Capítulo 16 - Café, Nomes e Perguntas Perigosas
05 de Abril – 19:41
O terceiro dia de castigo de Itsuki terminou da mesma forma que os outros: com o ginásio impecavelmente limpo e o silêncio ecoando em seus ouvidos. A rotina havia se tornado quase meditativa, uma chance para ele processar os eventos do dia.
Ele trancou o depósito e saiu para o pátio escuro, já esperando o que encontraria. E ele não ficou desapontado.
Parada sob o mesmo poste de luz da noite anterior, como uma atriz esperando sua deixa no palco, estava a Diretora Reina Kurokawa. E em suas mãos, dois copos de café.
Ela é realmente insistente nisso, pensou Itsuki, uma ponta de admiração relutante pela tenacidade dela se misturando à sua suspeita.
Ele se aproximou, e ela lhe ofereceu o copo com o mesmo sorriso educado e atencioso.
"Boa noite, Takeda-san. Achei que um pouco de cafeína seria bem-vindo novamente", disse ela.
Itsuki pegou o copo, o calor familiar em suas mãos. "A senhora não precisava se incomodar, Diretora. Estou quase me acostumando com a rotina."
"Ainda assim, é uma longa noite de trabalho", respondeu ela, mantendo seu papel.
Ele tomou um gole, o líquido amargo descendo por sua garganta. Ele a encarou por cima da borda do copo, os olhos calmos e analíticos. Era hora de fazer seu movimento.
"Sabe, Diretora, eu estava pensando", começou ele, o tom casual, como se estivesse fazendo uma observação trivial para passar o tempo. "Kurokawa. Esse nome não me é estranho."
Ele viu. Um minúsculo, quase imperceptível, enrijecimento nos ombros dela. A confirmação de que ele havia atingido um nervo.
"Meu avô e eu estávamos conversando sobre clãs antigos outro dia", continuou ele, uma meia-verdade conveniente. "Sua família é de alguma cidade histórica? Kyoto, talvez? Ouvi dizer que muitas famílias importantes vêm de lá."
A pergunta, disfarçada de curiosidade inocente, era uma faca afiada. Ele não estava mais apenas observando as ações dela, estava cavando em sua identidade.
A mente de Reina disparou. Clãs antigos? O avô dele? O mestre do Clã Takeda? Eles sabem de alguma coisa? Eles estão investigando? Por que essa pergunta, agora? O nome dela era a chave para tudo, e ele estava tentando girá-la na fechadura.
Ela forçou seu rosto a permanecer passivo, dando um pequeno riso que soou um pouco forçado aos ouvidos treinados de Itsuki.
"Oh, não, nada tão grandioso", respondeu ela, a voz um primor de falsa modéstia. "Somos de uma cidade pequena e tranquila no interior. O nome é mais comum do que parece. Você deve estar nos confundindo com outra família."
Era uma negação perfeita. Vaga, humilde e completamente fechada a mais perguntas.
"Entendo", disse Itsuki, tomando mais um gole de café. "Apenas curiosidade."
Seus olhos diziam o contrário. Eles diziam: Eu não acredito em uma única palavra sua.
"Bem, está ficando tarde", disse ela, terminando o café rapidamente. "Tenho que fechar meu escritório. Boa noite, Takeda-san."
"Boa noite, Diretora. Me desculpe pela pergunta, eu também gosto de saber um pouco da história das famílias, dos clãs, acho muito interessante".
“Sim, é sempre construtivo aprender sobre nossa história, mas preciso ir agora, podemos conversar mais uma outra hora.”
Ela se virou para caminhar de volta para o prédio, a postura impecável como sempre. Ela deu dois, três passos na calçada irregular do pátio quando, de repente, seu calcanhar pareceu prender em uma pequena fissura. Ela perdeu o equilíbrio com um grito abafado de surpresa.
"Ah!"
Seu corpo pendeu para o lado, e ela caiu de mau jeito, o tornozelo virando sob seu peso.
"Diretora!"
Itsuki se moveu por puro instinto. Ele largou o copo de café e, em dois passos largos, estava ao lado dela, segurando seu braço para que ela não caísse completamente no chão.
"A senhora está bem?", perguntou ele, ajudando-a a se firmar.
Reina estava com o rosto pálido, uma expressão de dor genuína contraindo suas feições. "Meu... meu tornozelo", ela sibilou, tentando colocar o pé no chão e recuando com uma careta. "Acho que eu o torci."
"Não force", disse Itsuki, o tom de voz assumindo um comando calmo. "Apoie-se em mim. Vou ajudá-la a chegar na sua sala."
Sem esperar por uma resposta, ele passou o braço dela sobre seus ombros, suportando o peso dela. Reina hesitou por um instante, surpresa com a atitude dele, mas a dor em seu tornozelo era aguda demais para protestar. Apoiando-se nele, eles caminharam lentamente pelo pátio silencioso e subiram para o segundo andar.
Ele a ajudou a se sentar na cadeira de sua sala, ela elevou o pé machucado, colocando o pé sobre outra cadeira.
"A enfermaria deve ter uma caixa de primeiros socorros. Eu sei onde fica. Espere aqui", disse ele, já se virando e saindo da sala antes que ela pudesse dizer algo.
Alguns minutos depois, ele voltou com uma pequena caixa branca. Ele se ajoelhou em frente a ela sem cerimônia, pegou um spray analgésico e uma faixa de compressão.
"Pode doer um pouco", avisou ele.
Enquanto ele aplicava o spray gelado e começava a enfaixar o tornozelo dela com uma habilidade surpreendentemente firme e praticada, sua mente, agora livre da adrenalina do momento, começou a trabalhar.
Ele estava concentrado na tarefa, mas uma imagem não saía de sua cabeça. A imagem de Reina, naquela mesma sala, movendo-se como um borrão para pegar uma pilha de papéis no ar. A graça, o equilíbrio perfeito, a velocidade sobrenatural. Aquela era a imagem de uma pessoa com um controle corporal absoluto.
Ele apertou a faixa, garantindo que estivesse firme, mas não apertada demais.
Estranho, pensou ele, a testa franzida em concentração.
Ele olhou para o tornozelo enfaixado, depois para o rosto dela, que o observava em silêncio, a expressão indecifrável.
Muito estranho. Eu vi a agilidade dela. O reflexo. Alguém com aquele controle corporal, com aquela percepção de espaço... não tropeça do nada em uma rachadura que qualquer um desviaria sem pensar.
Ele prendeu a ponta da faixa, o trabalho estava terminado. O tornozelo de Reina estava firmemente imobilizado.
"Isso deve ajudar", disse ele, se levantando. "Mas a senhora deveria ver um médico amanhã."
"Obrigada, Takeda-san", disse ela, a voz um pouco mais suave. Ela olhou para a faixa bem-feita. "Você é surpreendentemente habilidoso com primeiros socorros."
"Faz parte do treinamento", respondeu Itsuki de forma sucinta, começando a guardar o material de volta na caixa.
"Ah, sim. O treinamento do Clã Takeda", disse Reina, e seu tom de voz mudou, tornando-se mais leve, quase acadêmico. "Eu sempre gostei muito de estudar a história do Japão, sabe? Especialmente os clãs do período Sengoku. É um hobby."
Itsuki parou o que estava fazendo, o olhar afiado. Ele sentiu a mudança na conversa, a transição de um agradecimento para um interrogatório sutil. Ele se virou para encará-la.
"Falando nisso", continuou ela, com o ar de uma entusiasta da história compartilhando um fato interessante, "o Clã Takeda sempre foi fascinante. A maioria das pessoas lembra da cavalaria, mas o estilo de combate desarmado deles é o mais intrigante."
Ela o encarou, os olhos violeta brilhando com um conhecimento que não parecia vir de um hobby casual.
"O Takeda-ryu Jujutsu, não é? Um foco intenso em controle, alavancagem e em usar a força do oponente para criar uma abertura. Uma arte marcial que é tanto um shogi físico quanto uma luta. Muito particular."
O silêncio na sala era pesado. A mente de Itsuki disparou. O conhecimento dela era específico demais. Preciso demais. A reação de seu avô ao nome "Kurokawa" veio à sua mente. As peças começaram a se conectar de uma forma alarmante. A diretora de uma "cidade pequena e tranquila" não saberia detalhes tão íntimos sobre a arte marcial de seu clã.
A surpresa em seu rosto era genuína, mas ele a temperou com uma dose de intriga calculada. Ele cruzou os braços, um sorriso lento se formando em seus lábios, um sorriso que não alcançava seus olhos.
"Diretora Kurokawa", disse ele com a voz calma, mas com um novo peso. "Estou impressionado. Você é uma mulher misteriosa, interessante."
Ele a encarou, o olhar penetrante, com o elogio ecoando em seus ouvidos.
"De verdade. Esse não é o tipo de conhecimento que se encontra nos livros de história comuns de uma biblioteca escolar. Onde, exatamente, a senhora estudou sobre isso?"