O corpo seguia em frente por inércia.
O metrô avançava sob a cidade com o ruído habitual — trilhos rangendo, portas abrindo, anúncios metálicos — mas nada disso atravessava sua mente. As luzes passavam rápidas demais pelas janelas, linhas contínuas de branco e sombra que não deixavam marca alguma.
Não havia pensamento.
Apenas cansaço.
E a sensação de dever cumprido.
Sentada, a cabeça levemente apoiada no vidro frio, ela fechou os olhos por alguns segundos. O corpo protestava em silêncio, cada músculo pesado, cada articulação lembrando o que havia sido exigido naquele dia. Ainda assim, algo se mantinha firme — uma rotina respeitada, um processo concluído.
Foi então que surgiu.
Quase imperceptível.
Um sorriso curto, de canto de boca.
Não era alegria.
Não era alívio.
Era antecipação.
O pensamento veio simples, sem forma definida: chegar logo.
Por alguém.
O metrô parou.
Ela desceu com os outros, seguiu o fluxo automático de corpos, subiu escadas, atravessou catracas. O mundo funcionava bem quando ninguém exigia mais do que o necessário.
A rua estava silenciosa demais para aquele horário. Poucos carros. Pouca gente. As lâmpadas dos postes piscavam ocasionalmente, cansadas como ela.
A chave girou na fechadura.
Clac.
A porta se abriu.
Antes mesmo da luz.
Antes mesmo da visão.
O som.
Uá.
Uá.
Uá.
Um choro fino, insistente, atravessando o corredor escuro como um sinal contínuo. Não havia variação. Não havia pausa longa o suficiente para indicar consolo.
Ela entrou e fechou a porta atrás de si.
O apartamento permanecia quase todo na escuridão. Apenas uma fresta de luz escapava do quarto ao fundo, fraca, insuficiente para iluminar o caminho.
O choro continuava.
Uá.
Mais alto agora.
Mais urgente.
Ela caminhou devagar, os passos cuidadosos, como se o chão pudesse acordar junto. O corpo reclamava, mas o movimento vinha automático, aprendido.
Parou à porta do quarto.
Ali, o som parecia maior do que o espaço.
Um pequeno corpo no berço, invisível na penumbra, chorava com tudo o que tinha — sem saber se alguém ouviria, sem saber se havia alcance suficiente.
O choro não pedia palavras.
Era transmissão.
Broadcast.
Ela estendeu a mão em direção ao interruptor, mas hesitou.
Por um instante, apenas ouviu.
O sinal seguia.
Sem confirmação.
Sem resposta.
Ainda assim, persistente.
Ela respirou fundo e entrou no quarto.
— Eu ouvi.
O cansaço continuava ali.
Mas agora havia algo esperando.
E isso bastava.