VRUUM ZIZIZI RROOCH ZUPT POW POW BLAM
O Professor foi interrompido por uma moto energizada brilhando em eletricidade vermelha que queimou toda a grama ao cruzar a frente dos dois grupos e errar na hora de frear. Aí o piloto pulou da moto enquanto tentava virar antes de bater, que capotou e continou girando no ar e batendo no chão. Por fim, ela se quebrou na arquibancada.
— CARALHO, TOMÁS, OLHA O QUE TU FEZ COM A MINHA MOTO DE NOVO! — Gritou Verônica.
— ESSA MOTO NÃO É TUA, JUMENTA. EU NÃO SEI PILOTAR A TUA MOTO. — Tomás retrucou se levantando.
— TU NÃO SABE PILOTAR NENHUMA MOTO! — Verônica deu um tapa na própria testa.
— Ha, verdade. — Tomás riu. — Eu tava vindo de carro com um motorista do Roseiral, mas daí achei essa moto ali na frente e pensei que seria da ora chegar usando ela.
— Era minha… — Disse Gustavo bem baixinho, com mágoa.
— Oh, aí não tinha chave e tentei fazer ligação direta com os dedos. Funcionou bem demais. — Completou Tomás. — As roupas de vocês tão massa, deviam vender boneco. Boa noite aí, é, Sabrina?
— Respeito, guri, ela é uma princesa. — A resposta da ruiva saiu meio séria e meio irônica num tom em que só os dois se entendem.
— Opa, desculpa. — Tomás elevou um pouco o tom. — Boa noite, mademoséli. — Tomás se ajoelhou, pegou a mão de Luciferina e beijou.
— Bonsoir, mon chèri.
— Como tu encontrou a gente? — Perguntou Verônica.
— Vocês sumiram, daí viram o carro dela vindo pra cá, falaram para nossas chefes e só segui. Quem é o velho? — Tomás botou o dedo na cara do Professor e Luciferina deu uma pequena risada. — Foi ele quem ferrou com vocês? — E fechou a cara ao notar os curativos.
— Chevalier Vachet — Luciferina colocou a mão delicadamente no ombro de Tomás e falou em tom gentil e explicativo. — Estes ferimentos são graves sim, mas não teríamos tido tempo de colocar estes curativos se fosse algo de agora, não achas? Bem, o que acontece é que estamos sendo coagidas por este senhor pelos espólios de nossa expedição.
— Ah, se era só isso... — Tomás virou um soco na boca de Professor Hemerson, que caiu para trás. — Resolvido.
— PROFESSOR! — Gustavo correu para ajudar Hemerson a se levantar.
— Tomás, o problema não era ele. — Disse Verônica.
— O piá? Capaz. Tá, vão ligando o carro que eu termino o serviço. — Tomás empurrou as meninas em direção à saída do campo, mas elas se distanciaram incomodadas com a expulsão.
— Tu tá machucado ainda, seu merda! — Verônica virou um pouco o rosto.
— Tava ontem, agora só to com uns roxos. Vão logo que além de estarem esgualepadas, estão fedendo e o cheiro tá irritando. — Tomás retrucou. Como resposta, elas seguiram o caminho para a saída.
— Esse plebeu é atrevido. — Luciferina mostrou um tom irritado.
— É. — Verônica bufou.
— Mas ele vai ficar bem?
— Um cavaleiro e uma princesa me ensinaram o ato nobre de entregar a confiança na mão de alguém que diz “eu cuido disso”. Pode não ter o melhor resultado, mas cabe a mim confiar.
As meninas entraram no carro enquanto Tomás continuava no campo. Hemerson gemeu de dor segurando dois dentes na mão e com o sangue escorrendo da boca. Gustavo ajudou a estancar o machucado usando uma gaze que tirou do bolso do professor que parecia preparado com alguns itens de primeiros socorros.
— Tá, vamos. Pelo menos fica de pé para eu poder te socar também. — Disse Tomás para Gustavo.
— O vermelho da roupa do Papai Noel foi uma invenção de marca de refrigerante… — Gustavo respondeu com uma voz baixinha, irritada e chorosa.
— Quê?
— No Japão, Natal é menos uma data familiar e mais uma data romântica. — Gustavo continuou, mas agora com uma voz um pouco mais alta, mais irritada e mais chorosa.
— Do que tá falando?
— Boa parte dos elementos do Natal são heranças do Festival de Yule misturado com peças de marketing! — Gustavo aumentou ainda mais a voz, a irritação e o choro.
— Foda-se, caralho.
— EXATAMENTE! — Gustavo virou o rosto em ira e lágrimas e encarou Tomás. — Todo mundo diz foda-se para a minha pesquisa sobre os elementos e arquétipos do Natal! — Gustavo se levantou segurando a caixinha aberta.
— Pode ser só que tua pesquisa seja ruim, sei lá.
— Quando o Professor Hemerson descobriu sobre a existência dos Ecos ano passado, me convidou para os estudos dele no Submundo porque sabia que a gente podia se ajudar. Ele acreditou em mim, orientou minha pesquisa E ME DEIXOU PUBLICAR SOBRE O NATAL. — Gustavo colocou o nariz vermelho em cima do seu e segurou os chifres de rena na cabeça.
— Foi só um soco, ele não morreu e, porra, isso tá uma palhaçada, irmão.
— EU NÃO SOU TEU IRMÃO. — Os chifres e nariz viraram pontos brilhantes e foram absorvidos por Gustavo. Em seguida, sua altura subiu para uns dois metros, músculos se desenvolveram para o mesmo nível de Tomás, a pele virou um pêlo curto marrom, chifres nasceram, os pés viraram cascos e o rosto se modificou para completar a transformação em um homem rena de nariz vermelho. — EU SOU TARANDUS.
— E os palhaços são os mais complicados. VAMO, CARALHO! — Tomás saltou com os punhos cerrados enquanto energizava sua mão e falhou, mas o soco ainda causaria bastante dor se acertasse.
Antes do golpe aterrissar em Gustavo, o homem rena fez surgir a partir de suas mãos um fio com luzes coloridas de Natal que enrolaram o braço de Tomás. Gustavo puxou os fios e derrubou Tomás no embalo do soco. Em seguida, Tarandus se virou, pegou o professor, deu uns saltos e deixou Hemerson fora do campo.
— Onde pensa que vai? — Tomás pergunta se levantando. — Volta aqui que vou socar tua cabeça até estourar teus miolos e o crânio virar um globo de neve. Não sabe que ainda tem uns 10 meses pro Natal, doido da porra?
— Acontece que tu te comportou tão mal que o Papai Noel decidiu te punir mais cedo.
— Quem me chamou de menino mau foi a tua Mamãe Noel depois que ofereceu para molhar o biscoito quando levei presente para ela. Agora, para de chorar, — Tomás dá três tapinhas na coxa — e senta no colo do titio para pedir teu presente.
Tarandus, com ira e elegância, levantou sua mão e fez surgir no ar uma Árvore de Natal com a ponta inclinada para Tomás. O pinheiro começou a girar rapidamente disparando pinhas como uma metralhadora.
Tentando desviar, Tomás tomou vários tiros que causaram alguns furos na sua roupa, reabriram machucados antigos e causaram alguns novos. Quando os disparos cessaram e Tarandus correu em sua direção jogando bolas de natal pesadas como chumbo, este decidiu mostrar verbalmente a sua ira. Com uma voz que nunca usou antes, Gustavo disse:
— DEPOIS DE ACABAR CONTIGO, VOU FAZER INCENSO COM AS CINZAS DAQUELAS DUAS.
O grito, no entanto, apenas lembrou Tomás de que a luta não era por glória, pela sua carreira ou apenas por seu orgulho. Se ele não levasse esse combate a sério e demonstrasse toda sua superioridade como impetuoso e poderoso lutador, permitiria uma ameaça física e moral avançar para cima de Verônica e Luciferina, que já estavam bastante feridas. Precisava vencer.
Tomás correu na direção de Tarandus e gerou alguns choques no ar que fizeram as bolas de natal ricochetearem para todos os lados. Algumas das esferas acertaram Gustavo com ainda mais força do que este tinha jogado. Apesar da natureza poderosa do Eco e de sua alta afinidade, Gustavo não era originalmente forte, resistente, experiente em batalhas ou acostumado com se machucar.
As dores que o homem rena sentiu tiveram o dobro de efeito. Em seguida, o soco elétrico finalmente o acertou, amassando o focinho e quebrando seus dentes. Tomás seguiu a sequência até derrubar a criatura no chão, pisou no estômago, pisou no saco e terminou pulando em Tarandus com o cotovelo acertando-lhe a garganta.
O rapaz de poderes vermelhos se levantou e começou a sentir os machucados dos pinhos disparados. Enquanto reparava os ferimentos, surgiu um novo quando algo pontiagudo cravou suas costas. Ele logo arrancou o objeto: uma estrela de Árvore de Natal. Tomás se virou para trás e viu o resto do pinheiro flutuante acerta-lo como uma lança. Apesar de tentar desviar do projétil, ele ainda foi atropelado pelo tronco e pelos galhos na altura do ombro, com as pontas raspando e rasgando o peito.
Ao olhar para o oponente, Tomás viu que ele estava novamente de pé. O nariz de Gustavo brilhou quando fez um movimento com a mão. Três caixas de presente pesadas caíram perto de Tomás, que desviou, mas percebeu que elas nem tentaram acertá-lo.
Uma vontade irresistível e súbita o fez pegar a primeira caixa, rasgar o embrulho e abrir a tampa. De dentro, um 14 Bis de brinquedo feito de madeira surgiu e cortou sua cara com a hélice e as asas ao atropelar sua cabeça. A vontade surgiu novamente e ele abriu a segunda caixa, de onde um boneco de super herói genérico saiu voando e deu um soco na boca de Tomás. A terceira caixa, no entanto, revelou apenas um par de meias, o golpeando emocionalmente, fazendo-o se sentir totalmente decepcionado.
Sua reação deu brecha para um chute de Gustavo, cujo pé estava reforçado com a dureza de um casco. Tomás se jogou para o lado, virou no ar em uma estrelinha, ficou de pé, deu um pequeno pulo no lugar e correu na direção de Gustavo. Quando Tomás preparou a mão para o golpe, a rena humana jogou novamente os fios com as luzes de Natal, mas errou, pois o soco era só um blefe.
Tomás usou a mão para direcionar seu impulso na diagonal, se jogando no chão enquanto virava dois chutes no peito de Gustavo. Logo, ele se levantou e disparou na direção da rena novamente, pulou alto com as pernas recolhidas e deu uma sequência de galopadas, também no peito de Gustavo. A cada pisada, Tomás foi acumulando mais e mais eletricidade e, na última, ele descarregou toda a energia.
Um barulho de ossos se quebrando mostrou que Gustavo, agora ajoelhado com uma perna só e a mão no peito, não tinha muito mais o que entregar. Os Homens de Preto da região já estavam mobilizados para limpar o cenário, só que logo tiveram que recuar porque a luta não tinha acabado. O nariz vermelho do homem rena brilhou bem forte e dezenas de caixas de presente caíram ao redor de Tomás.
Ao redor, já tinha se formado uma plateia de Homens de Preto. Esse grupo tem responsabilidade de limpar os vestígios do Submundo, mas mesmo sendo por trabalho, alguns de seus membros legitimamente gostam de assistir boas lutas. Uma menina que estava assistindo a Tomás vs Gustavo tomou nota dessa última habilidade demonstrada e nomeou de “O Milagre de Natal” antes de enviar para o Tuco-Tuco, o portal online que compila informações sobre Proto-Humanos.
Tomás sentiu a vontade de abrir as caixas, mas conseguiu resistir à tentação e abriu um sorriso debochado por não ter caído de novo nessa. Mesmo assim, os laços dos presentes se desfizeram sozinhos, as tampas deslizaram e diversos brinquedos se jogaram em Tomás, que tentava se defender.
— Quanta ingratidão…— Diz Gustavo, arfando, tentando ter fôlego para se manter em pé. — Cada um desses presentes foi feito especialmente para ti.
— Vou enfiar tudo isso de volta na tua chaminé!
O contra-ataque de Tomás foi uma combinação de chutes, gingas, piruetas, socos, agarrões e disparos de raio que acertaram cada um dos brinquedos. Enquanto isso, mais caixas foram caindo.
A quantidade de ataques simultâneos se manteve a mesma por um tempo, mas, depois, começaram a diminuir. Ao passo que menos caixas caiam, Tomás destruía mais brinquedos, até que a cabeça do último palhaço de plástico foi arrancada. Enfim, o capoeirista teve tempo para tomar fôlego e olhou para seu oponente, Tarandus, que já estava inconsciente. Ao longe, ele avistou Hemerson de pé, pressionando a boca com um pano e rindo com algumas pessoas à sua volta, inclusive uma mulher a quem ele chamou de reitora. O grupo estava o cumprimentando pelos resultados da pesquisa.
Tomás respirou fundo, satisfeito com o seu resultado, e foi embora caminhando, mancando, cansado. Não realmente esperava que fosse ter algum tipo de combate hoje e foi contra o ser mais imprevisível que já enfrentou. Mal começou sua carreira nesse ramo, mas já enfrentou um cosplayer de alienígena que realmente ia ser o avatar de um deus extracósmico e um homem-rena que é a própria egrégora do Natal.
Percorreu todo caminho até o estacionamento onde, em vez de algum motorista da Srta. Rosa, estava a Ferrari preta com Verônica e Sabrina. Ele se acomodou no banco de trás com as pelúcias, fechou a cabeça e começou a fazer cafuné em Purserino quando a pelúcia se acomodou no colo de Tomás. A loira ligou o carro.
— O cara invocou uma Árvore de Natal e transformou numa metralhadora de pinhas.
— Nós sabemos, coloquei para assistir no celular. — Diz Verônica. — Se tu acha que isso foi doido, espera ouvir sobre a ilha escondida no meio da Laguna dos Patos onde a gente enfrentou touro gigante que cuspia gelo.
— Essa história não pode sair daqui, mon chevalier. — Comenta Sabrina enquanto saiam do estacionamento.
— Vamos comer um xis de coração na Lanchera do Parque então que boca fechada não fala merda. — Responde Tomás.
— Porra, aí sim, com um sucão e uma cerveja depois. — Completa Verônica.
— Esse mau gosto plebeu… — Sabrina acelera o carro na avenida.