvel encara as árvores da mata como um aviso e as partes de seu corpo sem couro e sem carne mostram que a ameaça não é a serpente. Ambas finalmente ficaram confortáveis com o casal ao concluir que, se Anita e Conrado as quisessem de café da manhã, seus corpos já estariam no espeto há tempos.
— Sou Anita Borghetti e meu marido se chama Conrado Borghetti. Somos Campeões de quando a Ciméria era mais do que esta ilha perdida no tempo. Não fomos fortes o bastante em nossa Era, mas suficientes para proteger este local e guiar quem chegasse aqui.
— Verônica Rocha. E a ruiva apertou a mão de Anita, pensativa sobre o que significa não ser forte o suficiente para eles.
— Luciferina, a Princesa Necromante. — A palavra necromante fez Conrado suspender a música um segundo e Anita paralisar pelo mesmo tempo. Em seguida, voltando à normalidade, Anita não entende o braço estendido de Luciferina, que estava crente que teria sua mão beijada. A mulher de pele morena pega a mão de Luciferina e aperta normalmente.
— Estamos procurando por uma fábrica de sorvete. — Disse a ruiva. Conrado, que já tinha encerrado a música, franziu o rosto. Anita e seu marido refletem sobre as palavras. Então, algo parece vir à mente da mulher. — Ah, aquele galpão de ferro com umas máquinas e uns bicho esquisito onde faziam uns doce bom. Sei. Oh, Conrado, tu lembras como chegar lá?
— Lembro, mas, tchê, desse jeito elas não vão. Olha essas roupas de guria da capital e ainda tudo estrupiada. Não sobrevivem um passo. — Responde Conrado. Anita olha para elas e concorda. — Bah, vou arranjar uns trapo para vocês. — Diz a mulher.
— Vocês vão conseguir se defender dos bichão? Por que não deixam que eu leve vocês lá? — Pergunta Conrado.
Ao passo que Luciferina está pronta para aceitar ajuda, Verônica responde:
— Com meu arsenal da mochila, eu sempre consigo sobreviver. Podemos ir sozinhas.
Conrado caminha até a fogueira e traz uma mochila que estava secando perto do fogo e fedendo a fumaça. O homem balança a sacola na frente de Verônica e mostra que está vazia.
— Deve ter caído tudo na água. — A ruiva demonstra decepção
A perda de tesouros e armas valiosas dificultaria a viagem, mas Verônica logo se lembra da garra de máquinas de bichos de pelúcia que Luciferina usa como arma, presa a uma corrente, como um martelo meteoro. Quando a ruiva olha para a loira, recebe a resposta antes de perguntar.
— Queria ter trazido minha Garra, mas não esperava que ia precisar dela tão cedo. Sem problemas, já, já, meus nobres cavaleiros nos encontrarão. Sinto que estão bem. — Diz Luciferina, com um tom nobre e honrado, ainda recuperando o orgulho.
Conrado se sente inspirado na autoconfiança daquelas que estão na sua frente, pede que esperem e também se recolhe para dentro do galpão. Em seguida, traz um embrulho de pano, que abre no chão, mostrando diferentes armas de estilos, tempos e culturas variadas.
— Fica de presente, peguem o que quiserem. Nem cabem na minha mão mesmo. — Diz Conrado.
Verônica olhou fascinada para os itens dispostos e os pegou conforme as explicações de Conrado a atraíram. Dois facões de aço de damasco, um sabre de osso de tigre dentes-de-sabre e uma viola que possuía lâminas de machado em seu corpo.
Já Luciferina encontrou algo ainda mais inusitado. Um martelo meteoro feito com o corpo de uma longa e robusta cascavel, tendo o rabo de chocalho em uma ponta e a boca aberta, funcionando como garras na outra. Após uns testes, a loira percebeu que a Cascavel funcionava de forma parecida à Garra.
A loira e a ruiva trocaram olhares. Ao mesmo tempo que estavam satisfeitas com as novas vestes, não conseguiam ignorar uma estranha sensação. Era como se estivessem em uma obra de fantasia e a troca de roupas e armas sendo apenas uma desculpa para vender bonecos variantes.
Após as meninas esperarem durante mais uns pedaços de carne, Anita apareceu novamente. A prenda pediu desculpas enquanto explicava que o couro da outra serpente marinha que ela pegou dias atrás estava um pouco mais difícil de cortar ainda. A mulher gigante as convidou para entrar no galpão e as ajudou a se vestir como uma mãe vestindo suas filhas.
Verônica agora trajava uma jaqueta de couro com padrões de pele marrom de cobra no exterior e forro de lã por dentro. A blusa também era de lã, branquíssima. Uma calça seguia os padrões da jaqueta, mas em aparência lembrava um brim. As galochas, o cinto e uma nova mochila, por sua vez, eram feitos de couro de tigre dentes-de-sabre. Os botões, fechos e outros aviamentos eram feitos de ossos.
Luciferina recebeu um pacote fechado. Anita se arrepia enquanto fala e conta sobre uma vez em ajudou uma feiticeira da aracnomancia, de quem recebeu de presente um vestido feito de teias negras. O material seria capaz de espantar o frio e algumas ameaças, e os desenhos da roupa remetiam à armadilha aracnídea. A roupa nunca coube em Anita, mas dava direitinho em Luciferina.
— Agora, vocês duas vão pegar aquela trilha ali e vão seguir toda vida até perder a praia de vista. Aí, vai ter uma bifurcação, pega à esquerda. Segue, segue, segue, não para. Vai ter uma bergamoteira, duas bergamoteira, na terceira, sem erro, vira à direita e segue de novo. Não tem mais trilha ali, mas não tem erro, vocês se acham ali.
Após receber algum lanche para a viagem e cantis com água, as meninas finalizaram as preparações. Verônica ajeitou seus facões e seu sabre na guaiaca, ajeitou a mochila e a viola machado nas costas, e tomou o passo adiante da caminhada. Luciferina a segue em passos ágeis, firmes, mas graciosos. Com energia completa, sabia que não importava o tamanho do perigo, ele deveria se curvar perante sua realeza.
O vento soprava forte entre as árvores. O balançar das folhas, as criaturas se arrastando, os frutos caindo e não chegando ao chão. Se de alguma forma a ilha permitiu às gurias que chegassem lá, talvez não fosse um convite, mas uma armadilha para atraí-las e devorá-las. O medo, a tensão e a adrenalina voltaram conforme se afastaram do local aconchegante que estavam e seguiam a trilha que não estava tão bem demarcada quanto parecia nas instruções que receberam. A falta de pessoas passando ali definitivamente dificultou a demarcação dos caminhos a seguir.
— Puta que pariu, Verônica. Que rolê todo só por uma receita de sorvete. — A irritação e o cansaço fizeram até mesmo o linguajar nobre de Luciferina retroceder a um estado bárbaro. Ao se tocar do palavrão, logo bota a mão na boca.
— Ah, guria. Não é só uma receita de sorvete.
— Sim, é um legado, uma história, entendo esses valores, mas…
— Legado nada. Eu to aqui pelo pagamento. Por isso que não é pelo sorvete. E outra, a gente pode encontrar mais algumas coisas de valor no caminho. — Diz a ruiva. — Pessoas de várias eras passaram por aqui. Deixaram pertences, memórias…
— E corpos! — Luciferina dá um sorriso macabro. Verônica não entende se é sério ou uma piada, mas por enquanto, se não fosse o seu, estava tranquilo.
O vento que soprava parecia querer empurrá-las para fora como um último aviso sobre o lugar onde estavam para entrar. Se Verônica misturava medo e excitação, Luciferina tremia e suava as mãos, mas se forçava a continuar caminhando com firmeza e graça. Não poderia aceitar ser menos majestosa do que qualquer criatura daquela floresta.
Ao longe, a trilha branca e sinuosa provocava estranheza aos olhos das meninas. Ia de um lado para o outro e parecia rebolar para confundí-las os sentidos. Verônica esfregou os olhos para ver se a ilusão ia embora. Luciferina percebeu que era algo orgânico e disse a si mesma ser a própria ilha dançando para entreter Sua Realeza, a Princesa. Ambas estavam erradas e viram a trilha ao longe correr e mostrar-se, na verdade, uma onça de pêlo branco pronta para devorá-las.