Decidiram se encontrar em um morro da Zona Sul perto de suas casas, à noite. Levaram cangas, lanternas, seus doces preferidos, o ursinho de pelúcia e a Vela do Doce. Fizeram chocolate quente derretendo os doces preferidos e misturando tudo com uma cachaça para beber enquanto fofocavam e observavam os vagalumes verdes voando. Coisa de adolescente, mas, com exceção do álcool, eram tudo memórias a serem relembradas.
Embaladas pelas boas memórias do passado, trouxeram histórias à tona e riram juntas. O sorriso compartilhado voltou, borrado com a bebida deliciosa que todas tomaram, exceto Sabrina, que ainda estava em dúvidas sobre a mistura. Pareceu que nunca tinham brigado, apenas viajado para lugares distantes e agora se reencontravam depois de três anos.
Até que uma delas deixou escapar um desconforto recente com outra que, na defensiva, respondeu.
A animosidade começou, não parou, escalou. Sabrina ainda não estava na discussão, apenas mantinha seu coração apertado ao ver todas as outras discutindo de forma cada vez mais acalorada. Os gritos só não as deixaram roucas porque a voz deu lugar a algo pior quando aconteceu o primeiro tapa. Arranhões, socos e chutes vieram e Sabrina ficou desesperada tentando escapar daquela briga de suas amigas cujos olhos estavam cada vez mais vermelhos e arregalados.
O acidente veio. Na tentativa de se defender, uma delas segurou uma faca e acertou a outra, que entendeu como um ataque deliberado. Haviam facas suficientes para todas e as trocas de estocadas atravessaram qualquer noção de civilidade, sangrando as amizades até o último suspiro.
— Todos os vestidos ficaram vermelhos naquela merda, — diz Sabrina, fechando o punho e batendo na lateral do barco, assustando Verônica. Não com a batida, mas com a perda de pose. — as minhas doces amigas foram fatiadas como um bolo red velvet.
— Só sobrou tu?
— Sim e não. Parte das meninas ainda está comigo. Na hora eu fiz o único ritual de necromancia que eu lembrava. Fiz uma marca no chão, dentro de um círculo, coloquei o nosso ursinho no meio e acendi a vela. Só que… não aconteceu nada… Daí, eu saí correndo morro abaixo para falar com o papai e a mamãe… — a Princesa Necromante olha em direção ao Morro dos Namorados, visível de onde estavam.
Ela continua:
— Eu cheguei em casa, mas estava sem fôlego para falar. Perdi o ar de tanto correr, eu chorava demais e estava confusa com a cena que vi. Encontrei meus pais, os pais das meninas, alguns policiais e nossa professora de teatro na minha casa. Antes de eu começar a falar, fui atropelada com olhares e a Glenda…
— Glenda é a professora?
— Isso… Ela me entregou um caderno e perguntou se eu sabia de quem era…
Ao abrir, Sabrina viu que era um caderno de feitiços, um grimório, como os que ela e suas amigas tinham, mas mais… macabro. Magias para fazer pessoas sofrerem acidentes, afrouxarem a boca para contar segredos, afastar e romper nós. Uma lista de todos os acontecimentos e infortúnios que passaram nos últimos anos.
De quem era aquele livro? Só Sabrina e Heloísa não sofreram acidentes, mas Sabrina sabia que não era a culpada. Ao mesmo tempo, aquele caderno estava delicado demais para ser da curta e grossa Heloísa.
Roberta se recusaria a usar qualquer caderno, grimório ou não, sem orquídeas ou rosas como estampas. Uma mania chata, mas permanente. Ândria, uma carnívora voraz que se recusava a tocar em coxinha de frango por gostar tanto de pássaros jamais sacrificaria um pavão, ingrediente de um dos feitiços do livro. Ângela? Não… Aquela letra, ainda que bonita, era hieróglifos perto das lindas linhas que Ângela desenhava ao escrever.
Sabrina folheou o livro dividindo sua atenção com o choro e o desespero entalados na garganta, pensando em como contar o que acabou de acontecer. Recebeu uma ajuda inesperada para essa explicação: as páginas do grimório. A menina se surpreendeu ao encontrar rituais que se conectavam às tragédias dos últimos anos.
Um deles estava destacado com marcapáginas: o ritual que ilustrava a cena macabra que presenciou. A magia envolvia garantir que os alvos tivessem bebido álcool para funcionar e fazia pessoas que se amavam começarem a se odiarem enquanto o efeito do álcool estivesse ativo. Sabrina colocou todo o choro para fora quando finalmente encontrou e mostrou a página que ilustrava o banho de sangue que acabou de ver, relatando o acontecido.
Os pais de suas amigas saíram em disparada junto aos policiais, ficando apenas um deles, a professora e os pais de Sabrina, que a acolheram. Ela se sentia culpada de não ter conseguido impedir e de ter sido a única a não ter bebido. Também dizia que tinha medo de acharem que foi ela, mas todos ali, inclusive os pais que saíram correndo, sabiam que isso jamais aconteceria entre as meninas.
Foi então que Glenda revelou onde encontrou o caderno, assim um sexto elemento nessa história: Ana Carla. Esta era uma menina de família religiosa que estava sempre ao redor do quinteto, mas nunca conseguia entrar. Era excluída, rejeitada, ouvia piadas e comentários maldosos das cinco sempre que tentava se enturmar, e ao mesmo tempo que sofria repreensão dos pais por essas tentativas.
--
— Primeiro que a gente realmente não estava afim de trazer ninguém para o grupinho. Sim, tínhamos outros amigos, mas era diferente. A Ana era sem postura, sem graça, e extremamente invasiva. Chegava do nada nos nossos encontrinhos.
— Ah, po, mas vai ver ela tava sozinha e queria se enturmar, né…
— Até tentamos uma época, mas ela ficou uma hora pregando após assistir Sexta-Feira 13 com a gente. Aí os pais dela também vinham pentelhar a gente, faziam sinal da cruz quando passavam por nós. Olha, até ganhavam mais que nós, mas agiam como plebe.
— Aí ela fez magia?
— Ela começou a dizer que a gente era o ciclo do demônio e que iríamos acabar invocando o diabo. A magia que ela usou não é de uma tradição muito comum, não sei como ela teve acesso. De qualquer forma, parece que resolveu aprender magia negra para usar fogo contra fogo e nos afetar. Claro, também como vingança de não ter sido aceita no nosso grupinho.
— Po, ela escreveu até as motivações dela no livro?
— Não, isso foi inferência da professora. Nem conseguimos falar com ela depois, porque sumiu. A Glenda achou o livro na mochila da guria, conectou umas pontas, chamou meus pais para conversar, que tentaram falar comigo, mas nenhuma de nós estava respondendo as mensagens. Ficaram preocupados, se reuniram, chamaram a polícia…
— E como a guria sabia que vocês iam se encontrar naquele dia?
Ana Carla soube do encontro das cinco ao ouvir a professora fazer a sugestão depois de um dia de aula do teatro.
Então, Sabrina foi ao velório e viveu o luto trancada no quarto sozinha até que o urso de pelúcia apareceu em sua janela se mexendo, se comunicando e pedindo doces. Ela decidiu, naquele dia, que carregaria o legado de suas amigas e se tornaria uma princesa com a nobreza de cinco princesas e, futuramente, uma rainha com o poder de cinco rainhas. O Purserino seria apenas um dos seus muitos e poderosos servos nesse reino.
Na segunda-feira depois da missa de sétimo dia, Sabrina recebeu de sua professora de teatro um convite de entrevista de estágio na Coruja, empresa que administra alguns pubs, bares e casas de festa em Porto Alegre. A professora a tinha indicado para Maria Júlia, dona da empresa, que conheceu por encontra-la com frequência no parque ao levar cachorros para passear. Acreditou que poderia ajudá-la a manter a mente ocupada.
Lá, Sabrina descobriu que o convite foi manipulado para chegar em suas mãos e que Coruja era o nome de Superfície da Carpe&Die. Desde que as cinco amigas começaram a estudar e praticar rituais de magia negra mais avançados, entraram na mira de muitas pessoas do Submundo com interesses diversos. Recrutamento, eliminação, persuasão, sedução, corrupção.
Agora que só havia Sabrina, o interesse estava concentrado na menina. Maria Júlia, então, ofereceu alguma segurança a ela e à sua família, um trabalho (como Proto-Humana, claro) e ajuda na obtenção de recursos para estudos, sejam financeiros, livros ou objetos. Por fim, ainda ofereceu um curso de enfermagem para que ela aprendesse mais sobre anatomia, suturas e operações cirúrgicas sem precisar do curso mais extenso de medicina. Foi quando Sabrina se juntou à facção, mas foi apenas ano passado, quando já tinha o Harperino e a Garra, que entrou no Ciclo de Proto-Humanos.
— Caralho, velho. Tenso para cacete. Mas e tu não foi atrás da guria lá? — Perguntou Verônica.
— Ma chèrie suivante, considerei, mas ela já estava bem longe. A melhor vingança é a fundação do meu reino em nome das meninas. Se aparece a oportunidade de honrar minhas amigas, o farei, mas não quero fazer disso meu objetivo de vida. E tu, me conta sobre ti, ma chèrie.
— Eu só tenho o que te contei. Ah, e depois dos meus pais morrerem passei uns seis meses com a minha madrinha. Ela parecia me curtir, me aguentava de boa, sorrindo, mesmo comigo chorando dia sim, dia também. Do nada me largou nas mãos da Srta. Rosa e nunca mais voltou… Estamos chegando, vejo teu carro daqui, está seguro. — Verônica apontou para as margens.